A 70 km ao norte de Ilhéus, na chamada Costa do Cacau, o litoral sul da Bahia guarda um dos destinos mais preservados do Brasil. Itacaré se ergue exatamente onde o Rio de Contas, que nasce na Chapada Diamantina e cruza o interior baiano, encontra o Oceano Atlântico. A cidade reúne mais de 20 praias distribuídas em um litoral recortado por costões rochosos, o Parque Estadual da Serra do Conduru com 9.275 hectares de Mata Atlântica, uma das maiores biodiversidades do planeta e uma plataforma continental de apenas 8 milhas de extensão, que permite ao mar chegar à costa com força e constância raras no litoral baiano. É essa combinação que transformou Itacaré na principal referência nacional de ecoturismo, surfe e cachoeiras em contato direto com o oceano.
Do jesuíta Luís da Grã em 1731 ao asfalto que só chegou em 1998
A história começa no século XVIII, quando o jesuíta Luís da Grã ergueu uma capela dedicada a São Miguel na foz do Rio de Contas, sobre uma antiga aldeia dos índios Pataxós. Em 1731, o povoado foi elevado à categoria de vila com o nome de São Miguel da Barra do Rio de Contas, e no ano seguinte virou município. O nome atual, adotado apenas em 1931, tem origem tupi e significa jacaré de pedra, referência direta à geografia acidentada da foz do rio. Antes das estradas modernas, a região era marcada pela navegação fluvial, pela presença de contrabandistas e por quilombos formados por escravizados fugitivos.
No fim do século XIX, o cacau transformou a economia local. O porto de Itacaré escoava toneladas do fruto para o mundo, financiando os casarões coloniais que hoje pontuam o centro histórico. A crise veio nos anos 1980, quando a praga da vassoura-de-bruxa dizimou as lavouras da região e a vila entrou em silêncio. Segundo o Correio Braziliense, foi esse isolamento que salvou a paisagem: a Mata Atlântica avançou de volta sobre os morros, as praias permaneceram selvagens e, quando o asfalto finalmente chegou pela BA-001 em 1998, revelou um dos destinos mais preservados do país.

Por que Itacaré tem ondas raras no litoral baiano?
A resposta está na geografia submarina. A plataforma continental em frente à cidade tem apenas 8 milhas de extensão, uma das mais estreitas da costa nordestina brasileira, o que permite que as ondas do Atlântico cheguem à costa com força e constância que praticamente não existem em outros pontos da Bahia. Esse desenho natural transformou praias como Tiririca e Engenhoca em paradas obrigatórias do circuito nacional do surfe, com etapas de campeonatos brasileiros disputados regularmente na região.
A cidade preserva ainda uma coleção rara de praias urbanas caminháveis a partir do centro, o que a diferencia da maior parte dos destinos do Nordeste. A sequência urbana forma um circuito de cerca de 3 km que reúne Praia do Resende, Tiririca, Praia da Costa e Ribeira. Já a Praia da Concha, com águas calmas protegidas por um recife natural, fica a apenas cinco minutos do centro e é o principal ponto de banho para famílias com crianças.
O que fazer em Itacaré?
O roteiro combina praias urbanas, praias selvagens acessadas por trilha, cachoeiras a poucos quilômetros do centro e o Parque Estadual da Serra do Conduru. A maioria fica a menos de 30 minutos do centro urbano.
- Praia da Concha: piscinão natural protegido por recife, a cinco minutos do centro, principal ponto de banho para famílias com águas calmas.
- Praia da Tiririca: ondas fortes com trapiches de acesso e o principal pico de surfe da cidade, sede de etapas de campeonatos nacionais.
- Praia da Engenhoca: acessada por trilha na Mata Atlântica, com ondas famosas no circuito internacional do surfe.
- Prainha: praia selvagem acessível apenas por trilha de 40 minutos a partir da Ribeira ou por atalho pelo condomínio Villa de São José.
- Praia Grande: 3,5 km de extensão, ideal para caminhadas longas, mergulho e ponto de desova de tartarugas marinhas entre setembro e março.
- Cachoeira do Tijuípe: queda de 4 metros de altura por 15 de largura na estrada para Serra Grande, com piscina natural ao pé da queda e trilha leve de acesso.
- Cachoeira do Cleandro: travessia de barco ou caiaque pelo mangue do Rio de Contas até fazenda de cacau com três quedas d’água no meio da mata densa.

O Parque Estadual da Serra do Conduru e o rafting no Rio de Contas
Fora do circuito das praias, Itacaré está cercada por unidades de conservação que preservam um dos maiores acervos de biodiversidade da Mata Atlântica. O Parque Estadual da Serra do Conduru (PESC) tem 9.275 hectares e abrange os territórios de Itacaré, Ilhéus e Uruçuca. Já a Área de Proteção Ambiental Costa de Itacaré/Serra Grande guarda espécies ameaçadas de extinção, como a preguiça-de-coleira e o mico-leão-de-cara-dourada, endêmicos do sul da Bahia.
- Rafting no Rio de Contas: corredeiras em Taboquinhas, a 30 km do centro, com trecho reconhecido como um dos melhores do país para o esporte.
- Fazenda Vila Rosa: em Taboquinhas, com visita à produção artesanal de chocolate bean-to-bar feito a partir do cacau da região.
- Arvorismo com tirolesa: percurso de 280 metros sobre a Praia da Ribeira, um dos maiores circuitos do gênero em praia no Brasil.
- Passeio de caiaque pelos manguezais: percurso guiado pela foz do Rio de Contas com observação de fauna aquática e vegetação de mangue.
- Mirante do Xaréu: ponto alto sobre a foz do Rio de Contas com o pôr do sol mais fotografado da cidade.
- Mirante de Serra Grande: à beira da BA-001, com uma das vistas mais amplas do litoral baiano.
O que se come na vila do cacau?
A gastronomia mistura raízes baianas do dendê com influência caiçara e ingredientes locais como cacau, cupuaçu e peixes frescos. A vida noturna concentra-se na Rua Pedro Longo, conhecida como Pituba, com bares de música ao vivo e casas de forró pé-de-serra que se estendem até a madrugada.
- Moqueca baiana de peixe: ensopado tradicional em panela de barro com dendê, leite de coco, coentro e pimenta, servido nos restaurantes do centro.
- Bobó de camarão: creme de mandioca com camarão fresco, leite de coco e dendê, um dos pratos mais pedidos da cozinha regional.
- Peixe grelhado com molho de cupuaçu: releitura contemporânea que usa a fruta amazônica como acompanhamento ácido para peixes locais.
- Chocolate bean-to-bar: produção artesanal das fazendas da Costa do Cacau, com barras rastreadas do fruto ao produto final.
- Acarajé e frutos do mar frescos: nas barracas da Praia da Concha e nas cabanas da Praia da Ribeira, durante o dia.

Como é o clima e como chegar
Itacaré tem clima tropical úmido, com chuvas bem distribuídas ao longo do ano e temperaturas amenizadas pela brisa constante do Atlântico. Segundo o Climatempo, os meses de setembro a março concentram a temporada de desova das tartarugas marinhas na Praia Grande.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
O acesso mais comum é pelo Aeroporto Jorge Amado, em Ilhéus, a 70 km pela BA-001, cerca de uma hora e quinze minutos de carro. De Salvador, são aproximadamente 270 km via balsa de Itaparica ou 391 km pela BR-101. Ônibus intermunicipais partem regularmente das duas cidades para a rodoviária local. A cidade integra o roteiro da Costa do Cacau com Ilhéus e Uruçuca.
A vila do cacau que virou paraíso do surfe
Itacaré entrega o que quase nenhum destino brasileiro reúne. Mais de 20 praias distribuídas entre a Mata Atlântica preservada e o Atlântico, uma plataforma continental de apenas 8 milhas que garante ondas raras no litoral baiano, um parque estadual com 9.275 hectares habitat de espécies ameaçadas de extinção e cachoeiras a poucos minutos do centro urbano. Tudo isso preservado por décadas de isolamento e revelado ao país apenas depois que o asfalto chegou em 1998.
Você precisa conhecer Itacaré num fim de semana de primavera, caminhar até a Prainha pela trilha da Mata Atlântica e reservar uma manhã para a Cachoeira do Tijuípe para entender por que a antiga vila do cacau virou o principal refúgio de surfistas e ecoturistas da Costa do Cacau baiana.




