386 blindados M113 do Exército Brasileiro passaram por uma oficina militar em Curitiba e saíram com motor, transmissão e arrefecimento novos. Os veículos chegaram ao país há mais de meio século, cedidos pelo Exército dos Estados Unidos. Com a reforma, ganharam uma sobrevida que deve mantê-los em operação por mais algumas décadas. A lógica foi aproveitar a parte mais resistente que a Força já tinha: o casco blindado.
O M113 chegou ao Brasil vindo do Exército dos EUA
O M113 é um blindado de transporte de pessoal que anda sobre lagartas e foi criado nos Estados Unidos para levar soldados protegidos no campo de batalha. Segundo a BAE Systems, empresa contratada para a modernização, a Força brasileira recebeu os veículos do Exército americano no início da década de 1970. Cada um transporta 12 soldados, além do motorista.
A família M113 é a maior do mundo entre os blindados sobre lagartas. A fabricante contabiliza mais de 80 mil unidades, em cerca de 40 variantes, usadas em pelo menos 44 países. Aqui, o modelo equipa as unidades de infantaria blindada, cujos soldados se deslocam ao lado dos carros de combate. Por isso, manter esses veículos rodando é uma questão de prontidão.
A reforma em Curitiba manteve o casco e trocou o resto
O trabalho foi feito no Parque Regional de Manutenção da 5ª Região Militar, na capital paranaense. Cascos, escotilhas e rampas foram reaproveitados. Motores, transmissões e sistemas de arrefecimento foram substituídos ou atualizados, e os blindados passaram ao padrão M113A2 Mk1, chamado no Brasil de M113BR.

A divisão de tarefas seguiu um acordo entre os governos dos dois países. A empresa americana fornecia os kits de peças, enquanto os militares do parque desmontavam cada viatura, preparavam o chassi e remontavam tudo. O aviso de venda publicado no Federal Register, o diário oficial dos EUA, em junho de 2014, previa até 434 kits, com custo estimado de US$ 131 milhões.
Por que reformar um blindado com mais de 50 anos de uso?
Porque a estrutura blindada continuava aproveitável, e o problema estava no conjunto mecânico desgastado. Segundo o Exército, o projeto tinha como metas aumentar a disponibilidade da frota e reduzir o custo e o tempo das manutenções. Também buscava estender a vida útil das viaturas por pelo menos 20 anos.
A projeção da empresa é ainda mais longa. Ao anunciar a conclusão do 100º veículo modernizado, em dezembro de 2014, a BAE afirmou que a atualização deve prolongar a vida da frota por mais três a quatro décadas. Se isso se confirmar, veículos que chegaram nos anos 1970 podem continuar em serviço até meados deste século.
Quem opera esses blindados convive com outras tradições curiosas da Força. Uma delas está no uniforme e revela muito sobre a unidade de cada militar.
Quantos M113 foram modernizados em cada fase do programa?
Foram 150 veículos na primeira fase e 236 na segunda, num total de 386. O primeiro lote saiu de um contrato de US$ 41,9 milhões, firmado em dezembro de 2011. A previsão era concluir essa etapa em novembro de 2014.
O último embarque ocorreu em 19 de agosto de 2020, quando quatro viaturas seguiram para o 7º Batalhão de Infantaria Blindado. Com ele, o Exército Brasileiro encerrou o ciclo de modernização no parque de Curitiba. Os M113 reformados foram distribuídos a unidades blindadas e mecanizadas, como os batalhões do Rio Grande do Sul que receberam lotes por Santa Maria.
O que a sobrevida do M113 ensina sobre manter o que já existe?
Ensina que reformar pode render mais anos de uso do que trocar, quando a base ainda está firme. O caso do blindado mostra uma estrutura com mais de cinco décadas recebendo mecânica nova, peças padronizadas e equipes treinadas, sem a necessidade de substituir toda a frota de uma vez.

Essa lógica também funciona longe dos quartéis, do carro da família à geladeira antiga da cozinha. Antes de aposentar algo com estrutura boa, pergunte se o defeito está no corpo ou só no motor. E aí, que objeto da sua casa ainda merece uma segunda vida?
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