Um mergulhador desce cinco metros na baía da Trafaria, na margem sul do estuário do Tejo, aponta a lanterna para uma armação de arame tombada no sedimento e conta três cavalos-marinhos presos pela cauda às grades. A armação é um carrinho de supermercado, daqueles de fila de caixa, que alguém empurrou rio adentro em alguma madrugada.
A descida acima foi remontada aqui a partir do que os biólogos descrevem daquele fundo, mas o inventário é literal. Cavalos-marinhos em carrinhos de supermercado existem, foram fotografados e correram a imprensa portuguesa como prova de que a natureza se arranja com o que jogamos fora. É uma leitura confortável e chega à conclusão errada.
Em 20 de julho de 2026, a WWF Portugal respondeu à cena com um gesto que quase ninguém esperava de uma organização ambientalista: em vez de retirar o metal do fundo, colocou mais nove peças ali.
O que a WWF Portugal instalou no fundo da baía da Trafaria?
Nove abrigos subaquáticos, distribuídos por três locais distintos da baía, segundo o comunicado da própria organização sobre o arranque da intervenção. Não é limpeza, é instalação. As estruturas foram concebidas para criar zonas de abrigo e de fixação alternativa para os animais, e a escolha dos pontos de fundo foi validada com pescadores locais antes de qualquer coisa descer.
A ação abre a fase do estuário do Tejo dentro da D-EVOLUÇÃO, iniciativa nacional de restauro ecológico da WWF Portugal, que elegeu nove ecossistemas prioritários no país. O parceiro técnico-científico no Tejo é a MARDIVE, associação de ciência e educação para a conservação da biodiversidade marinha, cujo trabalho de campo na margem sul deu a base para o desenho dos abrigos. O financiamento principal veio do Lidl Portugal. Os abrigos, conforme o registro da iniciativa, são os próprios carrinhos recolhidos do estuário, passados por serralheiros para eliminar pontas, arames soltos e peças móveis antes de voltarem à água. O anúncio está na página em que a WWF Portugal descreve a intervenção na Trafaria.
Por que cavalos-marinhos em carrinhos de supermercado não são um elogio ao lixo?

O animal não escolheu o carrinho. Escolheu a única coisa vertical e rígida que sobrou num fundo raspado.
Cavalo-marinho é um péssimo nadador e vive preso pela cauda a um ponto de fixação, o que a literatura chama de holdfast: haste de erva marinha, alga, gorgônia, raiz. Quando o prado desaparece por dragagem, poluição ou arrasto, o que resta em pé é a sucata. A presença nas grades mede a falta do habitat original, não a esperteza do bicho. Um animal que se agarra ao que sobrou não está aprovando o que sobrou. E metal solto na água cobra o preço depois: aresta que corta, corrosão, deriva na corrente de maré e linha de pesca que enrosca na estrutura e vira armadilha. Por isso a diferença entre um carrinho abandonado e um abrigo instalado está inteira na oficina, não na intenção. A propósito, um experimento clássico já mostrou o que faz alguém devolver o carrinho ao lugar certo no estacionamento, e não é a boa vontade.
Quantos cavalos-marinhos os mergulhos científicos já contaram no Tejo?
Foram 86 mergulhos em 13 locais, entre setembro de 2022 e julho de 2023, com mais de 60 espécimes registrados, de duas espécies. As duas são o cavalo-marinho-comum, Hippocampus hippocampus, e o cavalo-marinho-de-focinho-comprido, Hippocampus guttulatus, ambos citados pela WWF Portugal ao descrever a população da frente ribeirinha da Trafaria.
O número parece pequeno e não é. A organização classifica o grupo como “uma das populações com maior densidade conhecida na sua área de distribuição, incluindo alguns dos maiores indivíduos alguma vez registados”. O mesmo texto lista as ameaças locais que degradaram o habitat: lixo marinho, poluição e ruído subaquático. É a combinação incômoda de um estuário machucado que ainda guarda uma das melhores populações do continente.
Como funciona um recife artificial planejado, e o que já foi medido?
Estrutura submersa com finalidade de conservação não se resume a afundar objeto duro. Correia, Koldewey, Andrade e Palma testaram unidades artificiais de fixação para cavalos-marinhos na ria Formosa, no Algarve, e publicaram o resultado no Journal of Experimental Marine Biology and Ecology, volume 471, páginas 1 a 7, em 2015, medindo o efeito dessas unidades sobre a densidade dos animais. Em 2021, na Universidade do Algarve, o trabalho de Ponzi mediu preferência de material e encontrou mais de 75% dos animais optando por fibra natural em vez de superfície sintética.
- Material: fibra natural sai na frente na escolha do animal e não deixa microplástico quando degrada.
- Acabamento: aresta, ponta e arame solto precisam sumir antes da imersão, porque ferem e prendem linha.
- Fixação: peça que arrasta com a maré vira draga em miniatura sobre o próprio fundo que deveria proteger.
- Monitoramento: sem contagem antes e depois, ninguém sabe se a estrutura atraiu população ou apenas concentrou a que já existia.
O último item é o que separa restauro de jardinagem submarina. O paralelo mais próximo em números está em o programa que devolveu conchas de ostra ao mar na Flórida e virou uma rede de recifes contada em números. Os testes do Algarve são analogia útil, não prova transposta: foram feitos em laguna costeira, com outro regime de maré e outro sedimento, e não respondem se o desenho funciona no estuário do Tejo. Quem responde é a contagem dos próximos anos.
Qual é a situação do cavalo-marinho brasileiro na lista oficial?
A Portaria GM/MMA nº 1.667, de 27 de abril de 2026, saiu no DOU de 28 de abril, edição 78, seção 1, página 96, e, reconheceu a nova Lista Nacional Oficial de Espécies da Fauna Ameaçadas de Extinção para peixes e invertebrados aquáticos e revogou a Portaria MMA nº 445, de 17 de dezembro de 2014.
No anexo dessa portaria, o Hippocampus reidi, o cavalo-marinho mais comum nos estuários e manguezais brasileiros, aparece como vulnerável. A mesma lista traz Hippocampus erectus e Hippocampus patagonicus na mesma categoria, ou seja, as três espécies do gênero que constam do anexo entraram todas como vulneráveis. A avaliação que sustenta o enquadramento do reidi registra declínios de até 90% em uma década em pontos do Nordeste. Aqui o holdfast tem nome e endereço: raiz de mangue, gorgônia, esponja. Cortar mangue, assorear canal e arrastar rede sobre o fundo raso tira do bicho exatamente o que o carrinho do Tejo substituiu na marra. O texto oficial está no ato do Ministério do Meio Ambiente publicado no DOU.
O que convém lembrar sobre cavalos-marinhos e abrigos artificiais?
Não repita o gesto por conta própria: jogar estrutura no mar sem projeto, licença e acabamento é despejo, e o resultado bonito da Trafaria depende de serralheria, autorização e escolha de ponto com quem pesca ali. Se avistar o animal em mergulho ou apneia, fotografe de longe e não levante pela cauda, porque tirar o bicho do ponto de fixação custa energia que ele não tem. Ao ver carrinho, grade ou sucata em estuário e manguezal brasileiro, o caminho é a prefeitura, o órgão ambiental estadual ou o ICMBio, com foto e coordenada. E cobre número de quem promete recife artificial: contagem antes, contagem depois, e por quanto tempo.
De caráter informativo, o texto acima organiza dados de comunicados institucionais, de artigo científico e da legislação federal brasileira citada, cada um com sua data. Regras de licenciamento ambiental e de manejo de fauna variam por estado e por unidade de conservação, então confirme o procedimento com o órgão ambiental competente antes de qualquer intervenção em área costeira.




