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Morador constrói churrasqueira encostada no muro da divisa, a fumaça entra pela janela do vizinho asmático, e o laudo do Corpo de Bombeiros vira a prova central da ação por uso nocivo da propriedade

Por Gabriel Leme
13/09/2026
Em Curiosidades
Fumaça da churrasqueira pode configurar uso nocivo da propriedade vizinha.

Fumaça da churrasqueira pode configurar uso nocivo da propriedade vizinha.

Às 11h20 de um sábado, Renato, 46 anos, motorista autônomo em João Pessoa, dobrava roupas no quarto quando uma nuvem cinza entrou pela janela. Em poucos minutos, sentiu chiado no peito e precisou buscar a medicação indicada para suas crises de asma. Do outro lado do muro, o almoço de Cláudio, 39 anos, eletricista, começava em uma churrasqueira recém-construída.

A churrasqueira apareceu junto ao muro

Cláudio havia aproveitado uma reforma no quintal para levantar a churrasqueira na divisa, encostada na parede que separava os imóveis. A saída da fumaça terminava pouco abaixo da janela lateral do quarto de Renato, distância que não parecia problemática enquanto o equipamento estava apagado. Nos primeiros usos, porém, o vento empurrou fuligem e cheiro de carvão diretamente para dentro da casa vizinha.

Renato fechou a janela e tentou mudar a cama de posição, mas o cômodo ficou abafado e a fumaça continuou entrando por frestas. Ele anotou três episódios em duas semanas, todos durante almoços de fim de semana, e percebeu que a tosse diminuía quando saía de casa. A relação entre fumaça e saúde respiratória ganhou peso depois que um médico registrou a piora dos sintomas após a exposição.

O acordo informal não resolveu

Na primeira conversa, Renato pediu que a saída fosse elevada ou direcionada para outro ponto do telhado. Cláudio respondeu que usava a churrasqueira apenas aos domingos, que a construção estava dentro do próprio terreno e que não pretendia gastar outros R$ 1.800 cobrados por um pedreiro. Renato enviou uma mensagem com fotos da fuligem, mas recebeu apenas a sugestão de manter a janela fechada.

Um mês depois, a gordura acumulada provocou uma chama alta e parte do calor atingiu uma cobertura próxima ao muro. O Corpo de Bombeiros foi chamado, controlou o princípio de incêndio e registrou as condições encontradas. Renato solicitou o documento técnico do atendimento, e o laudo descreveu a origem do fogo, a posição da churrasqueira e a proximidade da saída de fumaça com a construção vizinha.

Laudo técnico reforça a prova sobre risco, fuligem e proximidade da estrutura.
Laudo técnico reforça a prova sobre risco, fuligem e proximidade da estrutura.

O que diz o artigo 1.277 do Código Civil?

O fato de uma obra permanecer dentro do terreno não autoriza seu uso de qualquer maneira. O Código Civil, Lei 10.406/2002, artigo 1.277, permite ao proprietário ou possuidor exigir o fim de interferências vindas do imóvel vizinho que prejudiquem a segurança, o sossego ou a saúde. O texto pode ser consultado no Código Civil publicado pelo Planalto.

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A análise considera a localização dos imóveis, a forma de ocupação da área, as regras urbanísticas e o limite normal de tolerância entre vizinhos. Assim, um churrasco ocasional não é automaticamente ilegal, mas a entrada repetida de fumaça no quarto de uma pessoa asmática pode caracterizar uso nocivo da propriedade quando as provas mostram prejuízo concreto. A solução depende das circunstâncias demonstradas em cada caso.

O que o vizinho pode exigir na prática?

Renato reuniu o laudo do Corpo de Bombeiros com receitas, relatório médico, fotografias da fuligem, vídeos da fumaça e cópias das mensagens enviadas. O artigo 1.277 não fixa um número de dias para a correção, por isso uma notificação pode indicar prazo razoável, enquanto eventual decisão judicial estabelecerá o período obrigatório. Os pedidos possíveis devem corresponder ao problema comprovado:

  • cessação do uso até que o risco ou a interferência seja corrigido;
  • mudança da churrasqueira ou adequação da chaminé por profissional habilitado;
  • tutela de urgência quando houver prova da probabilidade do direito e perigo de dano;
  • multa pelo descumprimento de uma ordem judicial;
  • ressarcimento de despesas ou indenização, desde que os danos e o vínculo com a fumaça sejam demonstrados.

A tutela de urgência está prevista no artigo 300 do Código de Processo Civil, Lei 13.105/2015, e pode ser analisada antes do fim da ação quando os documentos indicam risco atual. O artigo 497 também permite ordem para fazer, deixar de fazer ou remover a continuação do ilícito. As regras estão no Código de Processo Civil publicado pelo Planalto.

A quem recorrer quando a conversa falha?

Como a disputa ocorre entre vizinhos, o Procon geralmente não é o canal principal, pois pode não existir relação de consumo. A fiscalização municipal de obras ou de posturas pode verificar licenciamento, recuos e regras locais, enquanto a Defensoria Pública ou um advogado pode avaliar notificação e ação judicial. O Corpo de Bombeiros deve ser acionado diante de emergência, risco de incêndio ou pelos canais técnicos disponíveis no estado.

  • prefeitura ou fiscalização urbana, para possíveis irregularidades construtivas;
  • Corpo de Bombeiros, em emergência pelo 193 ou no canal estadual de segurança contra incêndio;
  • Defensoria Pública, para quem não pode pagar assistência jurídica;
  • advogado particular ou núcleo de mediação, conforme a renda e a urgência.

Na Paraíba, a página oficial informa que a perícia de incêndio pode ser solicitada mediante requerimento e resulta em laudo elaborado após inspeção por oficial habilitado. Esse serviço se refere à apuração técnica do incêndio, não a uma decisão sobre o conflito civil. O procedimento está explicado pelo Corpo de Bombeiros Militar da Paraíba.

O laudo mudou o rumo da discussão

Com apoio jurídico, Renato pediu a interrupção do uso até a adequação da estrutura. Na história, o juiz considerou o laudo central porque ele trouxe uma observação técnica independente sobre a origem do princípio de incêndio e a disposição da churrasqueira, enquanto os documentos médicos mostraram o impacto respiratório. A ordem provisória fixou 15 dias para a correção, prazo definido naquele processo, e não diretamente pela lei.

Cláudio contratou um profissional, afastou a churrasqueira do muro e instalou uma saída dimensionada para conduzir a fumaça longe da janela. O equipamento voltou a ser usado depois da adaptação, sem novos registros no quarto de Renato. Para quem vive situação semelhante, o caminho é documentar datas, efeitos e tentativas de acordo, pois o laudo técnico fortalece a prova, mas deve ser analisado junto aos demais elementos.

Renato e Cláudio são personagens inventados, e nenhuma das pessoas descritas existe. A narrativa reúne situações recorrentes em conflitos entre vizinhos para mostrar como a fumaça costuma virar problema e em que momento as normas podem ser usadas.

Tags: churrasqueira na divisacorpo de bombeirosdireito de vizinhançasaúde respiratória
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