Rita Lee escreveu o próprio epitáfio, avisou que ninguém deveria levá-la a sério e rabiscou um palavrão na porta do banheiro do hospital antes da primeira quimioterapia. Morreu em maio de 2023, aos 75 anos, deixando uma obra musical enorme e uma coleção de frases que hoje circulam soltas pela internet, muitas vezes sem contexto e algumas nem sequer dela. Aqui estão as verdadeiras, com o lugar e o momento em que foram ditas.
Onde estão as frases dela?
Não é folclore oral: a maior parte tem fonte rastreável.
Rita Lee publicou “Rita Lee: Uma autobiografia” em 2016, de onde saiu boa parte das citações que hoje viralizam. Outra fonte importante é o Twitter, que ela usava com liberdade total, e há ainda entrevistas e o livro “Outra autobiografia”, que trata do câncer. Ou seja: dá para conferir antes de compartilhar.

Qual é o epitáfio que ela escreveu?
Ela não deixou isso para os outros decidirem.
Na autobiografia de 2016, escreveu o próprio epitáfio: ela nunca foi um bom exemplo, mas era gente boa. É uma frase que resume o projeto de vida inteiro em duas orações, e o mais notável é o tempo verbal. Ela escreveu no passado, sobre si mesma, sete anos antes de morrer.
O que ela escreveu antes da quimioterapia?
Esta é a frase com o contexto mais forte de todas, e quase ninguém conhece a origem.
Segundo relato sobre “Outra autobiografia”, ela escreveu “foda-se, o que vier eu traço” na porta de um banheiro de hospital, enquanto se preparava para a primeira sessão de quimioterapia. O detalhe que dá peso à cena: a mãe dela havia morrido de câncer e sofrido muito com a quimio. Ela tinha todos os motivos para estar apreensiva, e escolheu escrever aquilo na parede.
Como ela falava do próprio rock?
Aqui está a frase mais política dela, e ela nunca usou a palavra política.
Na autobiografia, contou que o clube do Bolinha afirmava que para fazer rock precisava ter culhão, e que ela queria provar a si mesma que rock também se fazia com útero e ovários, e sem sotaque feminista clichê. É uma declaração feminista que recusa o rótulo feminista no mesmo fôlego, e isso é muito Rita Lee.
Quais frases vieram do Twitter?
Ela tratava a rede como quem conversa na cozinha, e é aí que estão as mais afiadas.
Algumas, com ano:
- 2011: você não precisa me entender, basta me amar; se não amar, aceitar; se não aceitar, dá unfollow.
- 2011: ela não era louca, estava emocionalmente desequilibrada, porque viver é perigoso.
- 2013: gostava de si mesma, mas não era muito confortável ser ela.
- 2016: não era mulher de fazer backup, perdeu tudo.
- 2023: a vida é curta e ela, grossa.
Ela pedia para não ser levada a sério?
Pedia, e essa é a chave para ler todas as outras.
Num tuíte, disse e repetiu que não a levassem a sério, que era falsa, manipuladora, mentirosa e filha da puta, e que escrevia só o que vinha na cabeça, futilidades. É autodepreciação como escudo, e também um aviso honesto: quem transforma frase de Rita Lee em mandamento de vida está fazendo exatamente o que ela mandou não fazer.
Como ela recusou uma capa de revista?
A resposta é uma pequena obra-prima de ironia.
Contou na autobiografia que a convidaram para posar nua numa revista masculina e ela respondeu que faria, sim, com três condições: vestida de freira, sem óculos e sem franja. Aquela, dizia, era sua ideia de nudez. Ela não recusou nem aceitou: redefiniu os termos até a proposta virar outra coisa.
O que ela pensava do próprio título?
Rainha do rock não a agradava, e ela tinha alternativa pronta.
Em entrevista à Rolling Stone, disse gostar mais de padroeira da liberdade do que de rainha do rock, que achava um tanto cafona. Ela também afirmou, em entrevista ao “Conversa com Bial” em 2017, que a sorte de ter sido quem foi não era nada comparada ao seu maior gol: achar que fez um monte de gente feliz. Essa também é a última frase da autobiografia.
Qual é a frase mais amarga?
Existe uma, e ela não circula em legenda de foto.
Na autobiografia, sobre um episódio em que foi atacada, escreveu que nenhum colega saiu em sua defesa, que a classe musical só é solidária quando paira a ameaça de perderem benefícios próprios, e concluiu lamentando a falta que faz uma Elis. É uma frase sem graça nenhuma, sem piada, sem ironia. Talvez por isso ninguém compartilhe.

Cuidado com as frases falsas
Aqui vale um alerta, porque o fenômeno é enorme.
Rita Lee virou ímã de citação órfã: frases anônimas, de autoajuda ou de outros autores acabam atribuídas a ela porque soam com o que ela poderia ter dito. É o mesmo mecanismo que faz Clarice Lispector e Cervantes assinarem textos que nunca escreveram. Antes de compartilhar, vale checar se a frase está na autobiografia, num tuíte datado ou numa entrevista identificada. Essa checagem simples é o que os estudos sobre hábitos de pensamento crítico apontam como diferença entre repetir e saber.
Por que ela vira manual de vida?
Porque a autoironia dela desarma quem lê, e desarmado a pessoa escuta.
Rita não dizia como viver: dizia como ela vivia, com defeito, medo e palavrão incluídos. “Gosto de mim, mas não é muito confortável ser eu” não é conselho, é confissão. E confissão funciona melhor que sermão, algo que a psicologia observa ao estudar vulnerabilidade e conexão. O paradoxo final é que ela virou exemplo justamente por avisar que nunca foi um.
O que convém lembrar sobre as frases de Rita Lee
A maior parte tem fonte: a autobiografia de 2016, o Twitter, entrevistas e o livro sobre o câncer. Ela escreveu o próprio epitáfio dizendo que nunca foi bom exemplo mas era gente boa, rabiscou “foda-se, o que vier eu traço” na porta do banheiro antes da primeira quimio, e pediu que não a levassem a sério. Preferia ser chamada de padroeira da liberdade a rainha do rock. E vale desconfiar: nem toda frase atribuída a ela é dela.
Este conteúdo tem finalidade informativa e reúne declarações públicas da artista. Atribuições de frases circulam com frequência sem verificação; as citadas aqui têm fonte identificada.




