Parque nacional costuma ser tratado como decisão definitiva, mas o da Chapada dos Veadeiros mostra que o mapa pode encolher. Em pouco mais de duas décadas, a unidade no nordeste de Goiás perdeu quase 90% do território com que nasceu. Só voltou ao tamanho atual depois de uma cobrança internacional que durou anos.
Como o parque perdeu quase 90% da área original?
Perdeu em duas canetadas. Segundo a Agência Senado, a área caiu de 625 mil hectares para 171 mil em 1972 e para pouco mais de 65 mil em 1981, restando menos de um décimo do território original.
A unidade tinha nascido em 1961, por decreto de Juscelino Kubitschek, com o nome de Parque Nacional do Tocantins. A primeira redução veio quando o parque perdeu as terras às margens do rio que lhe dava nome, e foi aí que passou a se chamar Chapada dos Veadeiros. A segunda abriu espaço para a construção da rodovia GO-239, que liga Alto Paraíso de Goiás a Colinas do Sul.

Por que a UNESCO passou anos cobrando o Brasil?
Porque o país inscreveu uma coisa na lista e protegeu outra. O sítio Áreas Protegidas do Cerrado entrou na lista do Patrimônio Mundial em 2001, conforme a UNESCO, com a área do parque já ampliada por decreto federal. Só que esse decreto foi anulado na Justiça, por falhas no processo de consulta pública, e os limites voltaram aos 65 mil hectares.
O resultado foi um sítio de patrimônio mundial parcialmente desprotegido. Em decisão de 2011, o Comitê do Patrimônio Mundial registrou séria preocupação com o fato de 72% da área do parque estar sem marco legal em vigor e pediu ao Brasil que restabelecesse a proteção sobre o conjunto. O tema voltou à pauta do comitê em seis sessões seguidas, e chegou a ser cogitada a inclusão do sítio na Lista do Patrimônio Mundial em Perigo.
O que mudou com o decreto de 2017?
Mudou a escala do que está sob proteção integral. O decreto de 5 de junho de 2017 ampliou o parque para 240.611 hectares, distribuídos por Alto Paraíso de Goiás, Cavalcante, Nova Roma, Teresina de Goiás e São João da Aliança, e incluiu expressamente o subsolo dentro dos limites da unidade.
O ganho ambiental foi contabilizado pelo Ministério do Meio Ambiente, que apontou a proteção de 34 espécies da fauna e 17 da flora ameaçadas de extinção, entre elas a onça-pintada, o lobo-guará, o pato-mergulhão e o cervo-do-pantanal. A ampliação também costurou um mosaico com reservas particulares e com o território quilombola Kalunga, o maior do país.

O que ver dentro e no entorno da Chapada dos Veadeiros?
O parque protege campos rupestres, matas de galeria e um relevo de arenito e quartzito com centenas de nascentes, e a visitação se organiza em trilhas com entrada controlada pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Confira abaixo os pontos que estruturam o roteiro:
- Saltos do Rio Preto: par de quedas dentro do parque, alcançadas por trilha que passa por mirantes sobre o cânion.
- Cânions do Rio Preto: paredões de quartzito esculpidos pelo rio, com poços de água transparente na base.
- Vale da Lua: leito rochoso lavrado pela água no Rio São Miguel, fora dos limites do parque, em área particular.
- Cachoeira Santa Bárbara: queda de água esverdeada no território Kalunga, em Cavalcante, com visitação conduzida pela comunidade.
- Alto Paraíso de Goiás: cidade que funciona como base de apoio, a cerca de 230 km de Brasília.
Como é o clima na chapada ao longo do ano?
A altitude segura as máximas e a chuva marca a divisão do calendário de forma quase brutal. Em novembro caem em média 386 mm em Alto Paraíso, contra 1 mm em julho, veja abaixo como o ano se organiza:
Médias climatológicas de 30 anos de Alto Paraíso de Goiás publicadas pelo Climatempo. As condições variam de um ano para o outro por influência de fenômenos como El Niño e La Niña, então vale checar a previsão atualizada antes de viajar.
Um parque que precisou ser reconstruído no papel
A paisagem da chapada nunca deixou de existir, mas por quase quarenta anos a maior parte dela esteve fora do alcance da lei que deveria protegê-la. O que se recuperou em 2017 não foi mata nova, e sim o direito de tratar aquele território como área intocável, na prática e no registro. Comparação parecida vale para o cerrado de altitude elogiado por Burle Marx, que depende do mesmo tipo de amparo legal.
Fica a lição embutida nesses números: no Brasil, o tamanho de uma área protegida é menos uma medida de terreno do que o retrato de quanta atenção ela recebeu ao longo do tempo.




