Aprender a esconder sentimentos pode começar muito cedo. Quando uma criança percebe que chorar incomoda, demonstrar raiva recebe críticas ou falar sobre medo é tratado como exagero, ela pode passar a controlar suas expressões emocionais para evitar rejeição. Com o tempo, esse comportamento pode parecer natural, mas também dificultar o reconhecimento das próprias necessidades e a comunicação afetiva nas relações.
Por que algumas crianças aprendem a esconder aquilo que sentem?
A criança desenvolve sua relação com as emoções também a partir das respostas que recebe dos adultos. Quando determinadas manifestações são constantemente ignoradas, criticadas ou desencorajadas, ela pode concluir que algumas emoções não devem ser demonstradas. A repetição dessas experiências favorece estratégias de contenção emocional, principalmente quando expressar sentimentos parece trazer consequências desagradáveis.
Isso não significa que toda criança submetida a cobranças emocionais desenvolverá dificuldades na vida adulta. O ambiente familiar é apenas um dos fatores envolvidos nesse processo. Ainda assim, mensagens repetidas como “pare de chorar” ou “não fique com raiva” podem ensinar que controlar a expressão é mais seguro do que comunicar aquilo que está acontecendo internamente.

Que papel os adultos desempenham na aprendizagem da repressão emocional?
As interações familiares oferecem oportunidades constantes para a criança aprender o que fazer diante de tristeza, medo, frustração e raiva. Respostas acolhedoras podem ajudá-la a identificar sentimentos e buscar estratégias adequadas, enquanto reações negativas ou ausência de diálogo podem limitar essas possibilidades. A forma de responder à emoção também transmite uma mensagem sobre seu valor.
Pesquisas da American Psychological Association mostram que comportamentos parentais relacionados às emoções participam do desenvolvimento da autorregulação infantil. A literatura reunida pela instituição destaca que reações dos cuidadores, expressão emocional e conversas sobre sentimentos estão entre os processos envolvidos na aprendizagem emocional durante o desenvolvimento.
Por que esconder sentimentos na infância pode continuar na vida adulta?
Estratégias aprendidas durante o desenvolvimento podem se tornar respostas automáticas diante de situações emocionalmente difíceis. Uma criança que percebeu que demonstrar sofrimento não produzia acolhimento pode passar a silenciar suas necessidades. Na idade adulta, essa adaptação pode aparecer como autocontrole excessivo, dificuldade de vulnerabilidade ou tendência a minimizar aquilo que sente.
Isso pode afetar relacionamentos, trabalho e até a percepção das próprias necessidades. A pessoa pode dizer que está tudo bem enquanto enfrenta sobrecarga, evitar pedir ajuda ou ter dificuldade para explicar o motivo de determinado desconforto. O padrão não significa falta de sentimentos; muitas vezes, significa que expressá-los foi aprendido como algo arriscado ou inconveniente.
Veja a seguir um vídeo do YouTube de Papo com Anahy D’Amico sobre como o trauma infantil pode impactar a vida adulta e o caminho para a superação:
Quais sinais podem indicar que a repressão emocional foi aprendida na infância?
A repressão emocional nem sempre aparece como silêncio absoluto. Algumas pessoas demonstram grande controle diante de situações difíceis, mas encontram dificuldade para identificar o que sentem ou pedir apoio. Outras conseguem falar sobre problemas práticos, porém evitam revelar vulnerabilidade. Esses padrões podem surgir de diferentes experiências e não permitem, isoladamente, concluir que houve repressão emocional na infância.
Alguns comportamentos podem aparecer nesse contexto:
O que pode ajudar a construir uma relação mais aberta com as próprias emoções?
Reconhecer esse padrão pode ser um primeiro passo para modificar a maneira de lidar com os sentimentos. Em vez de exigir uma expressão emocional imediata, é possível começar identificando sensações, pensamentos e necessidades presentes em situações específicas. Dar nome ao que acontece internamente pode tornar a experiência menos confusa e facilitar formas mais adequadas de comunicação.
Na prática, também pode ajudar observar frases internas como “não deveria estar sentindo isso” ou “preciso controlar tudo”. Questionar essas ideias permite separar emoções de comportamentos: sentir raiva não exige agir agressivamente, assim como sentir tristeza não significa incapacidade. Essa diferenciação oferece mais liberdade para reconhecer sentimentos e escolher respostas compatíveis com cada situação.




