No alto da Serra Gaúcha, cercada por morros cobertos de parreirais, Monte Belo do Sul preserva uma atmosfera que lembra pequenas comunidades do norte da Itália. Com cerca de 2.700 habitantes, o município reúne vinícolas familiares, estradas sinuosas entre os vinhedos e uma forte ligação com a cultura italiana. A cidade também se destaca por possuir uma das maiores produções de uva por habitante da América Latina e por integrar a região do Vale dos Vinhedos.
O raro município brasileiro de colonização totalmente italiana
A formação de Monte Belo do Sul começou em 1877, quando centenas de famílias vindas de regiões como Veneza, Treviso, Bérgamo e Udine chegaram à serra para ocupar pequenas propriedades rurais. Diferentemente de muitas cidades do sul do Brasil, o município teve colonização essencialmente italiana, característica que ainda aparece no sotaque, na culinária e no dialeto vêneto ouvido em cantinas e rodas de conversa.
A tradição vitivinícola se consolidou rapidamente. Já no início do século XX, famílias locais produziam milhares de hectolitros de vinho por ano, transformando a cultura da uva na principal atividade econômica da cidade. Atualmente, Monte Belo do Sul integra a área da Denominação de Origem (DO) Vale dos Vinhedos e possui certificações ligadas à qualidade de suas uvas e vinhos, reforçando sua reputação como um dos polos mais tradicionais da vitivinicultura brasileira.

A capital do espumante e dos vinhos naturais
Dos 2.270 hectares de parreirais, mais de 40% são de cepas nobres. Monte Belo do Sul é o maior produtor de uvas brancas do Rio Grande do Sul, cultivadas especialmente para a elaboração de espumantes finos. Cerca de 10% das uvas usadas na produção de espumante de todo o estado vêm daqui. A cidade também se consolidou como referência nacional em vinhos naturais, com vinícolas que trabalham biodinâmica e fermentação espontânea.
A Vinícola Monte Bello registrou a primeira marca de vinho comercializada no Brasil. A Tanoaria Mesacaza, única no país a importar carvalho francês para fabricação artesanal de barricas, já produziu mais de 3 mil delas só para a Vinícola Miolo. Grandes casas como Chandon e Valduga compram uvas de Monte Belo do Sul para seus rótulos.
No documentário de Diogo Elzinga, a cidade é revelada como um lugar onde a tradição não é apenas para turistas, mas faz parte do cotidiano dos seus cerca de 2.700 habitantes:
O que fazer entre vinhedos e capitéis?
Monte Belo do Sul é destino de enoturismo e slow travel. As atrações ficam distribuídas entre o centro, as linhas rurais e as estradas que cortam os vinhedos.
- Vinícola Calza: referência em espumantes de método tradicional e vinhos de boutique. Projeto de castas italianas com degustação.
- Famiglia Tasca: museu que narra a história da imigração, com piquenique ao ar livre entre parreirais, sucos e geleias artesanais.
- Casa Marques Pereira: nasceu de uma paixão familiar por vinho. Degustação de linhas Reserva, Gran Reserva e espumantes.
- Tanoaria Mesacaza: ateliê onde se acompanha a fabricação artesanal de barricas de carvalho. Visita com agendamento.
- Mirante de Monte Belo: na praça central, com vista panorâmica do Vale do Rio das Antas e de Bento Gonçalves.
- Igreja Matriz de São Francisco de Assis: construída entre 1959 e 1965, com torres de 65 metros. Seus sinos foram adquiridos em Pádova em 1920 e se chamam Belina, Becker e Scalabrina.
Polentaço: 800 kg de polenta virados de uma só vez
O Polentaço é o evento mais divertido de Monte Belo do Sul. Parte da Festa do Agricultor, a celebração reúne shows, atrações gastronômicas e um concurso de escultura de polenta. O momento mais esperado é o “tombo da polenta gigante”: uma virada de 800 kg de polenta de uma só vez, diante de uma plateia que aplaude de pé.
A polenta é vista como símbolo da identidade dos imigrantes que fundaram a cidade. A festa faz parte de um calendário que inclui o Vieni Vivere la Vita Festival e a Festa de Abertura da Vindima (janeiro a março), quando os visitantes participam da colheita e degustam o mosto fresco. A gastronomia local é rústica e farta: massas caseiras, galeto al primo canto, queijos artesanais, polenta frita e fonduta de queijos aparecem nos cardápios da Francesco Trattoria, da Casa Olga e da Nonna Metilde.

Leia também: Uma cidade onde o mar invade as ruas propositalmente para limpar conquista com seu patrimônio histórico no Brasil.
Quando ir a Monte Belo do Sul e como é o clima na serra?
O clima é temperado de altitude, com invernos frios e verões amenos. A vindima (colheita da uva) acontece entre janeiro e março. O inverno é ideal para degustações com fondue e sopas nas cantinas.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar conforme a altitude.
Como chegar ao borgo italiano da Serra Gaúcha
Monte Belo do Sul fica a 170 km de Porto Alegre e faz divisa com Bento Gonçalves. O acesso mais comum é pela RS-444, que serpenteia pelo Vale dos Vinhedos. O aeroporto mais próximo com voos comerciais é o Hugo Cantergiani, em Caxias do Sul, a 50 km. Algumas estradas rurais que levam às vinícolas são de terra, o que exige atenção em dias de chuva. Ter carro é fundamental, já que as atrações ficam espalhadas pelas linhas do interior.
Brinde no vilarejo onde a uva vale mais que o tamanho
Monte Belo do Sul é a prova de que tamanho não define um destino. Com 2.700 moradores e 2.270 hectares de vinhedos, a cidade produz uva, espumante e vinho natural em escala que envergonha municípios dez vezes maiores. As vinícolas familiares recebem o visitante pelo nome, o dialeto italiano ainda se ouve na rua e a polenta é servida em porções de 800 kg.
Você precisa subir a colina, parar no mirante da praça com uma taça de espumante local e olhar os vinhedos que descem até o vale, para entender por que 416 famílias italianas escolheram ficar.









