Em 1992, o Congresso dos Estados Unidos aprovou uma lei com um objetivo que parecia grande demais para um texto legal: devolver um rio inteiro ao estado em que corria antes de 1913. O alvo eram duas barragens hidrelétricas no rio Elwha, na península Olímpica, no estado de Washington. Elas produziam energia havia quase um século e, no mesmo período, seguravam areia, cascalho e os salmões que tentavam subir para desovar.
O caso do rio Elwha, com as barragens removidas entre 2011 e 2014, virou a maior demolição de barragens já feita no país, segundo o National Park Service. O que veio depois surpreende: ninguém precisou reconstruir a praia da foz nem levar peixe de caminhão rio acima. O rio cuidou disso em anos, não em décadas.
Este texto conta o que a lei mandou fazer, o que os cientistas do USGS mediram no sedimento e nos peixes e por que o caso interessa a um país com mais de 28 mil barragens cadastradas.
Por que o Congresso dos EUA mandou derrubar duas usinas que funcionavam?
Porque as usinas eram pequenas e o prejuízo, grande. A barragem Elwha, de 32 metros de altura, ficou pronta em 1913; a de Glines Canyon, com 64 metros, em 1927, de acordo com o USGS. Nenhuma das duas tinha escada de peixes.
O resultado foi um rio cortado a poucos quilômetros do mar. Segundo a NOAA Fisheries, a agência americana de pesca, as duas estruturas bloqueavam o acesso dos peixes migratórios a mais de 90% da bacia, num rio que nasce dentro do Parque Nacional Olímpico. Salmão chinook, coho, truta steelhead e lampreia ficaram confinados ao trecho baixo. A tribo Lower Elwha Klallam, que vive na foz e dependia dessa pesca, passou décadas pressionando o governo federal até que o Congresso aprovou, em 1992, a Elwha River Ecosystem and Fisheries Restoration Act, a Lei Pública 102-495.
O que diz a lei de 1992 sobre a restauração do rio Elwha?

A lei não mandou demolir na primeira linha. Ela deu ao secretário do Interior o poder de comprar as usinas e decidir o destino delas.
A seção 3 da lei autoriza a aquisição dos dois projetos hidrelétricos e determina que, se o secretário concluir que a remoção das barragens é necessária para a “full restoration of the Elwha River ecosystem and native anadromous fisheries” (a restauração completa do ecossistema do rio Elwha e das espécies migratórias nativas), ele deve seguir por esse caminho. O preço de compra foi fixado em US$ 29,5 milhões, conforme o texto legal reproduzido pelo National Park Service, que administra o parque onde o rio corre. A compra só foi concluída em fevereiro de 2000, e a demolição veio depois de estudos que descartaram qualquer outra alternativa.
Como funciona a remoção de uma barragem de 64 metros sem inundar quem mora abaixo?
Devagar, e por camadas.
A demolição começou em 17 de setembro de 2011, com a barragem Elwha. Seis meses depois ela não existia mais, segundo o National Park Service. A de Glines Canyon, bem mais alta, foi rebaixada aos poucos, com pausas para que o rio levasse o sedimento em doses que a cidade de Port Angeles, na foz, pudesse aguentar. A última explosão aconteceu no verão de 2014.
Quanto sedimento estava preso e para onde ele foi?
O número central do caso, medido pelo USGS, é este: cerca de 21 milhões de metros cúbicos de sedimento acumulados atrás das duas barragens, o equivalente a uns 30 milhões de toneladas. Aproximadamente dois terços desse volume desceram o rio durante a remoção.
O programa de ciência do USGS que acompanhou a restauração compara o volume liberado a quase 2 milhões de caçambas de caminhão. Só nos dois primeiros anos da demolição, cerca de 2,5 milhões de metros cúbicos se depositaram na zona costeira, num raio de 2 quilômetros da foz, taxa cem vezes maior do que a medida antes da obra, de acordo com o estudo de geomorfologia costeira do mesmo órgão.
Como a praia se reconstruiu sozinha?
A expectativa era que um rio bloqueado por 98 anos levaria gerações para se recompor. As medições dizem outra coisa.
O delta da foz, que vinha encolhendo por falta de sedimento, avançou mais de 400 metros mar adentro e o estuário ganhou mais de um metro de sedimentação, segundo o levantamento do USGS sobre a resposta do habitat costeiro. Uma praia que a cidade via desaparecer voltou a existir sem uma pá de areia trazida de fora. Os peixes seguiram o mesmo ritmo:
- Oito espécies migratórias: chinook, coho, sockeye, rosa, chum, steelhead de inverno e de verão, lampreia e truta bull trout foram vistas acima dos antigos paredões em até dois anos e meio depois da conclusão da obra, segundo pesquisa do USGS publicada na revista Frontiers in Ecology and Evolution em 2021.
- 50 e 60 quilômetros: foi quanto o salmão chinook adulto e a steelhead de verão ampliaram a área que ocupam no rio, de acordo com o mesmo estudo, que contou mais de 54 mil peixes em censos de mergulho.
- Mais de 100 steelheads de verão: apareceram no alto rio, onde a espécie era considerada praticamente perdida, conforme a pesquisa citada.
Em 2016, 24 anos depois da lei, o projeto já era finalista do Thiess International Riverprize, e os pesquisadores do USGS relatavam carcaças de chinook em trechos que nenhum salmão alcançava desde 1913. A NOAA lembra, porém, que a recuperação plena ainda vai levar décadas: em 2023, o chinook ainda estava na fase de preservação, enquanto a steelhead já havia passado à fase de recolonização. É o mesmo tipo de paciência que aparece na história da lontra que reapareceu num parque argentino depois de 40 anos.
Onde o Brasil entra numa história de salmão do Pacífico?
No tamanho do parque de barragens e na lei que passou a tratar do fim da vida útil dessas estruturas.
O Relatório de Segurança de Barragens 2024/2025, divulgado pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico em julho de 2025, contabiliza 28.085 barragens cadastradas no país, das quais 241 foram classificadas como prioritárias para gestão de segurança em 23 estados e no Distrito Federal. A base legal é a Lei 12.334/2010, a Política Nacional de Segurança de Barragens, que, depois da redação dada pela Lei 14.066/2020, inclui entre seus objetivos regulamentar a segurança nas fases de “operação, desativação, descaracterização e usos futuros de barragens” (art. 3º, II). Ou seja, a lei brasileira já reconhece que barragem tem começo, meio e fim. Aqui, a fauna aquática também reage a intervenções humanas, como mostrou o peixe-boi Astro, cujo atropelamento mudou regras de navegação.
O que convém lembrar sobre o rio Elwha e as barragens removidas?
Remoção de barragem não é obra de um dia: leva anos, com o rio soltando sedimento em doses controladas. Ao ler qualquer versão dessa história, procure quem mediu (USGS, National Park Service, NOAA) antes de acreditar em prazos milagrosos. No Brasil, a Lei 12.334/2010 já prevê a fase de desativação, e o relatório anual da ANA é público; quem mora abaixo de uma barragem pode consultar a classificação dela no Sistema Nacional de Informações sobre Segurança de Barragens e cobrar o plano de segurança do empreendedor.
O conteúdo desta página tem caráter informativo e reúne dados publicados por órgãos oficiais dos Estados Unidos e do Brasil até a data de redação. Projetos de remoção ou desativação de barragens dependem de estudos técnicos, licenciamento ambiental e decisão das autoridades competentes de cada país.




