Nem toda capital brasileira consegue apontar o dia exato em que começou a existir. Goiânia, no Centro-Oeste, teve sua pedra fundamental cravada no chão do Cerrado em 24 de outubro de 1933. Menos de sete décadas depois, a mesma cidade abrigaria o maior conjunto arquitetônico art déco do país, com 22 bens tombados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) em 2003. A capital que surgiu no papel de um urbanista formado em Paris ainda preserva as linhas do plano original.
O que aconteceu no dia 24 de outubro de 1933 em Goiânia?
A cerimônia daquela terça-feira marcou o início de uma cidade planejada do zero. Segundo o portal da Assembleia Legislativa de Goiás, o projeto foi decisão do interventor Pedro Ludovico Teixeira, que defendia a transferência da capital estadual da antiga Vila Boa, no interior aurífero, para um ponto central e conectado a novas rotas econômicas.
A construção fez parte da Marcha para o Oeste, política do governo Getúlio Vargas para ocupar o Centro-Oeste no final dos anos 1930. A escolha do local, a vocação industrial da nova capital e a promessa de romper com o “atraso” da região colonial deram à cidade um ar de projeto futurista antes mesmo de erguer o primeiro edifício público.

Como um urbanista formado em Paris projetou Goiânia inspirado em Versalhes?
A resposta está no traço radial que ainda hoje organiza o centro da capital. Pedro Ludovico contratou Atílio Corrêa Lima, o primeiro urbanista diplomado do Brasil, para elaborar o plano-piloto. O arquiteto trouxe de Paris referências diretas do art déco e da teoria das cidades-jardim, aplicadas tanto no desenho das ruas quanto na estética das primeiras edificações.
O centro foi organizado a partir da Praça Cívica, de onde partem três avenidas principais, Goiás, Araguaia e Tocantins, em formato radial, com inspiração declarada no Palácio de Versalhes. Vista de cima, a geometria do Setor Central expõe as intenções do projeto original: monumentalidade, simetria e a promessa de modernidade que dava sentido àquele deslocamento populacional.
Por que o IPHAN tombou 22 edifícios da capital em 2003?
A resposta é técnica e histórica ao mesmo tempo. Segundo o portal do IPHAN, o estilo art déco foi escolhido para as primeiras construções porque unia modernidade e economia, exatamente o que a nova capital precisava para se afirmar como projeto de futuro.
Os prédios erguidos entre as décadas de 1940 e 1950 mantiveram o vocabulário decorativo do estilo: linhas retas, formas geométricas, monumentalidade discreta e elementos regionais adaptados ao Cerrado. O Conjunto Arquitetônico e Urbanístico Art Déco de Goiânia foi tombado pelo IPHAN em 2003 e inclui 22 edifícios e monumentos públicos, além do núcleo pioneiro de Campinas, antigo município independente que hoje é bairro da capital. O acervo é considerado um dos mais significativos do país.

Quais prédios formam o núcleo tombado do art déco goianiense?
A caminhada por poucas quadras do centro cobre a maior parte do conjunto tombado. Segundo o Roteiro Art Déco da GoiâniaTur, os principais edifícios se concentram no entorno da Praça Cívica.
- Palácio das Esmeraldas: sede do governo estadual desde a inauguração em 1937, tem três pavimentos e fachada revestida com pó de pedra verde, que imita a cor da gema que dá nome ao edifício.
- Cine Teatro Goiânia: um dos maiores marcos do art déco na capital, com fachada geométrica e programação cultural ativa até hoje.
- Torre do Relógio da Avenida Goiás: erguida em 1942, marca visual do centro histórico e ponto de referência dos moradores.
- Coreto da Praça Cívica: pequena estrutura circular com borda decorada que serve como platibanda, revitalizada pelo IPHAN entre 2019 e 2020.
- Museu Pedro Ludovico Teixeira: construído entre 1934 e 1937, funciona na antiga residência do fundador da capital.
- Antigo Fórum e Tribunal de Justiça: hoje sede da Procuradoria Geral do Estado, tem colunas que formam uma galeria em diálogo com o Palácio das Esmeraldas.
- Estação Ferroviária de Goiânia: inaugurada em 1953, marca o limite norte da região central e foi um dos elos entre a nova capital e o Sudeste industrial.
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O que o Bosque dos Buritis preserva do plano original?
Nem só de fachadas art déco vive a cidade planejada. O Bosque dos Buritis, no Setor Oeste, é o parque mais antigo da capital e já constava no plano de Atílio Corrêa Lima como área verde estratégica. Segundo o portal oficial da GoiâniaTur, a área abriga hoje o Museu de Arte de Goiânia, o Monumento à Paz Mundial, obra do artista goiano Siron Franco, e uma fonte que chega a 50 metros de altura.
O bosque conserva algumas das árvores mais antigas do centro e materializa a ideia de cidade-jardim que Corrêa Lima trouxe da capital francesa. Nas décadas seguintes, Goiânia se firmou como uma das capitais mais arborizadas do Brasil, com investimento contínuo em unidades de conservação urbana e áreas verdes protegidas.
Uma cidade planejada que virou memória viva do art déco
Poucas capitais brasileiras conseguem apontar a data exata do próprio nascimento, o nome do urbanista que traçou suas avenidas e o conjunto de edifícios que ainda hoje mantém viva a estética escolhida para aquele primeiro momento. Goiânia guarda tudo isso ao mesmo tempo: uma pedra fundamental cravada em 1933, três avenidas radiais que homenageiam grandes rios do estado e 22 bens que o IPHAN passou a proteger em 2003.
Na escala de uma tarde no centro, o traçado de Atílio Corrêa Lima ainda organiza o passo dos pedestres pela Praça Cívica. Na escala das décadas, essa mesma geometria transformou a capital do Cerrado em um dos maiores acervos art déco fora da Europa, um projeto de futuro que virou patrimônio antes de completar cem anos.



