Um aparelho de porcelana Schmidt de 71 peças, de 1990 segundo o anúncio, com serviço de jantar, bule de chá e xícaras de café e de cafezinho, aparece anunciado por R$ 14.390 no Enjoei, conforme a vitrine checada pela reportagem em 9/10/2026. Quem anuncia indica R$ 18.000 como valor cheio; o valor menor é o que a vitrine mostra com desconto. Na mesma plataforma e no mesmo dia, uma xícara de chá avulsa da marca, floral e com uma pequena avaria na borda, pede R$ 30. Os dois números são preços pedidos, não valores de venda.
O contraste chama atenção porque a Schmidt foi louça de massa no Brasil. Segundo o NSC Total, a empresa chegou a deter metade do mercado brasileiro de porcelanas finas de mesa; o ND Mais, citando o Arquivo Histórico de Blumenau, registra que nos anos 1960 ela era líder absoluta do mercado nacional de porcelana. Por isso o aparelho de jantar Schmidt antigo é figura frequente nos sites de usados: no Enjoei, a busca por schmidt porcelana somava 2.516 anúncios em 9 de outubro, e a busca por aparelho de jantar schmidt, outros 33.

Os anúncios de porcelana Schmidt em 9 de outubro
A lista reúne pedidos vistos no Enjoei naquela sexta-feira, 9/10, todos de anúncios publicados. Quando a vitrine mostra desconto, o preço cheio vai entre parênteses.
- Aparelho de jantar, chá e café de 71 peças, “ano 1990” segundo o vendedor, marcado como sem uso: R$ 14.390 (cheio R$ 18.000). Acompanha sopeira, 2 tigelas, 3 travessas, 12 pratos rasos, 12 fundos, 12 de sobremesa, bules de café e de chá, leiteira, açucareiro, manteigueira e 24 xícaras com pires. A loja não informa a cidade.
- Jogo de chá e café para 6 pessoas, feito em Pomerode na década de 1960, floral com dourado, usado: R$ 3.207 (cheio R$ 4.300), em Florianópolis (SC).
- Jogo de chá, café e bolo dos anos 70, floral azul, 28 peças, com pequena avaria no açucareiro: R$ 3.178, em São Paulo (SP).
- Aparelho de jantar usado de 102 peças: R$ 2.465 (cheio R$ 3.500), em Brasília (DF).
- Aparelho de chá de 32 peças dos anos 80, nunca usado, que a anunciante diz ter comprado na Mesbla: R$ 850, cidade não informada.
- Xícara de chá avulsa, floral, com pequena avaria na borda: R$ 30, em São Paulo (SP).
- Pires de chá avulso, branco com laranja: R$ 12 (cheio R$ 23), em Guarulhos (SP).
O anúncio de 71 peças pode ser conferido na página do aparelho completo no Enjoei, com a lista de peças escrita pelo vendedor. Fora da comparação fica um conjunto de 24 peças da coleção O prato nosso de cada dia, com decoração de David Dalmau, pedido a R$ 11.174 em Curitiba (PR): é edição de coleção, não a louça comum. O desenho repete o que apareceu com o conjunto âmbar de 49 peças da Duralex anunciado por R$ 21 mil: o jogo inteiro pede muito, a peça solta pede pouco.
Do galpão de madeira em Pomerode às bodas de prata
A Schmidt foi fundada em 1945 por Erwin Schmidt, formado em engenharia ceramista na Alemanha, segundo o NSC Total. A primeira fábrica funcionava num galpão de madeira em Pomerode (SC), com fornos do tipo garrafão, como conta a reportagem do ND Mais sobre a origem da Porcelana Schmidt. Com a modernização, a casa passou a fazer peças de adorno e aparelhos de café e de jantar, e a maioria delas levava ouro.
Foi nessa louça que muitas famílias montaram enxoval, celebraram bodas de prata e escolheram presente de casamento ao longo do século passado, de acordo com o ND Mais. O mesmo site registra, a partir do Arquivo Histórico de Blumenau, que os moradores da cidade eram os maiores consumidores per capita de porcelana do país, mesmo com metade da produção indo para o mercado paulista.
A expansão veio rápido. Na década de 1950 o grupo já exportava para os Estados Unidos, e em 1956 comprou outra fábrica do ramo e levou a produção para Campo Largo (PR), segundo o NSC Total. O colunista Pedro Machado resumiu a presença da marca no Vale do Itajaí assim: “praticamente todo mundo que nasceu, cresceu e até hoje vive no Vale lembra de ter pelo menos uma peça da marca em casa”.

O que pesa no pedido de um aparelho de jantar Schmidt antigo
Os anúncios do dia mostram o que os próprios vendedores colocam em primeiro plano. O primeiro item é a composição. O aparelho de 71 peças lista tudo, peça por peça, e fecha o serviço para 12 pessoas: 12 pratos rasos, 12 fundos, 12 de sobremesa e as xícaras com pires. Sopeira, tigelas, travessas, bules, leiteira e manteigueira completam o serviço de mesa; num jogo só de chá, como o de 32 peças dos anos 80, elas nem entram na conta.
O segundo é o estado. Palavras como intactas, sem uso e nunca usado aparecem nos pedidos mais altos de cada faixa; a avaria no açucareiro ou na borda da xícara é declarada nos mais baixos. O terceiro é a decoração: floral com dourado nos anos 1960, floral azul nos anos 70, muito detalhe em ouro no jogo de 1990. Coleção assinada, como a de David Dalmau, é outra categoria. Já a história de compra, como a menção à Mesbla, é fala de quem anuncia e não vem com nota fiscal.
Louça de festa só sobrevive inteira em casa que guardou mais do que usou. Muitos desses jogos trocam de mão dentro da própria família, um gesto que o CB Radar já tratou em um texto sobre quem passa a dar a louça e as ferramentas depois dos 70 anos.
A conta das 71 peças
Dividindo o pedido de R$ 14.390 pelas 71 peças, contando cada xícara com seu pires como uma peça, do jeito que o anúncio faz, chega-se a cerca de R$ 202,68 por peça. O aparelho usado de 102 peças anunciado em Brasília sai, pela mesma conta, a uns R$ 24,17 por peça. A diferença por item é de pouco mais de oito vezes.
Outra comparação possível: R$ 14.390 equivalem a quase 480 xícaras avulsas de R$ 30. E o desconto da vitrine, de R$ 18.000 para R$ 14.390, tira R$ 3.610 do pedido, cerca de 20%. São contas nominais entre anúncios do mesmo dia, sem correção pela inflação, porque não foi localizado o preço de lançamento desses aparelhos em cruzeiros.
A fábrica que ficou no Paraná
Em maio de 2020, o NSC Total noticiou que a Schmidt transferiria praticamente toda a produção da fábrica de Pomerode para a matriz em Campo Largo, com desligamento de funcionários da unidade catarinense. Em abril de 2025, a empresa foi homenageada pelos 80 anos na Assembleia Legislativa do Paraná. Na ocasião, segundo o Bem Paraná, fabricava 1,3 milhão de peças de porcelana por mês e tinha mais de 700 colaboradores; o gestor Nelson Luiz Vieira de Morais Lara disse na sessão que, “apesar de não sermos mais os maiores”, a empresa se vê como a melhor.
Em Pomerode, junto à fábrica original, um memorial erguido para os 70 anos de fundação conserva peças antigas que representam diferentes épocas do país, segundo o ND Mais. É lá que a louça de enxoval e de bodas de prata virou peça de acervo.




