Poucas canções carregam tanto o nome do país quanto “Aquarela do Brasil”. Ela virou quase um segundo hino, embalou desenhos da Disney e se tornou a imagem sonora do Brasil no mundo inteiro. O que muita gente não sabe é que tudo começou por acaso, numa única noite de chuva forte, quando o compositor foi obrigado a ficar em casa. E, antes de encantar o planeta, a música quase foi barrada pela censura dentro do próprio Brasil. Veja abaixo como ela nasceu, o gênero que ela inventou, a ironia que quase a silenciou e como os Estados Unidos a transformaram em cartão-postal.
Como “Aquarela do Brasil” foi composta?
A história tem tudo de acaso e inspiração súbita.
No início de 1939, o compositor mineiro Ary Barroso foi impedido de sair de casa por causa de um forte temporal. Preso pela chuva, sentou-se ao piano na companhia da esposa e do cunhado e, segundo seus relatos, escreveu a canção de uma só vez, como conta o próprio registro histórico da obra. A ideia que o guiava era romper com o samba da época, muito voltado às tristezas e às paixões, para exaltar a grandeza e a exuberância da natureza brasileira. Foi tão produtiva a noite que, antes de a tempestade passar, ele ainda compôs outra música, “Três Lágrimas”. A canção, batizada a princípio de “Aquarela Brasileira”, nascia ali quase por obra do destino.

O que foi o samba-exaltação que ela inaugurou?
A música não foi só um sucesso, foi o marco de um gênero novo.
Ao enaltecer a pátria, o povo e a paisagem, “Aquarela do Brasil” inaugurou o chamado samba-exaltação, vertente ufanista em que o compositor celebra os símbolos nacionais. Naquela época, as músicas costumavam estrear em revistas musicais nos teatros, e foi assim que ela apareceu pela primeira vez, sem grande repercussão inicial. A virada veio com a primeira gravação, em agosto de 1939, na voz de Francisco Alves, o “Chico Viola”, com um sofisticado arranjo do maestro Radamés Gnattali. A orquestração preenchia os intervalos da melodia com marcações de sopros, um recurso que passou a influenciar os arranjos de samba dali em diante. Foi essa versão que transformou a obra em fenômeno.
Por que a música quase foi censurada no Brasil? A ironia
Este é o ponto que contraria toda a fama posterior da canção.
Antes do lançamento, o Departamento de Imprensa e Propaganda, o órgão de censura do Estado Novo de Getúlio Vargas, vetou um verso que mencionava o samba e o pandeiro, por considerá-lo “depreciativo” para o Brasil. Ary Barroso precisou ir pessoalmente ao departamento convencer os censores a manter o trecho. Há aqui uma ironia enorme: a música que se tornaria o maior cartão-postal sonoro do país no exterior quase foi silenciada em casa por um funcionário do governo. Vale registrar, com equilíbrio, que o tom ufanista fez muitos associarem o samba-exaltação à ditadura de Vargas, o que rendeu críticas ao compositor. A família dele sempre negou qualquer apoio ao regime, lembrando que Ary também assinou “Salada Mista”, canção contrária ao fascismo, gravada por Carmen Miranda em 1938.
Como os Estados Unidos transformaram a canção em cartão-postal?
Foi Hollywood, e principalmente a Disney, que levou a música ao mundo.
Em 1942, a canção apareceu no longa “Saludos Amigos”, da Disney, produção que ajudou a apresentar o Brasil ao público americano, na esteira do personagem Zé Carioca. Ganhou uma versão em inglês, simplesmente chamada “Brazil”, com letra assinada por Bob Russell, e virou um standard regravado por inúmeros artistas ao redor do planeta. De lá para cá, apareceu em dezenas de filmes, incluindo o clássico “Brazil”, de 1985, do diretor Terry Gilliam, que tomou o próprio nome da música. Foi esse percurso internacional que projetou Ary Barroso para fora do país e fez da canção a trilha que o mundo associa ao Brasil tropical, do mesmo jeito que o cinema eternizou expressões de outras culturas.
Por que ela virou quase um segundo hino?
Porque poucas obras representam tão bem a identidade brasileira.
Regravada por gigantes como Elis Regina, Gal Costa e João Gilberto, “Aquarela do Brasil” acumulou marcas impressionantes. Segundo dados do Ecad, é apontada como a música mais gravada da história do país, e em 1997 foi eleita pela Academia Brasileira de Letras como a “música do século”. Não à toa, é chamada por muita gente de segundo hino nacional. Seu autor, Ary Barroso, nascido em Ubá, em Minas Gerais, foi também um radialista célebre, temido pelo gongo com que reprovava candidatos a cantor em seus programas. A canção segue viva na cultura nacional, um patrimônio ao lado de outras figuras que marcaram a história do Brasil, como o lendário Madame Satã, dos tempos da boemia carioca.

O que convém lembrar sobre “Aquarela do Brasil”
“Aquarela do Brasil” foi composta por Ary Barroso no início de 1939, numa única noite de temporal que o obrigou a ficar em casa, e inaugurou o gênero samba-exaltação, que celebra a pátria e a natureza brasileira. Sem grande sucesso na estreia teatral, ganhou o país na gravação de Francisco Alves com arranjo de Radamés Gnattali. Antes disso, ironicamente, quase foi censurada pelo Departamento de Imprensa e Propaganda do Estado Novo, que vetou um verso considerado depreciativo, obrigando o compositor a defender sua obra pessoalmente. A projeção mundial veio pelas mãos dos Estados Unidos, com a aparição no desenho “Saludos Amigos”, da Disney, e a versão em inglês “Brazil”, que virou standard e apareceu em filmes como o de Terry Gilliam. Hoje apontada como a canção mais gravada da história do Brasil e eleita a música do século pela Academia Brasileira de Letras, ela consolidou-se como um verdadeiro cartão-postal sonoro do país, nascido, no fim das contas, de uma noite de chuva.
Este conteúdo tem caráter informativo e histórico. “Aquarela do Brasil” é uma obra protegida por direitos autorais, e este texto não reproduz sua letra, limitando-se a contar sua história e seu contexto. Datas e detalhes podem variar conforme diferentes fontes e registros da época.




