Quem abriu o almanaque de Filadélfia para o ano de 1741 encontrou, espremida entre as datas de maio, uma linha sobre as idades da vida: “At 20 years of age the Will reigns; at 30 the Wit; at 40 the Judgment.” O almanaque vinha assinado por Richard Saunders, um personagem inventado. Quem escrevia e imprimia tudo era Benjamin Franklin, o tipógrafo que, pouco mais de uma década depois, usaria as mesmas páginas para ensinar a proteger casas contra raios.
A frase ainda circula como pensamento de Benjamin Franklin sobre maturidade. A graça da história é que ela já tinha 94 anos quando chegou ao almanaque. O original está no aforismo 298 do Oráculo manual y arte de prudencia, livro que o jesuíta espanhol Baltasar Gracián publicou em 1647, e a linha de 1741 é praticamente uma tradução palavra por palavra.
Um jesuíta espanhol em 1647
O Oráculo manual é uma coleção de 300 máximas curtas sobre como se conduzir no mundo: quando falar, quando calar, como não se expor demais, como fazer a sorte trabalhar a favor. O aforismo 298 tem um título que é quase um verso, Tres cosas hacen un prodigio, e trata de três dons que, juntos, fazem uma pessoa extraordinária: engenho fecundo, juízo profundo e gosto apurado. No meio desse raciocínio, depois de afirmar que pensar bem é o fruto da racionalidade, Gracián escreve: “A los veinte años reina la voluntad, a los treinta el ingenio, a los cuarenta el juicio.” O texto completo do aforismo está na edição do Oráculo manual transcrita no Wikisource.
Gracián gostava dessas escadas etárias. Na mesma sequência de aforismos, o de número 276 compara as idades a bichos: aos vinte anos a pessoa seria pavão; aos trinta, leão; aos quarenta, camelo; aos cinquenta, serpente; aos sessenta, cão; aos setenta, macaco; e aos oitenta, nada. A versão das três fases é a mais gentil das duas, e foi essa que atravessou o Atlântico.
Como a frase entrou no almanaque de Benjamin Franklin

Franklin contou na Autobiografia que lançou o almanaque em 1732, sob o nome de Richard Saunders, e que o manteve por cerca de 25 anos. Vendia perto de dez mil exemplares por ano, segundo ele mesmo, e havia poucas vizinhanças na Pensilvânia sem um exemplar. Como o povo comprava quase nenhum outro livro, ele decidiu preencher os espaços vazios entre os dias do calendário com sentenças proverbiais, de preferência as que pregavam trabalho e economia.
O almanaque de 1741 não diz de onde tirou a linha sobre as idades. Na edição dos papéis de Franklin mantida pelo Arquivo Nacional dos Estados Unidos, a transcrição do almanaque de 1741 traz a máxima sem nenhuma nota sobre a origem. Há dois caminhos possíveis, e nenhum documento escolhe entre eles. Na Autobiografia, Franklin conta que começou a estudar línguas em 1733 e que depois aprendeu espanhol o bastante para ler livros no idioma. Ao mesmo tempo, o Oráculo já tinha versões inglesas, como The Art of Prudence, de um tradutor chamado Savage, cuja edição de 1702 está catalogada no Internet Archive. Se Franklin leu Gracián no original ou numa dessas traduções, ninguém sabe.
A confissão de 1758
O detalhe mais saboroso veio do próprio Franklin. No almanaque para 1758, Richard Saunders narra ter ouvido um velho, o Pai Abraão, discursar num leilão costurando dezenas de máximas do Poor Richard. O narrador conta que gostou de se ver citado, embora soubesse que nem um décimo daquela sabedoria era dele: o resto era respiga do bom senso de todas as épocas e nações. Segundo os editores dos papéis de Franklin, o prefácio foi datado de 7 de julho de 1757 e escrito, ou ao menos terminado, a bordo do navio que o levava à Inglaterra. Com o tempo, o texto ganhou vida própria com o título The Way to Wealth.
No século 18, juntar provérbios de várias origens era o trabalho normal de quem fazia almanaque, e ninguém esperava nota de rodapé entre a previsão do tempo e as fases da lua. Franklin não escondeu o método; só não disse de onde veio cada frase. Quem lhe atribui a escada das idades repete um erro que ele mesmo tinha deixado avisado.
O rótulo de inventor do para-raios, esse sim, se sustenta nos documentos. Os editores dos papéis de Franklin registram que o almanaque para 1753 traz, na seção sobre como proteger casas de raios, a primeira descrição publicada por ele do aparelho, que já tinha proposto por escrito em julho de 1750 e instalado na própria casa em setembro de 1752. Ou seja, a mesma publicação que espalhou a frase de um jesuíta espanhol também serviu de vitrine para a ideia mais famosa do impressor.
Esse tipo de migração de autoria é comum. Outras frases célebres passaram pelo mesmo desvio, como mostra a reflexão sobre esquecimento que ficou colada ao nome de Bauman, e checar a fonte costuma render uma história melhor do que a legenda da imagem compartilhada, como no caso da origem da frase de Shakespeare sobre as dúvidas que nos traem.
Vontade, engenho, juízo
Em português, a tradução mais fiel é: aos 20 anos reina a vontade; aos 30, o engenho; aos 40, o juízo. O verbo é reinar, e a escolha importa. Gracián não diz que o jovem não pensa nem que o quarentão perdeu o desejo. Diz qual das três forças manda em cada fase.
A palavra do meio é a que mais se perde. O “wit” do inglês do século 18, como o “ingenio” de Gracián, não quer dizer inteligência no sentido de nota em prova. É a agudeza de achar relações, a presteza de inventar saídas, a graça de dizer algo de um jeito novo. Traduzir por engenho preserva esse sentido de máquina que funciona rápido e produz coisas.
Lida hoje, a sequência descreve uma ordem de comando, não um calendário. Primeiro a pessoa quer; depois inventa formas de conseguir; mais tarde aprende a escolher quais invenções valem a pena. As idades exatas são convenção de um livro do século 17, e ninguém precisa conferir o próprio aniversário para saber em que fase está.
O juízo aparece por último porque depende dos outros dois: só se aprende a escolher depois de ter querido muito e de ter tentado muita coisa. Quarenta anos, no esquema de Gracián, não é o fim da vontade. É o momento em que ela passa a pedir licença.
Talvez seja por isso que a frase sobreviveu à troca de autor sem perder nada. Ela funciona na voz de um jesuíta espanhol e funciona na de um impressor de Filadélfia, porque fala de uma experiência que quase todo mundo reconhece ao olhar para trás. Franklin teve o mérito de perceber que ela cabia num almanaque vendido a quem quase não lia livros, e de admitir, anos depois, que a maior parte daquela sabedoria tinha vindo de longe.




