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Início Bem-Estar

Aos 90 anos, fisiculturista japonês ganha o 19º título nacional e avisa: “Sou 100% natural”

Por João Victor
28/09/2026
Em Bem-Estar
Fisiculturista idoso de cabelos brancos posa no palco sob refletores

Fisiculturista idoso de cabelos brancos posa no palco sob refletores. Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial.

No meio da entrevista, na academia que mantém em Hiroshima, Toshisuke Kanazawa interrompe as lembranças e pergunta se pode tirar a camisa. O repórter Justin McCurry, que contou a história no perfil publicado pelo jornal britânico The Guardian, descreve o que aparece: tronco bronzeado, peitoral desenhado e veias grossas correndo pelos braços. O detalhe que muda a cena está na certidão. Kanazawa completou 90 anos em 29 de agosto de 2026.

No dia seguinte, o fisiculturista de 90 anos venceu a categoria para homens com 85 anos ou mais do 38º Campeonato Japonês Masters, disputado em 30 de agosto no Centro Internacional de Conferências de Hiroshima. Pela conta do Guardian, foi o seu 19º título nacional, conquistado contra outros sete competidores. A imprensa japonesa faz outra soma: o portal FITNESS LOVE, que publicou o resultado oficial, registra o 17º título do Japão Masters, e os dois que faltam para 19 são os de Mister Japão. Entre um gole de chá verde e outro, ele resume a carreira em poucas palavras: “Sou 100% natural”. O próprio jornal explica que é a maneira educada de dizer que nunca usou substâncias para turbinar o desempenho.

Do nado de 1.500 metros ao Mister Japão

Kanazawa nasceu em 1936 na província de Shimane, no litoral do Mar do Japão. No colégio, nadava os 1.500 metros livre e mirava a Olimpíada, até que um problema muscular encerrou o plano, contou ao Guardian. Trocou a piscina pelos pesos contra a vontade do pai, para quem rapaz jovem tinha de trabalhar. A mãe desconfiou, mas apoiou.

Vieram cinco anos de vida quase reclusa, com seis horas diárias de treino, comida simples feita pela mãe e o dinheiro de bicos entregando eletrodomésticos gasto em leite e queijo. A promessa aos pais se cumpriu aos 24 anos, com o título de Mister Japão de 1960, repetido em 1963, segundo o perfil do atleta no FITNESS LOVE. Em 1967, em Montreal, ficou em quarto lugar no Mr. Universo, disputa vencida por Sergio Oliva e que teve Arnold Schwarzenegger entre os participantes, de acordo com o Guardian.

Depois, parou. Aposentou-se em meados dos 30 anos e só voltou a competir aos 50, por um motivo que não tinha nada de esportivo. A esposa sofria de uma doença crônica, e ele, que percebia ter se descuidado desde a aposentadoria, quis mostrar a ela que ainda era possível mudar. Sete anos depois venceu o campeonato masters, fase que ele considera o auge físico da própria vida. Desde que fez 80, ainda segundo o jornal britânico, acumulou seis títulos mundiais masters.

A rotina do fisiculturista de 90 anos

Homem idoso levanta um haltere leve numa academia de bairro pela manhã
Homem idoso levanta um haltere leve numa academia de bairro pela manhã. Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial.

O treino atual ocupa duas horas por dia, seis dias por semana, numa academia a poucos passos do Parque Memorial da Paz, dedicado às vítimas da bomba atômica. As concessões à idade aparecem nos detalhes que ele relatou ao Guardian: abandonou o agachamento e o supino, trocou os pesos livres pelas máquinas, descansa mais entre as séries e dorme cerca de sete horas por noite, porque a recuperação ficou mais lenta. Barra fixa e leg press continuam no cardápio.

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À mesa, há décadas não come carne nem peixe, e nunca fumou nem bebeu. A base é arroz integral com furikake, natto e sopa de missô em que quebra dois ovos crus. Já tomou seis shakes de proteína por dia; hoje são três, porque o estômago não aceita mais tanto líquido. Ele afirma nunca ter adoecido gravemente e diz que o último check-up trouxe números típicos de um homem bem mais jovem, avaliação que é dele e cujos dados não foram divulgados.

Cabe uma ressalva sobre o rótulo de atleta natural. A JBBF, federação japonesa que organiza o campeonato, faz testes antidoping em parceria com a agência japonesa JADA, segundo o FITNESS LOVE, mas não há registro público de que Kanazawa tenha sido testado. A frase vale como declaração dele.

Nada disso o tirou do palco. Em setembro, foi quarto colocado em duplas mistas no Japan Open, ao lado de Asuka Miyamae, 39 anos mais nova, informa o Guardian.

Na mesma semana, Ramon Dino em Las Vegas

A história de Kanazawa correu o mundo na semana em que o fisiculturismo profissional se concentrou em Las Vegas. No Mr. Olympia de 26 de setembro, o brasileiro Ramon Dino (Ramon Rocha Queiroz) perdeu o título da Classic Physique que havia conquistado em outubro de 2025 e terminou em terceiro lugar, atrás do britânico Niall Darwen, novo campeão, e do alemão Mike Sommerfeld, de acordo com o resultado oficial da IFBB Pro League. Fábio Junio, outro brasileiro na categoria, ficou em nono.

São mundos com pouco em comum além da pose. O Olympia reúne profissionais que vivem do esporte e disputam prêmios em dinheiro. O campeonato de Kanazawa é uma divisão masters por faixa etária, em que o adversário mais duro é o calendário. Para quem não pretende subir em palco nenhum, a lição do japonês é outra: força muscular também se treina depois dos 60.

Força depois dos 65, segundo a OMS

As diretrizes de atividade física da Organização Mundial da Saúde, publicadas em 2020, recomendam que pessoas com 65 anos ou mais façam fortalecimento muscular de intensidade moderada ou maior, envolvendo os principais grupos musculares, em dois ou mais dias por semana. A OMS soma a isso atividades que combinem equilíbrio e força em três ou mais dias por semana, para preservar a capacidade funcional e prevenir quedas, e classifica a recomendação como forte, com evidência de certeza moderada.

No Brasil, o Guia de Atividade Física para a População Brasileira, lançado pelo Ministério da Saúde em 2021, indica para idosos pelo menos 150 minutos semanais de atividade moderada ou 75 minutos de atividade vigorosa. Força não precisa significar aparelho de academia: exercícios com o peso do corpo, elásticos e o gesto de sentar e levantar da cadeira também contam, e esse último virou até um teste simples para avaliar as pernas depois dos 60.

A rotina de Kanazawa é a de um homem que ganhou o primeiro título nacional em 1960, não um ponto de partida. Quem passou dos 60 e quer começar, sobretudo com pressão alta, diabetes, problema cardíaco, dor nas articulações ou histórico de quedas, deve fazer antes uma avaliação médica e montar o programa com um profissional de educação física, que ajusta carga, amplitude e progressão. Treino de força não cura doença; o que as diretrizes descrevem é ganho de autonomia e menos risco de cair.

O pano de fundo japonês ajuda a entender por que a história repercute. Segundo o Guardian, quase 30% dos 123,7 milhões de habitantes do país têm mais de 64 anos, e o número de centenários passou de 100 mil, quase 90% deles mulheres, num país que já protagonizou um salto de expectativa de vida que surpreendeu os demógrafos. Kanazawa diz se preocupar com os idosos que abandonam o que faziam na juventude e deixam as pernas enfraquecerem como se fosse inevitável.

Ele ainda pedala pelas ruas de Hiroshima antes de ir para a academia. Aos 90, esse talvez seja o título que mais pesa. E avisa que não pensa em parar: “Quero ser fisiculturista até o dia em que morrer”.

Tags: envelhecimentofisiculturismoToshisuke Kanazawatreino de força
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