Hoje, quem sobe a Serra da Mantiqueira pensa em fondue, lareira e roupas de frio. Há pouco mais de cem anos, porém, a viagem até Campos do Jordão, em São Paulo, tinha outro motivo: buscar tratamento para doenças do pulmão. O ar seco e frio da montanha atraiu doentes de várias partes do país, inspirou médicos sanitaristas e deu origem a uma ferrovia criada para levar pacientes até o alto da serra, que continua funcionando como passeio turístico.
Por que doentes subiam a Serra da Mantiqueira?
Por causa do clima. Segundo o Jornal da USP, o clima da região era considerado terapêutico pelos médicos da época e transformou o pequeno povoado em um centro urbano voltado a receber pacientes em sanatórios, pensões e até residências. A procura vinha de vários lugares do país e de fora dele, de pessoas que buscavam tratamento para a tuberculose.
A cidade se organizou em torno dessa função. A mesma reportagem registra a criação de instituições dedicadas ao atendimento dos doentes, como o primeiro dispensário de tuberculose, e a instalação de uma Prefeitura Sanitária em 1926, antes mesmo da criação do município. Ou seja, Campos do Jordão teve uma administração voltada à saúde antes de se tornar oficialmente uma cidade.

Como os doentes chegavam ao alto da serra?
A princípio, com muita dificuldade. Segundo o histórico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), as primeiras ligações entre Campos do Jordão e Pindamonhangaba foram picadas abertas na mata, e o primeiro projeto de uma estrada de ferro para a região surgiu em 1892. Durante anos, a subida foi feita a pé, a cavalo ou carregada por outras pessoas.
A solução veio de dois médicos. De acordo com uma proposta de lei da Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), a Estrada de Ferro Campos do Jordão foi idealizada pelos médicos sanitaristas Emílio Ribas e Victor Godinho, e concebida como via de acesso aos sanatórios da cidade, para contribuir com a recuperação dos doentes de doenças pulmonares.
Como é a ferrovia construída para os doentes?
Uma subida de mais de mil metros em 47 km. Segundo a Alesp, a obra começou em 1912 e, em tempo recorde para a época, foi inaugurada em 15 de novembro de 1914. A ferrovia sai de Pindamonhangaba, a cerca de 555 metros de altitude, e chega a Campos do Jordão, a cerca de 1.573 metros.
No caminho, ela atinge um ponto de destaque. O documento registra que a linha passa pelo Alto do Lajeado, a 1.743 metros, apontado como o ponto ferroviário mais alto do Brasil. Uma nova proposta da Alesp acrescenta que os trens a vapor deram lugar aos elétricos em 1924, quando a ferrovia foi eletrificada.
O que restou da cidade dos sanatórios?
A ferrovia e boa parte da memória daquele período. Hoje, os trilhos que levavam pacientes funcionam como atração turística. Estes são alguns pontos ligados a essa história.
Quando Campos do Jordão virou destino turístico?
Aos poucos, a partir de meados do século XX. Com a chegada de tratamentos eficazes com medicamentos, a busca pelo clima da montanha como forma de cura foi perdendo força. Segundo a Alesp, a partir da década de 1970 a cidade se transformou de lugar de cura em um dos principais destinos turísticos do país.
A mudança aproveitou a mesma vocação que atraía os doentes. O ar frio e seco e as paisagens de montanha, que antes eram vistos como remédio, passaram a ser o principal atrativo turístico. A cidade ganhou hotéis e pousadas, e a estrada de ferro passou a levar turistas, em vez de pacientes, pelas encostas da Mantiqueira.

Como é o clima de Campos do Jordão ao longo do ano?
O verão é chuvoso, e o inverno, seco e frio. Janeiro concentra 365 mm de chuva em média, enquanto junho e agosto registram 43 mm, e julho tem mínima média de 10°C.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Uma cidade que trocou a cura pelo turismo
Campos do Jordão nasceu de uma aposta médica no poder do clima de montanha. O ar frio e seco que atraiu doentes do país inteiro levou dois sanitaristas a construir uma ferrovia até o alto da serra, e a cidade cresceu ao redor de sanatórios e pensões. Décadas depois, a mesma paisagem passou a atrair turistas, e o trem criado para levar pacientes virou um passeio que conta essa história.
Você precisa embarcar no bonde da estação Emílio Ribas, seguir pelos trilhos até Abernéssia e imaginar os pacientes que fizeram o mesmo caminho há cem anos para entender como Campos do Jordão se tornou o que é hoje.




