Quem passou a infância nos anos 1980 e 1990 lembra das tardes inteiras na rua, do telefone fixo e da espera pela semana inteira até o desenho favorito. Para a psicologia, essa rotina sem celular não era só nostalgia. Brincar sem supervisão, se entediar e resolver conflitos cara a cara treinava habilidades que hoje ganham menos espaço no dia a dia das crianças.
Quais habilidades a infância sem celular ajudou a desenvolver?
São sete competências ligadas à autonomia e às habilidades socioemocionais, aquelas que ajudam a lidar com emoções, pessoas e problemas. Elas aparecem com frequência nas pesquisas da psicologia sobre brincadeira livre e tempo ocioso nos primeiros anos de vida.
A lista abaixo reúne o que a geração millennial praticou sem perceber. Nenhuma dessas capacidades depende de época, mas todas pedem tempo livre e alguma margem para errar.
- Tolerar o tédio: esperar sem estímulo constante e transformar o vazio em ideia.
- Criatividade: inventar brincadeiras com o que havia por perto.
- Resolver problemas sozinho: achar o caminho de casa, consertar a bicicleta, negociar a vez no jogo.
- Avaliar riscos: subir na árvore e calcular até onde dava para ir.
- Convivência cara a cara: ler expressões, combinar regras e fazer as pazes sem mediação adulta.
- Paciência: esperar a foto ser revelada, a carta chegar, a música tocar no rádio.
- Senso de competência: sentir-se capaz e confiável ao cumprir pequenas tarefas.
O tédio, por exemplo, tem respaldo experimental. Em dois experimentos publicados no periódico Creativity Research Journal, pesquisadoras da Universidade de Central Lancashire, no Reino Unido, mostraram que voluntários submetidos a tarefas monótonas foram mais criativos logo depois. As autoras apontam o devaneio como possível explicação.

O que a psicologia diz sobre brincar sem supervisão adulta?
A psicologia associa a perda de autonomia na infância a mais sofrimento emocional entre jovens. Essa é a tese de uma revisão de Peter Gray, David Lancy e David Bjorklund publicada no periódico The Journal of Pediatrics em 2023.
Os autores reuniram evidências de que as oportunidades de brincar, explorar e agir sem adultos por perto encolheram ao longo de décadas. No mesmo período, cresceram os índices de ansiedade, depressão e suicídio entre crianças e adolescentes.
Segundo os pesquisadores, a brincadeira arriscada, como subir em árvores, ajuda a reduzir medos e constrói confiança para lidar com emergências. Participar da vida da família e da comunidade também mostra à criança que ela é capaz. A ressalva importa: boa parte dos dados é correlacional, ou seja, indica associação e não prova uma causa única.
A mesma revisão ajuda a entender por que gerações ainda mais antigas tiveram mais liberdade nas ruas. O tema é aprofundado nesta reportagem do CB Radar.
Como as telas mudam o tempo livre das crianças de hoje?
As telas ocupam boa parte do tempo que antes ficava vago, e isso muda o tipo de experiência disponível. A tecnologia não é vilã por definição, mas o uso excessivo disputa espaço com brincadeira, sono e convivência presencial.

O guia Crianças, adolescentes e telas, da Secretaria de Comunicação Social da Presidência, lembra que o tempo de tela é só uma parte do bem-estar digital. O documento cita riscos como uso excessivo, conteúdo inadequado para a idade e violência, com orientações separadas para famílias, escolas e plataformas.
A Sociedade Brasileira de Pediatria acompanha o tema desde 2016, quando lançou um manual sobre a saúde de crianças e adolescentes na era digital. Para pais em dúvida sobre limites, a entidade também produziu um material curto e didático.
No vídeo abaixo, a personagem animada VeVê apresenta dicas para um uso mais saudável de computadores, tablets, celulares e televisão. O conteúdo foi lançado pela própria SBP, com apoio do grupo de trabalho sobre saúde na era digital.
Como resgatar essas habilidades sem abrir mão da tecnologia?
Dá para estimular essas habilidades socioemocionais oferecendo às crianças tempo livre de verdade, sem agenda e sem tela, de forma gradual e adequada à idade. Pequenas tarefas, trajetos conhecidos e brincadeiras com outras crianças funcionam como o treino que a infância dos millennials oferecia sem planejamento.
Também ajuda rever o próprio uso do celular, porque os pequenos observam o comportamento dos adultos. Se a criança mostrar sinais persistentes de ansiedade ou isolamento, procure um pediatra ou um psicólogo. E, se você cresceu nessa época, que tal contar aos filhos ou sobrinhos como era a vida sem telas e inventar com eles uma tarde de brincadeira à moda antiga?
Se o assunto é emoção e marcas deixadas pela infância, outra leitura do CB Radar pode interessar.




