Algumas cidades crescem voltadas para o rio, outras para a estrada. Governador Valadares, no leste de Minas Gerais, cresceu olhando para cima e para fora: aos pés do Pico da Ibituruna, uma das plataformas de voo livre mais conhecidas do país, e ligada aos Estados Unidos por uma história que começou com um mineral estratégico da Segunda Guerra. Entre as térmicas da montanha e as remessas de quem partiu, a cidade construiu uma identidade difícil de encontrar em outro lugar do Brasil.
Por que o Pico da Ibituruna atrai pilotos de voo livre?
Por causa do desnível e das correntes de ar quente. Segundo o Instituto Estadual de Florestas (IEF), o pico tem 1.123 metros de altitude e se eleva 990 metros acima do nível do Rio Doce, com térmicas que o órgão classifica entre as melhores do mundo para a prática do voo livre.
As térmicas são colunas de ar aquecido que sobem a partir do solo e sustentam asas-deltas e parapentes por longos períodos. Em uma região quente como o Vale do Rio Doce, o contraste entre a planície aquecida pelo sol e a grande parede de rocha escura tende a favorecer essas correntes ascendentes. O IEF destaca ainda que a pedra pode ser avistada de todos os bairros da cidade, o que faz do pico uma referência permanente na paisagem.

O que protege o pico desde 1989?
A própria Constituição mineira. De acordo com o Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (IEPHA), o tombamento e a declaração do pico como monumento natural foram instituídos pelo artigo 84 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias da Constituição de Minas Gerais, de 1989. Os limites da área foram definidos depois, pela Lei Estadual nº 21.158, de 17 de janeiro de 2014.
A proteção vai além da paisagem. Documento da Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad) aponta que a unidade de conservação abriga cerca de 83 nascentes, além de brejos e lagoas, e reúne vegetação de campo rupestre, típica de afloramentos rochosos, e de floresta estacional semidecidual, formação da Mata Atlântica que perde parte das folhas na estação seca.
O que fazer no Pico da Ibituruna além de voar?
O mesmo documento da Semad descreve o monumento natural como um dos melhores lugares do mundo para diversos esportes de aventura, com acesso gratuito em áreas públicas. As opções vão da adrenalina ao silêncio.
Por que a cidade ganhou o apelido de Valadólares?
Por causa de uma longa ligação com os Estados Unidos, que começou na guerra. Segundo a Universidade Vale do Rio Doce (Univale), a mica, mineral também chamado de malacacheta, era fornecida pela Índia até que o bloqueio naval alemão interrompeu o abastecimento. Com a descoberta de ricas reservas na região, os norte-americanos montaram estruturas de extração, transporte e beneficiamento, com estradas e até jipes.
A emigração veio nas décadas seguintes. Um estudo publicado na plataforma científica Redalyc registra que o fluxo começou nos anos 1960, quando jovens da cidade partiram para os EUA, e que em 1962 o primeiro bolsista de intercâmbio embarcou pelo programa American Field Service. Pesquisas reunidas em outro artigo da mesma plataforma indicam que, entre 1985 e 1989, 86% dos emigrantes valadarenses seguiram para os Estados Unidos, quase metade rumo a Massachusetts. O mesmo levantamento cita uma estimativa de 1997 segundo a qual 18% dos domicílios da cidade tinham pelo menos um integrante vivendo no exterior, e aponta que os recursos trazidos por emigrantes chegaram a impulsionar a abertura de serviços privados de saúde na cidade.

Como é o clima de Governador Valadares ao longo do ano?
O clima é quente, com verões chuvosos e invernos secos. Dezembro concentra 227 mm de chuva em média, enquanto julho registra só 13 mm, e as máximas passam dos 30°C em boa parte do ano.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Uma cidade entre a montanha e o mundo
Governador Valadares tem duas formas de partir. Uma é pelo ar, lançada do alto de uma rocha escura que se ergue quase mil metros acima do rio e sustenta pilotos em colunas de ar quente. A outra é pelas rotas que levaram gerações de valadarenses aos Estados Unidos, abertas por um mineral de guerra e mantidas por laços de família. Protegido desde 1989, com nascentes, trilhas e fé em suas encostas, o Pico da Ibituruna segue como o ponto fixo de uma cidade acostumada a olhar para longe.
Você precisa subir até o mirante da Ibituruna numa manhã seca de inverno, ver os parapentes ganharem altura sobre o Rio Doce e entender por que tanta gente dessa cidade aprendeu a sonhar além do horizonte.




