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“A beleza não é uma qualidade das coisas em si mesmas”: a reflexão de David Hume sobre por que duas pessoas podem enxergar beleza de maneiras completamente diferentes

Por Daniely Cardoso
05/11/2026
Em Curiosidades
Para Hume, a beleza não funciona como uma característica física que pode ser identificada da mesma maneira por todas as pessoas

Para Hume, a beleza não funciona como uma característica física que pode ser identificada da mesma maneira por todas as pessoas

Duas pessoas podem observar a mesma pintura, ouvir a mesma música ou contemplar a mesma paisagem e chegar a conclusões completamente diferentes sobre sua beleza. O filósofo escocês David Hume examinou essa diferença no ensaio Do Padrão do Gosto, de 1757, ao afirmar que “A beleza não é uma qualidade das coisas em si mesmas”, mas está relacionada à percepção de quem observa.

O que David Hume quis dizer ao afirmar que a beleza não está nas coisas?

Para Hume, a beleza não funciona como uma característica física que pode ser identificada da mesma maneira por todas as pessoas. Uma obra possui cores, formas, proporções e outros elementos observáveis, mas a experiência de considerá-la bonita depende da reação de quem a contempla. O sentimento estético surge da relação entre o objeto e a mente humana.

A frase aparece no ensaio Do Padrão do Gosto, disponível no acervo David Hume Texts Online. No trecho, o filósofo argumenta que uma pessoa pode encontrar beleza onde outra percebe algo desagradável. Isso acontece porque os sentimentos estéticos não são idênticos a afirmações factuais, como determinar o tamanho ou o peso de um objeto.

Nenhuma dessas reações precisa ser fingida ou necessariamente equivocada, pois o gosto pessoal envolve a maneira como cada indivíduo responde ao que percebe.

Por que duas pessoas podem enxergar a mesma obra de maneiras diferentes?

As experiências anteriores influenciam aquilo que chama nossa atenção. Uma pessoa acostumada à música clássica pode apreciar determinados detalhes de uma composição, enquanto outra prefere estilos com ritmos e estruturas diferentes. Nenhuma dessas reações precisa ser fingida ou necessariamente equivocada, pois o gosto pessoal envolve a maneira como cada indivíduo responde ao que percebe.

Hume observa que diferenças de gosto existem até entre pessoas criadas em ambientes semelhantes. Quando comparamos culturas e períodos históricos distintos, essas divergências podem se tornar ainda mais evidentes. A educação, os costumes e a familiaridade com determinadas manifestações artísticas ajudam a explicar por que algo considerado belo em um contexto pode despertar pouco interesse em outro.

O filósofo acreditava que qualquer opinião sobre arte tem o mesmo valor?

Apesar de reconhecer a diversidade dos gostos, Hume não conclui que todas as avaliações artísticas possuem necessariamente a mesma qualidade. Ao longo do ensaio, ele procura compreender por que algumas obras continuam recebendo admiração durante séculos, enquanto outras perdem rapidamente seu reconhecimento. Essa questão leva à ideia de que o julgamento estético pode ser aprimorado pela experiência.

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Segundo a Enciclopédia de Filosofia de Stanford, Hume considera a prática, a comparação e a sensibilidade refinada fatores importantes para avaliar obras artísticas. Uma pessoa que conhece diferentes estilos e observa detalhes com atenção pode desenvolver critérios mais consistentes. Isso não transforma a beleza em uma propriedade inteiramente objetiva, mas permite distinguir uma preferência imediata de uma avaliação fundamentada.

Como a experiência pode transformar aquilo que consideramos bonito?

Uma obra que parece confusa no primeiro contato pode despertar interesse depois que conhecemos seu contexto ou percebemos detalhes antes ignorados. Hume argumenta que a familiaridade com determinada forma de arte pode desenvolver a capacidade de identificar suas características. Assim, o gosto não precisa permanecer fixo durante toda a vida.

Algumas situações ajudam a compreender como essa transformação acontece:

  • Na música: ouvir diferentes estilos pode ampliar a percepção de ritmos, harmonias e composições.
  • Na pintura: conhecer técnicas e movimentos artísticos pode revelar detalhes inicialmente despercebidos.
  • Na arquitetura: compreender a proposta de um edifício pode modificar a avaliação de suas formas.
  • Na literatura: reler uma obra em outra fase da vida pode produzir interpretações diferentes.
  • Na fotografia: observar iluminação, enquadramento e composição pode ampliar a apreciação de uma imagem.
Apesar de reconhecer a diversidade dos gostos, Hume não conclui que todas as avaliações artísticas possuem necessariamente a mesma qualidade.

O que diferencia uma preferência pessoal de uma avaliação cuidadosa?

Uma preferência pessoal pode surgir imediatamente, sem exigir explicações elaboradas. Alguém pode simplesmente gostar de determinada cor, música ou decoração. Já uma avaliação estética mais cuidadosa procura considerar aspectos como execução, coerência, originalidade e relação entre as partes da obra. Para Hume, a comparação entre diferentes experiências ajuda a desenvolver essa capacidade.

O filósofo também considera necessário reduzir a influência dos preconceitos sobre o julgamento. Quem rejeita uma obra apenas por desconhecer sua cultura ou seu estilo pode deixar de perceber qualidades importantes. No texto original, preservado na coleção histórica da Universidade Fordham, Hume associa o bom julgamento à sensibilidade, à prática, à comparação e à ausência de preconceitos indevidos.

Por que compreender diferentes gostos pode melhorar a convivência?

A reflexão de Hume ajuda a perceber que discordar sobre beleza não significa necessariamente que alguém esteja errado ou tenha menos sensibilidade. Em conversas sobre roupas, decoração, filmes ou obras de arte, duas pessoas podem reagir de maneiras distintas porque observam aspectos diferentes do mesmo objeto. Reconhecer essa possibilidade favorece uma discussão menos impositiva, na qual cada pessoa consegue explicar suas impressões.

Isso não exige abandonar argumentos ou aceitar todas as críticas sem questionamento. É possível defender uma interpretação, apresentar razões e ouvir avaliações diferentes sem transformar o gosto pessoal em uma regra obrigatória. A distinção entre sentimento e julgamento permite conversar sobre arte com mais atenção, reconhecendo tanto a diversidade das experiências quanto a importância do conhecimento.

Tags: artecomportamentoCulturafilosofia
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