A relação entre Alzheimer e o relógio biológico do cérebro tem ganhado destaque em pesquisas recentes. Especialistas observam que muitas pessoas com a doença apresentam mudanças marcantes no sono e nos horários em que ficam mais atentas ou confusas, o que sugere que o ritmo circadiano pode ter papel direto tanto no aparecimento quanto na piora dos sintomas, influenciando desde o comportamento diário até processos celulares profundos.
Como o ritmo circadiano se relaciona com o Alzheimer
O ritmo circadiano funciona como um sistema de sincronização que organiza diversas funções do organismo em ciclos de aproximadamente 24 horas, incluindo sono, liberação hormonal e parte da resposta imunológica. Ele também coordena o funcionamento de muitos genes ligados à proteção neuronal e à reparação celular, impactando diretamente a saúde do cérebro ao longo da vida.
Na doença de Alzheimer, esse equilíbrio tende a se romper. Estudos em modelos animais e em humanos indicam que a presença de placas de amiloide altera o padrão de ativação de centenas de genes, incluindo muitos associados ao relógio biológico, fazendo com que passem a funcionar de forma desorganizada e em horários irregulares, o que pode antecipar ou agravar déficits cognitivos, como trouxe o estudo “A glial circadian gene expression atlas reveals cell-type and disease-specific reprogramming in response to amyloid pathology or aging”.
Como a alteração do ritmo circadiano afeta processos de limpeza e inflamação
Essa desregulação não significa que as funções circadianas sejam totalmente interrompidas, mas que perdem coordenação e previsibilidade entre diferentes regiões cerebrais. Quando isso ocorre em larga escala, processos importantes, como a limpeza de resíduos pelo sistema glinfático, o controle de inflamação e a manutenção das conexões entre neurônios, tornam-se menos eficientes e mais vulneráveis a falhas.
Assim, a alteração do ritmo circadiano pode não ser apenas consequência dos danos cerebrais, mas também um fator que contribui para acelerar o avanço do Alzheimer. Essa desorganização amplia a perda de memória, a confusão mental e a dificuldade de orientação no tempo e no espaço, alimentando um ciclo em que o cérebro perde progressivamente sua capacidade de se autorregular.
Como o relógio interno modifica o funcionamento de microglia e astrócitos
O relógio biológico não atua em um único ponto, mas está distribuído em diferentes tipos de células ao longo do cérebro e do corpo. Entre elas, destacam-se duas populações fundamentais para o funcionamento cerebral: microglia e astrócitos, que regulam defesa imunológica, suporte metabólico e comunicação entre neurônios, além de responderem a sinais de luz, hormônios e inflamação.
Pesquisas recentes mostraram que, em cérebros com acúmulo de amiloide, o ritmo diário de atividade de muitos genes nessas células muda de forma profunda. Genes que seguiam um ciclo claro de 24 horas passam a ter padrão caótico, enquanto outros, antes estáveis, começam a apresentar uma variação rítmica inesperada, principalmente ligada a processos de inflamação e resposta ao estresse oxidativo, o que favorece dano neuronal persistente.
Para aprofundarmos no tema, trouxemos o vídeo do Dr. Raphael Teixeira (@gpsdoalzheimer):
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♬ som original – Dr Raphael Teixeira | Neuro
Como a perda de sincronia prejudica a remoção de amiloide
Essas mudanças têm implicações diretas para a saúde cerebral e para a progressão do Alzheimer. Parte dos genes afetados participa da remoção do amiloide e de outras proteínas potencialmente tóxicas, processos que costumam ser mais ativos durante determinados períodos do dia e da noite, em sincronia com o sono profundo e o repouso neural mais intenso.
Quando o tempo de ativação desses genes se perde, a remoção de resíduos pode ficar desalinhada com os momentos em que o cérebro estaria mais preparado para “faxinas” internas. Como resultado, a acumulação de proteínas alteradas tende a aumentar, alimentando um ciclo em que o dano ao tecido cerebral se agrava ao mesmo tempo em que o relógio biológico se desorganiza ainda mais, reduzindo a capacidade de reparo neuronal.
Como a regulação do sono e do relógio biológico pode ajudar no Alzheimer
Diante dessas evidências, pesquisadores consideram que modular o ritmo circadiano pode se tornar uma estratégia complementar no cuidado e, futuramente, no tratamento do Alzheimer. A ideia é não apenas melhorar o sono, mas tentar restaurar a coordenação interna entre diferentes grupos de genes e células do cérebro, especialmente microglia e astrócitos, para reduzir inflamação, estresse oxidativo e acúmulo de proteínas tóxicas ao longo do tempo.
Entre os caminhos estudados, aparecem tanto abordagens comportamentais quanto farmacológicas. Medidas simples, como horários consistentes de exposição à luz natural, rotina regular de alimentação e redução de luz intensa à noite, são avaliadas como formas de reforçar o relógio interno, em paralelo a moléculas em estudo que atuam diretamente em componentes do mecanismo circadiano, como receptores de melatonina e genes relógio.
Quais estratégias práticas podem organizar o ritmo biológico no Alzheimer
Essas intervenções são pensadas para se integrar ao cuidado diário de pacientes e cuidadores, valorizando a rotina estruturada e a previsibilidade ambiental. Abaixo, alguns pontos práticos que podem contribuir para organizar o ritmo biológico e aliviar sintomas comportamentais relacionados ao Alzheimer, como agitação, inversão do sono e o chamado “entardecer difícil”.
- Estabilização do sono: manter um padrão previsível de sono e vigília pode reduzir episódios de agitação noturna e confusão ao entardecer.
- Sincronização com a luz: a luz diurna é um dos principais sinais externos para o relógio biológico, ajudando a alinhar os ciclos internos e a favorecer a vigília durante o dia.
- Rotina consistente: horários regulares de refeições, atividades e descanso contribuem para organizar os ritmos corporais e dar segurança ao paciente.

Quais são os próximos passos na pesquisa sobre relógio interno e Alzheimer
Ainda não há respostas definitivas sobre quais intervenções terão maior impacto clínico, mas os dados indicam que ignorar o fator circadiano significa deixar de lado uma peça importante no quebra-cabeça do Alzheimer. À medida que novas pesquisas detalham quais genes e células são mais sensíveis ao relógio biológico, abre-se espaço para terapias mais direcionadas, que busquem não apenas tratar sintomas, mas também atuar nas engrenagens internas que ajudam a manter o cérebro em equilíbrio.
- Identificar quais componentes do relógio biológico estão mais alterados na doença.
- Testar formas seguras de reforçar ou ajustar esses mecanismos em modelos experimentais.
- Avaliar se intervenções no ritmo circadiano reduzem acúmulo de amiloide e inflamação.
- Traduzir os achados para estratégias práticas de cuidado em seres humanos, integrando sono, luz e rotina diária.
Com esse foco, o estudo do relógio interno do cérebro deixa de ser apenas um tema de curiosidade científica e passa a integrar uma agenda mais ampla de combate ao Alzheimer, em que sono, horários biológicos e saúde cerebral caminham lado a lado, orientando novas formas de prevenção e cuidado ao longo do envelhecimento.








