A pesca de atum começou há aproximadamente 44 mil anos, muito antes da existência dos barcos industriais e das redes modernas. Um novo estudo internacional reuniu evidências arqueológicas que mostram como povos antigos capturavam esses peixes e como essa atividade se transformou em uma indústria bilionária.
Onde surgiram as primeiras evidências da pesca de atum?
Os registros mais antigos foram encontrados em Timor-Leste, no Sudeste Asiático, onde arqueólogos identificaram ossos de peixes que provavelmente pertenciam ao grupo dos bonitos. Os vestígios indicam que comunidades humanas já exploravam esses animais há cerca de 44 mil anos, utilizando conhecimentos sobre o ambiente marinho.
A descoberta foi analisada em um estudo publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), em outubro de 2026. A pesquisa reuniu 18 especialistas para investigar a evolução da pesca de atuns e peixes-de-bico, utilizando restos arqueológicos, documentos históricos e conhecimentos tradicionais.
Como os povos antigos pescavam atum sem barcos modernos?
Os primeiros pescadores aproveitavam características naturais da costa para alcançar os animais. Em Timor-Leste, canais de águas profundas provavelmente aproximavam os cardumes da terra firme, permitindo capturas sem a necessidade de navegar grandes distâncias em mar aberto.
Ao longo da história, diferentes comunidades utilizaram anzóis, arpões, redes e armadilhas, além de embarcações artesanais. No sítio arqueológico de Jerimalai, pesquisas anteriores também encontraram ferramentas de pedra e antigos anzóis de concha, embora não seja possível determinar com certeza qual equipamento foi utilizado nas primeiras capturas.
Japão, Coreia e Grécia desenvolveram tradições de pesca
Segundo a investigação, comunidades do Japão e da Coreia pescavam atum há pelo menos 7 mil anos. Na Europa, uma caverna próxima à baía de Kiladha, na Grécia, preservou milhares de ossos desses peixes, depositados aproximadamente entre 9 mil e 11 mil anos atrás.
O Mediterrâneo tornou-se uma região importante para a atividade. Há cerca de 3 mil anos, já existiam sistemas comerciais de captura de atum-azul-do-Atlântico, com redes e armadilhas especializadas. Os antigos gregos também atribuíam significado religioso ao peixe, incluindo-o em oferendas dedicadas ao deus Poseidon.

Povos indígenas utilizavam canoas e fogo para atrair atuns
Na costa noroeste da América do Norte, comunidades indígenas desenvolveram técnicas de pesca adaptadas ao comportamento dos animais. Entre os povos Nuu-chah-nulth, relatos tradicionais descrevem viagens noturnas em canoas, orientadas pela luminosidade natural do plâncton presente nas águas.
Os pescadores utilizavam fogueiras nas embarcações para atrair os atuns, que eram capturados com arpões. Observadores posicionados em terra também ajudavam a localizar os cardumes. A presença de vértebras de atum-azul em 23 sítios arqueológicos reforça a longa história dessa atividade na região.
A pesca de atum virou uma indústria de bilhões de dólares
Durante milênios, a captura permaneceu principalmente ligada à alimentação e às economias locais. A transformação ocorreu especialmente nos séculos XIX e XX, quando embarcações motorizadas, sistemas de conservação e fábricas de processamento permitiram ampliar a produção e alcançar mercados distantes.
Segundo os pesquisadores, a indústria mundial do atum movimenta aproximadamente US$ 40 bilhões por ano e captura milhões de toneladas desses peixes. O contraste com as pescarias antigas é expressivo, pois a exploração industrial passou a retirar quantidades muito maiores em um período relativamente curto.
O que essa descoberta revela sobre o futuro dos atuns?
A pesquisa mostra que os seres humanos exploram esses peixes há milhares de anos, mas a pressão sobre suas populações aumentou principalmente nas últimas gerações. Espécies como o atum-azul-do-sul, o atum-azul-do-Pacífico e o atum-patudo apresentam diferentes níveis de risco de conservação.
Para os pesquisadores, compreender essa história ajuda a estabelecer referências mais amplas para proteger os oceanos. Medidas como controle das capturas, monitoramento científico e cooperação internacional podem contribuir para a recuperação das populações. Quem consome atum também pode consultar a espécie e a origem do pescado, favorecendo escolhas ligadas à pesca responsável.




