Quase toda cidade histórica é lembrada pelas igrejas, e poucas pelas pontes que ligam uma rua à outra. Em São João del-Rei, no Campo das Vertentes, em Minas Gerais, elas contam boa parte da história: o centro antigo se divide entre as duas margens do Córrego do Lenheiro, e as travessias de pedra construídas na virada do século XVIII para o XIX seguem firmes. Restauradas pelo patrimônio federal, as pontes viraram cartões-postais e um roteiro próprio dentro da cidade.
Por que São João del-Rei nasceu à beira do Córrego do Lenheiro?
Por causa do ouro. Segundo monografia do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), os primeiros povoadores foram paulistas atraídos pelos cascalhos com ouro da bacia do Rio das Mortes. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) acrescenta que o arraial se formou às margens do Córrego do Lenheiro em decorrência da mineração e foi elevado a vila em 8 de dezembro de 1713.
Com a vila dividida pela água, atravessar o córrego virou necessidade diária. As primeiras travessias eram de madeira e precisavam de conserto constante, até que a administração local passou a investir em pontes de pedra e cal, mais resistentes. Duas delas sobreviveram até hoje e se tornaram, nas palavras do próprio Iphan, elementos arquitetônicos de grande poder simbólico na imagem da cidade.

Qual é a história da Ponte da Cadeia?
É a mais antiga das duas pontes de pedra. De acordo com o Iphan, a Ponte da Cadeia, em arcos de pedra, foi construída em 1797 para substituir uma antiga ponte de madeira. O nome vem da cadeia que funcionava no primeiro andar do prédio onde hoje está a Prefeitura, bem ao lado da travessia.
A qualidade da construção impressiona até os técnicos. O Iphan registra que, apesar de mais de 200 anos de uso, a Ponte da Cadeia não apresentava nenhum tipo de dano estrutural quando passou pela restauração mais recente. Para uma estrutura erguida no fim do século XVIII e usada até hoje por pedestres e carros, é um atestado da habilidade dos antigos mestres de cantaria.
O que fica em cada lado da Ponte do Rosário?
Duas igrejas e um memorial. Construída em 1800, segundo o Iphan, a Ponte do Rosário tem de um lado a Igreja do Rosário e, do outro, o Memorial Tancredo Neves e a Igreja de São Francisco. É um dos pontos em que a ligação entre as duas margens da cidade fica mais evidente, com a arquitetura religiosa emoldurando a travessia.
A posição faz da ponte um bom ponto de partida para caminhar pelo centro histórico. De um lado da água fica a Igreja do Rosário; do outro, o conjunto da Igreja de São Francisco. Em poucos minutos a pé, é possível cruzar o córrego várias vezes e perceber como a cidade cresceu espelhada nas duas margens.

O que ver no roteiro das pontes do Lenheiro?
As travessias sobre o córrego e seus afluentes formam um percurso curto, que pode ser feito a pé. O Iphan destaca os principais pontos desse caminho.
Como as pontes históricas foram restauradas?
Com recursos federais e foco na segurança. Segundo o Iphan, as pontes da Cadeia, do Rosário e do Teatro, além da passarela da estação, receberam cerca de R$ 1,5 milhão do Programa de Preservação de Cidades Históricas. As obras buscaram preservar o patrimônio e, ao mesmo tempo, garantir a segurança de pedestres e motoristas que usam as travessias diariamente.
A entrega teve data simbólica. O instituto informa que as quatro pontes foram entregues em 8 de dezembro, no aniversário de 308 anos da cidade, a mesma data em que o arraial foi elevado a vila em 1713. Nas palavras da superintendência do Iphan em Minas, as pontes são referências simbólicas da cidade, e a restauração devolveu aos moradores alguns dos principais cartões-postais do centro histórico.
Como é o clima de São João del-Rei ao longo do ano?
O clima tem verões chuvosos e invernos secos e frescos. Dezembro concentra 246 mm de chuva em média, enquanto julho registra apenas 12 mm, com mínima de 11°C.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
As travessias que costuram a cidade
São João del-Rei nasceu dividida pela água e aprendeu a se unir por meio da pedra. O córrego que atraiu os mineradores de ouro segue cortando o centro histórico, e as pontes da Cadeia e do Rosário, erguidas há mais de dois séculos, continuam fazendo o que sempre fizeram: aproximar as duas metades da cidade. Restauradas e reconhecidas como símbolos locais, elas mostram que o patrimônio não precisa estar dentro de um museu para contar histórias.
Você precisa atravessar a Ponte da Cadeia no fim da tarde, seguir pela beira do Lenheiro até a Ponte do Rosário e parar entre as igrejas das duas margens para entender como São João del-Rei se construiu de um lado e do outro da água.




