Entre Urubici e Grão-Pará, no sul de Santa Catarina, a Serra do Corvo Branco corta a Serra Geral com um paredão de 90 metros de profundidade. É o maior corte rodoviário em rocha arenítica do país e a primeira ligação por asfalto entre a região serrana e o litoral catarinense.
O maior corte em rocha arenítica do Brasil
A garganta que dá fama à serra fica no ponto mais alto da rodovia, a 1.470 metros de altitude. Dois paredões verticais se abrem sobre a pista com cerca de 90 metros de profundidade, formando uma fenda considerada o maior corte rodoviário em rocha arenítica do país.
A SC-370, batizada de Rodovia Pedro Kuhnen, percorre 57 km entre Grão-Pará, a 110 metros de altitude, e Urubici, a 915 metros. São 805 metros de desnível em cerca de 28 km de subida, com curvas fechadas de 180 graus em trechos onde caminhões precisam manobrar em duas etapas para passar. A pista estreita e cravada em falésia rendeu à estrada o apelido de mais temida do Brasil.

A obra que começou em 1959 com facão e picareta
A abertura do caminho pelos paredões da serra começou em 1959, quando o agricultor Pedro Fedolino Kuhnen, do distrito de Aiurê, em Grão-Pará, reuniu vizinhos para desbravar a montanha com facão e picareta. Ele tinha 39 anos e liderava um grupo que era pago com comida, com nomes anotados em um caderno hoje guardado pela família.
Técnicos do governo estadual chegaram a considerar a obra inviável nas primeiras décadas. Foi preciso mais de vinte anos de trabalho voluntário e o uso de um único trator esteira para vencer o paredão. A rodovia foi inaugurada oficialmente em 19 de abril de 1980, na gestão do governador Jorge Bornhausen, e virou a primeira ligação por estrada entre a Serra Catarinense e o litoral sul do estado.
O urubu-rei que virou “corvo branco” no imaginário local
O nome da serra vem de um equívoco antigo. Moradores da região observavam uma ave de plumagem clara com detalhes coloridos pousada nos paredões e passaram a chamá-la de corvo branco. Tratava-se, na verdade, do urubu-rei, espécie rara que sobrevoa cânions e falésias da Serra Geral e ainda pode ser vista na região.
O apelido pegou e batizou a formação inteira. Com o tempo, a espécie ficou cada vez mais rara na região por conta da degradação ambiental e da baixa taxa de reprodução, mas o nome fixou-se na cartografia e nas placas rodoviárias.

Uma janela para 160 milhões de anos e para o Aquífero Guarani
As rochas da Serra Geral têm cerca de 160 milhões de anos e nasceram do resfriamento de camadas espessas de lava vulcânica no período em que os continentes sul-americano e africano ainda estavam unidos. O corte aberto pela SC-370 expõe camadas sobrepostas de arenito e basalto que contam a história geológica do sul do Brasil.
A fenda também rasgou o subsolo até atingir um dos maiores reservatórios de água doce do planeta. Segundo o portal de turismo do Governo de Santa Catarina, o local é um dos poucos pontos do país onde é possível ver a olho nu a afloração do Aquífero Guarani, que se estende por Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai. Um dos paredões escorre água o ano inteiro; o outro segue seco, efeito direto do rompimento de um lençol freático durante a construção da estrada.
Mirantes de vidro e obra de R$ 56 milhões para blindar a serra
Em 2022, o Parque Altos do Corvo Branco, empreendimento privado no platô acima da fenda, inaugurou seis mirantes panorâmicos, dois deles em plataformas de vidro suspensas sobre o desfiladeiro. Do topo, dá para ver o Cânion Espraiado, o Campo dos Padres, o Vale do Rio Canoas e, em dias limpos, o litoral sul catarinense.
Desde março de 2025, a SC-370 passa por uma ampla obra de revitalização com investimento superior a R$ 56 milhões, com pavimentação em concreto, contenções e reforços estruturais nos trechos mais críticos. O trecho de Urubici até a fenda já está pavimentado; a descida por Grão-Pará segue interditada por segurança, com previsão de conclusão para o fim de 2026.

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Como chegar na Serra do Corvo Branco
O acesso principal parte de Urubici, a 27 km da fenda pela SC-370, com trecho já pavimentado até o corte na rocha. Pelo lado de Grão-Pará, são 27 km até a serra, mas a descida segue interditada por causa das obras de revitalização.
Urubici fica a 196 km de Florianópolis, 267 km de Blumenau e 476 km de Curitiba. O aeroporto mais próximo é o Hercílio Luz, na capital catarinense, com trajeto de cerca de 3 horas por rodovias da serra.
O corte que virou cartão-postal da Serra Catarinense
A Serra do Corvo Branco reúne em poucos quilômetros um recorde nacional de engenharia, um fenômeno geológico de 160 milhões de anos e a história de um agricultor que abriu no facão o caminho entre a serra e o mar. É um pedaço da Serra Geral que combina mega obra rústica e paisagem selvagem.
Você precisa parar no meio da fenda, olhar para cima e entender por que essa estrada continua sendo uma das mais impressionantes do país.



