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Início Curiosidades

Biólogos encontraram cavalos-marinhos vivendo dentro de carrinhos de supermercado no estuário do Tejo, e a resposta que a WWF de Portugal deu à descoberta não foi retirar o lixo do fundo: em julho de 2026 a organização instalou nove carrinhos adaptados como abrigos artificiais, e vai monitorar o resultado até 2028

Por João Victor
11/09/2026
Em Curiosidades
Cavalo-marinho preso pela cauda à grade de um carrinho de supermercado no fundo do estuário

Cavalo-marinho preso pela cauda à grade de um carrinho de supermercado no fundo do estuário. Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial.

Um mergulhador desce cinco metros na baía da Trafaria, na margem sul do estuário do Tejo, aponta a lanterna para uma armação de arame tombada no sedimento e conta três cavalos-marinhos presos pela cauda às grades. A armação é um carrinho de supermercado, daqueles de fila de caixa, que alguém empurrou rio adentro em alguma madrugada.

A descida acima foi remontada aqui a partir do que os biólogos descrevem daquele fundo, mas o inventário é literal. Cavalos-marinhos em carrinhos de supermercado existem, foram fotografados e correram a imprensa portuguesa como prova de que a natureza se arranja com o que jogamos fora. É uma leitura confortável e chega à conclusão errada.

Em 20 de julho de 2026, a WWF Portugal respondeu à cena com um gesto que quase ninguém esperava de uma organização ambientalista: em vez de retirar o metal do fundo, colocou mais nove peças ali.

O que a WWF Portugal instalou no fundo da baía da Trafaria?

Nove abrigos subaquáticos, distribuídos por três locais distintos da baía, segundo o comunicado da própria organização sobre o arranque da intervenção. Não é limpeza, é instalação. As estruturas foram concebidas para criar zonas de abrigo e de fixação alternativa para os animais, e a escolha dos pontos de fundo foi validada com pescadores locais antes de qualquer coisa descer.

A ação abre a fase do estuário do Tejo dentro da D-EVOLUÇÃO, iniciativa nacional de restauro ecológico da WWF Portugal, que elegeu nove ecossistemas prioritários no país. O parceiro técnico-científico no Tejo é a MARDIVE, associação de ciência e educação para a conservação da biodiversidade marinha, cujo trabalho de campo na margem sul deu a base para o desenho dos abrigos. O financiamento principal veio do Lidl Portugal. Os abrigos, conforme o registro da iniciativa, são os próprios carrinhos recolhidos do estuário, passados por serralheiros para eliminar pontas, arames soltos e peças móveis antes de voltarem à água. O anúncio está na página em que a WWF Portugal descreve a intervenção na Trafaria.

Por que cavalos-marinhos em carrinhos de supermercado não são um elogio ao lixo?

Cauda do cavalo-marinho enrolada em uma barra de metal lixada e sem pontas
Cauda do cavalo-marinho enrolada em uma barra de metal lixada e sem pontas. Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial.

O animal não escolheu o carrinho. Escolheu a única coisa vertical e rígida que sobrou num fundo raspado.

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Cavalo-marinho é um péssimo nadador e vive preso pela cauda a um ponto de fixação, o que a literatura chama de holdfast: haste de erva marinha, alga, gorgônia, raiz. Quando o prado desaparece por dragagem, poluição ou arrasto, o que resta em pé é a sucata. A presença nas grades mede a falta do habitat original, não a esperteza do bicho. Um animal que se agarra ao que sobrou não está aprovando o que sobrou. E metal solto na água cobra o preço depois: aresta que corta, corrosão, deriva na corrente de maré e linha de pesca que enrosca na estrutura e vira armadilha. Por isso a diferença entre um carrinho abandonado e um abrigo instalado está inteira na oficina, não na intenção. A propósito, um experimento clássico já mostrou o que faz alguém devolver o carrinho ao lugar certo no estacionamento, e não é a boa vontade.

Quantos cavalos-marinhos os mergulhos científicos já contaram no Tejo?

Foram 86 mergulhos em 13 locais, entre setembro de 2022 e julho de 2023, com mais de 60 espécimes registrados, de duas espécies. As duas são o cavalo-marinho-comum, Hippocampus hippocampus, e o cavalo-marinho-de-focinho-comprido, Hippocampus guttulatus, ambos citados pela WWF Portugal ao descrever a população da frente ribeirinha da Trafaria.

O número parece pequeno e não é. A organização classifica o grupo como “uma das populações com maior densidade conhecida na sua área de distribuição, incluindo alguns dos maiores indivíduos alguma vez registados”. O mesmo texto lista as ameaças locais que degradaram o habitat: lixo marinho, poluição e ruído subaquático. É a combinação incômoda de um estuário machucado que ainda guarda uma das melhores populações do continente.

Como funciona um recife artificial planejado, e o que já foi medido?

Estrutura submersa com finalidade de conservação não se resume a afundar objeto duro. Correia, Koldewey, Andrade e Palma testaram unidades artificiais de fixação para cavalos-marinhos na ria Formosa, no Algarve, e publicaram o resultado no Journal of Experimental Marine Biology and Ecology, volume 471, páginas 1 a 7, em 2015, medindo o efeito dessas unidades sobre a densidade dos animais. Em 2021, na Universidade do Algarve, o trabalho de Ponzi mediu preferência de material e encontrou mais de 75% dos animais optando por fibra natural em vez de superfície sintética.

  • Material: fibra natural sai na frente na escolha do animal e não deixa microplástico quando degrada.
  • Acabamento: aresta, ponta e arame solto precisam sumir antes da imersão, porque ferem e prendem linha.
  • Fixação: peça que arrasta com a maré vira draga em miniatura sobre o próprio fundo que deveria proteger.
  • Monitoramento: sem contagem antes e depois, ninguém sabe se a estrutura atraiu população ou apenas concentrou a que já existia.

O último item é o que separa restauro de jardinagem submarina. O paralelo mais próximo em números está em o programa que devolveu conchas de ostra ao mar na Flórida e virou uma rede de recifes contada em números. Os testes do Algarve são analogia útil, não prova transposta: foram feitos em laguna costeira, com outro regime de maré e outro sedimento, e não respondem se o desenho funciona no estuário do Tejo. Quem responde é a contagem dos próximos anos.

Qual é a situação do cavalo-marinho brasileiro na lista oficial?

A Portaria GM/MMA nº 1.667, de 27 de abril de 2026, saiu no DOU de 28 de abril, edição 78, seção 1, página 96, e, reconheceu a nova Lista Nacional Oficial de Espécies da Fauna Ameaçadas de Extinção para peixes e invertebrados aquáticos e revogou a Portaria MMA nº 445, de 17 de dezembro de 2014.

No anexo dessa portaria, o Hippocampus reidi, o cavalo-marinho mais comum nos estuários e manguezais brasileiros, aparece como vulnerável. A mesma lista traz Hippocampus erectus e Hippocampus patagonicus na mesma categoria, ou seja, as três espécies do gênero que constam do anexo entraram todas como vulneráveis. A avaliação que sustenta o enquadramento do reidi registra declínios de até 90% em uma década em pontos do Nordeste. Aqui o holdfast tem nome e endereço: raiz de mangue, gorgônia, esponja. Cortar mangue, assorear canal e arrastar rede sobre o fundo raso tira do bicho exatamente o que o carrinho do Tejo substituiu na marra. O texto oficial está no ato do Ministério do Meio Ambiente publicado no DOU.

O que convém lembrar sobre cavalos-marinhos e abrigos artificiais?

Não repita o gesto por conta própria: jogar estrutura no mar sem projeto, licença e acabamento é despejo, e o resultado bonito da Trafaria depende de serralheria, autorização e escolha de ponto com quem pesca ali. Se avistar o animal em mergulho ou apneia, fotografe de longe e não levante pela cauda, porque tirar o bicho do ponto de fixação custa energia que ele não tem. Ao ver carrinho, grade ou sucata em estuário e manguezal brasileiro, o caminho é a prefeitura, o órgão ambiental estadual ou o ICMBio, com foto e coordenada. E cobre número de quem promete recife artificial: contagem antes, contagem depois, e por quanto tempo.

De caráter informativo, o texto acima organiza dados de comunicados institucionais, de artigo científico e da legislação federal brasileira citada, cada um com sua data. Regras de licenciamento ambiental e de manejo de fauna variam por estado e por unidade de conservação, então confirme o procedimento com o órgão ambiental competente antes de qualquer intervenção em área costeira.

Tags: Animaiscavalo-marinhoMinistério do Meio AmbienteWWF
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