Emprestar um tablet ao filho durante as férias pode terminar em uma surpresa desagradável quando começam a chegar notificações de compras digitais no aplicativo do banco. Jogos aparentemente gratuitos podem oferecer moedas virtuais, personagens e vantagens que exigem pagamentos reais. Quando essas transações são feitas por menores sem autorização, surge a dúvida sobre quem deve assumir os gastos.
Como uma criança consegue gastar dinheiro dentro de um jogo gratuito?
Grande parte dos jogos para celulares e tablets permite o acesso gratuito, mas oferece compras dentro do aplicativo. Essas transações podem envolver moedas virtuais, roupas para personagens, recursos adicionais ou ferramentas que aceleram o progresso. O problema aparece quando a criança não compreende que determinados botões representam pagamentos com dinheiro real.
Se o aparelho estiver conectado à conta de um adulto e possuir um cartão cadastrado, algumas compras podem ser concluídas com poucas etapas, dependendo das configurações de autenticação. Transações pequenas e repetidas podem acumular valores consideráveis antes que os responsáveis percebam, principalmente quando as notificações bancárias não são acompanhadas imediatamente.
Emprestar o tablet significa autorizar todas as compras?
Permitir que uma criança utilize um dispositivo não significa necessariamente concordar com qualquer transação realizada durante o acesso. Existe uma diferença entre a autorização para jogar e o consentimento para adquirir produtos digitais. Na análise de uma cobrança contestada, podem ser considerados fatores como a idade do menor, a identificação do usuário e os mecanismos de confirmação disponíveis.
O Código de Defesa do Consumidor estabelece direitos relacionados à informação clara, à segurança dos serviços e à proteção contra práticas abusivas. Isso pode fundamentar questionamentos sobre cobranças realizadas sem autorização, mas não garante reembolso automático em qualquer situação. Cada caso depende das circunstâncias da compra e de sua avaliação.

O ECA Digital trouxe novas responsabilidades para as plataformas
A Lei nº 15.211/2025, conhecida como ECA Digital, entrou em vigor em 17 de março de 2026 e ampliou as obrigações de proteção de crianças e adolescentes no ambiente digital. Entre suas determinações está a disponibilização de ferramentas de supervisão parental que permitam aos responsáveis restringir compras e transações financeiras.
A legislação também proíbe as chamadas caixas de recompensa, conhecidas como loot boxes, em jogos direcionados a crianças e adolescentes ou de acesso provável por esse público, conforme a classificação indicativa. São mecanismos nos quais o jogador paga por itens ou vantagens aleatórias sem saber antecipadamente o que receberá. A proibição não significa que toda compra dentro de jogos infantis seja ilegal.
É possível pedir o dinheiro de volta depois das compras?
O responsável pode solicitar o reembolso das transações pela plataforma que processou os pagamentos. No Google Play, compras de aplicativos, jogos e itens digitais podem ser elegíveis a reembolso em até 48 horas, dependendo das circunstâncias. Depois desse período, a orientação da empresa é procurar o desenvolvedor, sem prejuízo dos direitos previstos na legislação brasileira.
Na Apple, determinadas compras feitas na App Store também podem ser encaminhadas para análise por meio do serviço de solicitação de reembolso. É necessário identificar os itens cobrados e informar o motivo do pedido. A devolução não é automática, e a plataforma avalia a elegibilidade da solicitação.
Quais provas ajudam a contestar os gastos feitos pelo menor?
Ao identificar cobranças inesperadas, o primeiro passo é consultar o histórico de compras da conta utilizada no tablet. É recomendável guardar comprovantes, datas, valores, nomes dos aplicativos e mensagens de confirmação recebidas por e-mail. Esses registros ajudam a demonstrar quais transações estão sendo questionadas e facilitam o atendimento pelas empresas envolvidas.
Também convém comunicar o banco ou a administradora do cartão e explicar que os gastos foram realizados por um menor sem autorização, evitando classificá-los incorretamente como fraude de desconhecidos. Caso a plataforma recuse a solicitação, os responsáveis podem procurar o Procon ou registrar uma reclamação no Consumidor.gov.br, quando a empresa estiver cadastrada. Protocolos e respostas devem ser preservados.
Como evitar novas compras digitais durante as férias?
A medida preventiva mais direta é configurar o dispositivo para exigir senha ou autenticação antes de cada pagamento e revisar os cartões associados à conta. No Android, os responsáveis podem utilizar recursos do Google Family Link e as opções de aprovação de compras do Google Play. Nos dispositivos Apple, o Compartilhamento Familiar oferece o recurso Pedir para Comprar.
Essas ferramentas possuem limites e não necessariamente controlam pagamentos realizados por sistemas externos às lojas de aplicativos. Por isso, também é recomendável utilizar uma conta infantil supervisionada, verificar assinaturas ativas e conversar com a criança sobre a diferença entre recompensas virtuais e gastos reais. Se já houver cobranças, a prioridade é impedir novas transações, reunir os registros e solicitar a revisão dos valores.




