Há quase cinco séculos, o extremo sul do litoral paulista já recebia navegadores, colonizadores e personagens ligados aos primeiros capítulos da história brasileira. Cananéia, a aproximadamente 270 km de São Paulo, guarda vestígios desse passado entre casarões coloniais, ruas de paralelepípedos, manguezais e ilhas preservadas. Foi ali que Martim Afonso de Sousa teria desembarcado em 12 de agosto de 1531, antes mesmo da fundação oficial de São Vicente.
Cananéia pode ser mais antiga que São Vicente?
A resposta depende da interpretação dos registros históricos. Segundo o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), Cananéia e Iguape foram organizadas por determinação da Coroa Portuguesa como pontos de administração e proteção do território. Historiadores portugueses e espanhóis defendem que Cananéia poderia ser o primeiro povoado brasileiro, estabelecido cinco meses antes de São Vicente, mas a falta de documentação oficial suficiente impede que essa primazia seja reconhecida de forma definitiva.
Quem percorre o centro histórico ainda encontra sinais concretos dessa longa trajetória. As ruas de paralelepípedos e os casarões construídos entre os séculos XVI e XIX foram preservados e tombados pelo CONDEPHAAT em 1969. Entre os principais marcos está a Igreja Matriz de São João Batista, erguida em 1577, com paredes espessas e poucas aberturas, características associadas à proteção contra ataques. Próximos à orla, os antigos argolões de bronze usados para prender embarcações também permanecem como lembrança da presença de navegadores na região.

Ilha do Cardoso: o parque estadual preservado por 90% de Mata Atlântica
A 40 minutos de barco do centro, a Ilha do Cardoso abriga o Parque Estadual da Ilha do Cardoso, criado em 1962 pela Fundação Florestal do Estado de São Paulo. São mais de 13 mil hectares de área preservada, com 90% cobertos por Mata Atlântica intocada e 986 espécies de plantas catalogadas, entre elas 147 espécies de orquídeas.
A ilha não tem carros nem energia elétrica estabilizada, apenas geradores e placas solares que funcionam por algumas horas. Sete comunidades caiçaras vivem no território e sustentam o turismo de base comunitária, com pousadas, restaurantes e guias locais. A região é reconhecida pela UNESCO como Patrimônio Natural da Humanidade e Reserva da Biosfera, dentro do Complexo Estuarino-Lagunar de Iguape, Cananéia e Paranaguá.
O que fazer em Cananéia
A cidade combina roteiro histórico curto no centro com passeios de barco que podem durar o dia inteiro. As atrações naturais ficam quase todas em ilhas, o que exige planejamento por travessia.
- Centro Histórico: Praça Martim Afonso de Sousa, casarões coloniais coloridos, Rua do Artesão e a Figueira Centenária no coração da cidade.
- Igreja Matriz de São João Batista: templo de 1577 construído com calcário de conchas e óleo de baleia, com flecheiras nas paredes laterais.
- Museu Municipal: acervo sobre a fundação, o Tratado de Tordesilhas e a captura, em 1992, de um tubarão-branco de 5 metros nas águas locais.
- Praia do Pereirinha: primeira parada da Ilha do Cardoso, com águas calmas e mergulhos com golfinhos.
- Praia do Marujá: extensa, com restaurantes rústicos e a comunidade caiçara mais estruturada da ilha.
- Cachoeira Grande: acesso por barco e trilha curta, com queda de 11 metros e poço para banho.
- Baía dos Golfinhos: entre Ilha Comprida, Ilha do Cardoso e Cananéia, com botos-cinza que acompanham os barcos.
- Vila de Ariri: pequena comunidade na divisa com o Paraná, próxima ao Parque Nacional do Superagui.
Como é o clima em Cananéia
A cidade tem clima subtropical úmido, com chuvas distribuídas o ano todo e verão mais quente. Julho concentra a média mensal de 91 mm, e o inverno costuma ser ameno.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.

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Como chegar em Cananéia
De São Paulo, o acesso é feito pela Rodovia Régis Bittencourt (BR-116) até Pariquera-Açu, com trecho final pela SP-226. São cerca de 270 km em 4 horas de carro. De Curitiba, o percurso pela mesma BR-116 dura aproximadamente 3 horas.
Não existe aeroporto em Cananéia. Quem vem de avião desembarca em Guarulhos ou Congonhas e segue por terra. Dentro do município, o centro histórico é caminhável, e as ilhas exigem barco a partir do píer municipal.
A cidade onde o Brasil colonial começou
Cananéia reúne em um só destino centro histórico do século XVI, o parque estadual mais preservado do litoral paulista e comunidades caiçaras que ainda vivem da pesca e da maricultura. É um pedaço do Vale do Ribeira que sobreviveu ao turismo de massa.
Você precisa cruzar de barco até a Ilha do Cardoso, caminhar pelas ruas de pedra do centro e entender por que essa cidade quase esquecida guarda o primeiro capítulo da história do Brasil.




