A 1.020 metros de altitude nos Campos de Cima da Serra, Cambará do Sul é a porta de entrada para dois parques nacionais criados nos anos 1950 e para o único Geoparque da UNESCO da região Sul do Brasil. Uma cidade de pouco mais de 6 mil habitantes que abriga cânions de até 900 metros de profundidade, cachoeiras despencando dentro dos paredões e um dos poucos lugares do país onde neva com regularidade.
Aparados da Serra: a serra que parece cortada a faca
Os aparados são as encostas verticais que os tropeiros descreviam como paredões aparados a facão. O Parque Nacional Aparados da Serra foi criado pelo Decreto Federal nº 47.446, de 17 de dezembro de 1959, e é um dos parques nacionais mais antigos do país. A luta pela criação foi conduzida pelo padre e naturalista Balduíno Rambo, autor da obra “A Fisionomia do Rio Grande do Sul”.
Anos depois, uma segunda unidade complementou a proteção da área: o Parque Nacional Serra Geral. Juntos, segundo o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), os dois parques somam cerca de 30.400 hectares distribuídos ao longo dos contrafortes da Serra Geral, na divisa entre Rio Grande do Sul e Santa Catarina. O visitante encontra araucárias centenárias, pampa gaúcho, campos de altitude e trechos preservados de Mata Atlântica.

Por que Itaimbezinho é o cânion mais famoso do Brasil?
Porque exibe o desenho mais retilíneo entre todos. O nome vem do tupi-guarani: “ita” significa pedra, “aimbé” significa cortante e afiada. O Cânion Itaimbezinho tem 5,8 km de extensão, paredões de 720 metros de altura e 600 metros de largura, com muralhas tão verticais que parecem terenamente cortadas a faca. Fica a 18 km do centro de Cambará do Sul, dentro do PARNA Aparados da Serra.
Duas trilhas partem da parte superior. A do Vértice tem cerca de 1,4 km e permite ver o cânion inteiro em uma caminhada de 1h30, incluindo a Cachoeira das Andorinhas e a Cascata do Véu de Noiva. A do Cotovelo tem cerca de 6 km ida e volta, com vista lateral privilegiada e cerca de 3 horas de percurso. A trilha do Rio do Boi, feita por dentro do cânion, começa em Praia Grande, no lado catarinense, e exige guia credenciado.
Fortaleza: o cânion mais profundo, com queda d’água de 350 metros
O Cânion Fortaleza, dentro do PARNA Serra Geral, é ainda mais imponente. Os paredões chegam a 900 metros de profundidade, e a chegada aos mirantes se faz por trilha aberta em meio ao campo de altitude. Do último mirante, o visitante enxerga a Cachoeira do Tigre Preto, uma queda com aproximadamente 350 metros de altura que despenca dentro do próprio cânion.
O acesso fica a cerca de 22 km do centro de Cambará, também por estrada de terra. A trilha completa gira em torno de 7,4 km ida e volta, com pontos panorâmicos ao longo do caminho. Costuma ser menos frequentado que o Itaimbezinho, o que ajuda o silêncio das araucárias a se impor. Somente na região dos dois parques existem mais de 60 cânions catalogados, muitos deles ainda pouco explorados pelo turismo.
Um dos poucos lugares do Brasil onde neva
A cidade está entre as mais frias do Brasil e figura ano após ano nos rankings de temperaturas mais baixas do país. As geadas são frequentes entre maio e setembro, e em algumas madrugadas o inverno traz o raro espetáculo da neve, que atrai visitantes de estados vizinhos e das capitais do Sul. Não é evento anual, mas acontece com uma regularidade que poucos municípios brasileiros conseguem exibir.
A altitude de 1.020 metros também influencia a paisagem. Os campos abertos ficam brancos de geada nas manhãs de julho, as araucárias ganham silhueta de cartão-postal contra o céu limpo e a atmosfera lembra parques europeus. Uma cidade que se veste de inverno de verdade a poucas horas do litoral gaúcho.

O que fazer além dos dois cânions principais?
A região oferece experiências que vão além das trilhas nos parques. Cambará do Sul é referência em turismo rural e produção de mel na Serra Gaúcha, e o ritmo desacelera assim que se sai da rota tradicional.
- Cachoeira dos Venâncios: sequência de cinco quedas em meio à mata, com poços para banho e um dos passeios mais concorridos fora dos parques nacionais.
- Cascata do Tigre Preto: vista do mirante do Cânion Fortaleza ou pela trilha técnica do Rio do Boi, com condutor cadastrado obrigatório.
- Passeio de balão sobre os cânions: voos comerciais operam nas primeiras horas da manhã e permitem ver Itaimbezinho e Fortaleza do alto.
- Fazenda São José: propriedade tradicional dos Campos de Cima da Serra, com cavalgadas, produção de queijos artesanais e hospedagem em cabanas de madeira.
- Trilha do Rio do Boi: caminhada de nível intenso pelo interior do Cânion Itaimbezinho, com 14 km e travessias no rio, feita apenas com guia certificado pelo ICMBio.
- Feira do Mel: Cambará é referência em apicultura, e produtores locais vendem mel silvestre, própolis e derivados em pontos comerciais no centro.
Onde comer bem na Terra dos Cânions
A gastronomia serrana carrega herança tropeira, com receitas de forno a lenha e a pinha da araucária transformada em prato principal em várias mesas.
- Galeto ao primo canto: frango jovem assado na brasa com temperos leves, prato clássico das cantinas da Serra Gaúcha.
- Pinhão: semente da araucária servida cozida, na paçoca ou em risotos, presente em quase todos os cardápios locais no outono e inverno.
- Costela de fogo de chão: peça bovina assada por horas em espeto próximo ao fogo, tradição campeira dos Campos de Cima da Serra.
- Queijo serrano e mel silvestre: produtos artesanais que aparecem em cafés coloniais e no comércio local, herança direta da tradição rural.
Geoparque Mundial da UNESCO Caminhos dos Cânions do Sul
Em 13 de abril de 2022, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) incluiu a região na Rede Global de Geoparques. Segundo a organização gestora do Geoparque Mundial da UNESCO Caminhos dos Cânions do Sul, o território abrange sete municípios de dois estados: Cambará do Sul, Mampituba e Torres, no Rio Grande do Sul, mais Praia Grande, Jacinto Machado, Timbé do Sul e Morro Grande, em Santa Catarina.
A área total soma 2.830 km² e cerca de 74 mil habitantes. O reconhecimento coloca o território ao lado de mais de 170 geoparques em quase 50 países e reforça a relevância geológica internacional dos paredões, formados há cerca de 130 milhões de anos por sucessivos derrames vulcânicos que originaram a Formação Serra Geral. É o segundo geoparque brasileiro a receber a chancela, depois do Araripe, no Ceará.
Como é o clima ao longo do ano
O clima é subtropical de altitude, com verões amenos e invernos rigorosos para os padrões brasileiros. As melhores janelas para os cânions são o outono e o inverno, quando a neblina baixa e a paisagem aparece por inteiro.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Como chegar a Cambará do Sul
A cidade fica a 185 km de Porto Alegre pela BR-116 e RS-020, cerca de três horas de carro. De Gramado ou Canela, o trajeto passa por São Francisco de Paula e leva aproximadamente duas horas. O Aeroporto Internacional Salgado Filho, na capital gaúcha, é a porta de entrada mais próxima para quem chega de outros estados. Muitos visitantes combinam Cambará com a Serra Gaúcha em um mesmo roteiro.
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Suba a serra e caminhe até a beira do abismo
Cambará do Sul entrega o que poucas cidades brasileiras conseguem: paredões de rocha vulcânica, temperaturas negativas, um Geoparque da UNESCO e a chance rara de ver neve caindo em território nacional. Tudo isso a três horas de uma capital do Sul.
Você precisa conhecer Cambará do Sul num amanhecer de inverno e chegar até a borda do Itaimbezinho antes da neblina, para entender por que os tropeiros diziam que a serra ali é aparada a faca.




