A 140 km de Goiânia, cravada em um vale cortado pelo Rio Vermelho, Cidade de Goiás reúne cerca de 24 mil habitantes e o mais completo conjunto barroco preservado do Brasil Central. Foi a capital do estado por 210 anos, até a transferência da sede administrativa para Goiânia em 1937. Em dezembro de 2001, a UNESCO inscreveu o centro histórico na lista do Patrimônio Mundial, único do estado com esse título, e a cidade guarda 90% de sua arquitetura colonial original.
De Arraial de Sant’Anna à Vila Boa de Goiás
A história começa em 1727, quando o bandeirante Bartolomeu Bueno da Silva Filho, conhecido como o Anhanguera, chegou à região em busca de ouro. O acampamento de garimpeiros cresceu rápido com a descoberta das jazidas às margens do Rio Vermelho. Em 1739, o local foi elevado a vila com o nome de Vila Boa de Goiás, tornando-se o primeiro núcleo urbano a se organizar a oeste da Linha de Tordesilhas.
A cidade prosperou como capital da Capitania de Goiás durante o século XVIII e concentrou a administração colonial de toda a região do Cerrado. Segundo a Associação Goiana de Municípios, o esgotamento das minas de ouro no fim do século XVIII deixou Vila Boa parada no tempo, e esse isolamento acabou preservando o barroco colonial. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) tombou o conjunto arquitetônico e urbanístico em 1978. A capital do estado foi transferida para Goiânia em 1937, e o antigo núcleo passou a ser chamado carinhosamente de Goiás Velho.

O que fazer em Cidade de Goiás em dois dias?
Dois dias são suficientes para percorrer o centro histórico a pé e conhecer as principais atrações religiosas e culturais. A cidade cabe em caminhadas curtas, com casarões coloridos que abrigam museus, restaurantes e cafés.
- Centro Histórico: caminhada por ruas de pedra com casarões dos séculos XVIII e XIX, com destaque para a Praça do Chafariz e a atmosfera colonial praticamente intacta.
- Casa de Cora Coralina: sobrado colonial à beira do Rio Vermelho onde nasceu e viveu a poetisa Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas, transformado em museu com objetos originais e livros da escritora.
- Museu das Bandeiras: instalado em prédio imponente do século XVIII na Praça do Coreto, conta a história da ocupação do interior brasileiro pelos bandeirantes durante o ciclo do ouro.
- Igreja de Santana: hoje catedral, é uma das mais antigas construções religiosas da cidade e centro da vida cristã da região desde o século XVIII.
- Igreja de São Francisco de Paula: guarda painéis atribuídos ao mestre André Antônio da Conceição, com talha e pinturas típicas do barroco do interior brasileiro.
- Palácio Conde dos Arcos: antigo palácio dos governadores da Capitania de Goiás, com mobiliário original do século XVIII e coleção de arte colonial.
- Museu de Arte Sacra da Boa Morte: em antiga igreja do centro histórico, abriga um dos acervos de imaginária religiosa mais importantes do Centro-Oeste.
- Cachoeira das Andorinhas: a poucos quilômetros do centro, é o principal atrativo natural da cidade, com trilha leve e opção de banho em piscinas naturais.
A Procissão do Fogaréu e a tradição de 280 anos
O evento mais famoso da cidade é a Procissão do Fogaréu, realizada na madrugada da quarta-feira santa. A tradição foi trazida em 1745 pelo padre espanhol João Perestello de Vasconcelos Spíndola e é celebrada há 280 anos. Homens vestidos de farricocos, com túnicas coloridas e capuzes cônicos medievais, percorrem as ruas iluminadas apenas por tochas em uma encenação da caçada a Cristo antes da crucificação.
Segundo a Revista Oeste, a procissão foi reconhecida em 2023 como Patrimônio Cultural Imaterial do Estado de Goiás. Em junho, a cidade sedia também o Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental (FICA), que reúne cineastas do mundo todo em torno da temática ambiental do Cerrado. A vida cultural gira em torno das praças, das ruas de pedra e das lampiões que iluminam as noites, com fiação elétrica enterrada para preservar a paisagem original.

Sabores da mesa vilaboense
A cozinha combina tradição goiana e receitas mantidas por famílias há gerações. O empadão goiano e os doces do Cerrado são presença fixa nas casas de café.
- Empadão goiano: prato símbolo do estado, com massa robusta recheada de frango, linguiça, ovo cozido, azeitona, guariroba e queijo, servido em restaurantes tradicionais.
- Pequi na galinhada: fruto do Cerrado cozido junto ao arroz com galinha, marca a cozinha regional entre dezembro e março, sua safra natural.
- Doces de Cora Coralina: a poetisa foi doceira antes de escritora, e as receitas continuam vivas em confeitarias do centro histórico com quitandas como o alfenim, o pé de moleque e a rapadura mineira.
- Café colonial: mesas fartas com pães caseiros, queijo da região, requeijão, doce de leite e frutas do Cerrado, servido em pousadas tradicionais e cafés do centro histórico.
Qual a melhor época para visitar Cidade de Goiás?
O clima é típico do Cerrado, com duas estações bem definidas. A seca vai de maio a setembro, com dias amenos e noites frescas. A chuvosa concentra-se entre outubro e abril, com pancadas de fim de tarde.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Junho e julho são os meses mais indicados para as caminhadas pelo centro histórico, com clima seco e temperaturas amenas. A Procissão do Fogaréu, na Semana Santa, e o FICA, em junho, são as grandes atrações do calendário cultural.

Como chegar em Cidade de Goiás?
A cidade fica a 140 km de Goiânia pela GO-070, em cerca de 2 horas de carro. O trajeto é asfaltado e atravessa cidades do interior como Itaberaí e Inhumas. Ônibus regulares partem do Terminal Rodoviário de Goiânia com frequência diária.
O Aeroporto Internacional Santa Genoveva, em Goiânia, é o principal ponto de chegada, com voos das principais capitais brasileiras. Uma alternativa é desembarcar no Aeroporto Internacional de Brasília, a cerca de 320 km, e seguir de carro atravessando o Cerrado, em trajeto de aproximadamente 4 horas e meia.
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Vá conhecer Cidade de Goiás
Poucas cidades brasileiras conseguem entregar 210 anos como capital colonial, um centro histórico Patrimônio Mundial da UNESCO e a casa da maior poetisa do Cerrado no mesmo endereço. Cidade de Goiás segue no ritmo do Rio Vermelho, das ruas de pedra e das quitandas nas confeitarias que resistem à modernidade.
Você precisa caminhar pela Praça do Chafariz ao entardecer e visitar a casa onde Cora Coralina viveu para entender por que a antiga Vila Boa virou uma das joias barrocas mais fascinantes do Brasil Central.




