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Início Casa e Decoração

Especialistas em controle de pragas repetem que certas plantas aromáticas afastam ratos do quintal, a recomendação circula há décadas, e a literatura científica sobre repelentes vegetais mostra um efeito real mas limitado, que depende de concentração e some ao ar livre

Por João Victor
11/09/2026
Em Casa e Decoração
Mãos plantam mudas de hortelã ao longo do muro dos fundos

Mãos plantam mudas de hortelã ao longo do muro dos fundos. Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial.

Um casal recém-mudado alinha seis mudas de hortelã ao longo do muro dos fundos num sábado de manhã, convencido pelo vizinho de que roedor nenhum atravessa onde a folha perfuma. Não existe casal nenhum, ele foi montado para esta página, mas a conversa por cima do muro acontece em qualquer rua.

A lista de plantas que afastam ratos do quintal muda pouco de uma década para outra: hortelã, alecrim, arruda, capim-limão, de vez em quando lavanda. A promessa também não muda, um cinturão de cheiro que o bicho não cruza. Existe pesquisa medindo repelência de óleo de planta em roedor, com resultado positivo. O que não chega junto é a distância entre o que foi medido e o vaso encostado no muro.

Essa distância tem medida conhecida: dois mililitros de óleo essencial puro, um labirinto fechado e uma reaplicação por semana.

Como nasceu o conselho de plantar hortelã contra rato?

A base do conselho não é folclore puro. Roedores se orientam pelo faro e recuam diante de odor forte e desconhecido, e quem já derrubou um vidro de óleo essencial sabe o quanto aquilo domina um cômodo. O salto acontece quando essa reação de curto prazo vira promessa de perímetro permanente.

Quem trabalha com manejo de pragas costuma dizer o contrário. O Programa Estadual de Manejo Integrado de Pragas da Universidade da Califórnia, o UC IPM, mantém uma ficha técnica sobre ratos, atualizada em junho de 2025, com uma frase que resume décadas de tentativa: “os ratos têm uma aversão inicial a certos odores e sabores, mas nenhum repelente se mostrou capaz de resolver um problema de ratos por mais do que um período muito curto”, em tradução livre. O documento acrescenta que não há repelente de rato registrado com eficácia real no estado, e a ficha está na página de manejo de ratos mantida pela universidade. A mesma lógica do cheiro que forma barreira já apareceu por aqui quando se discutiu o hábito de encostar vasos de tempero na janela para segurar mosquito.

O que o estudo tailandês mediu, exatamente?

Frasco de óleo essencial pinga sobre um pano, ao lado de um ramo de hortelã
Frasco de óleo essencial pinga sobre um pano, ao lado de um ramo de hortelã. Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial.

O trabalho mais citado é de Chulikhit, Maneenet, Monthakantirat, Daodee e Khamphukdee, da Universidade de Khon Kaen, publicado no Chiang Mai University Journal of Natural Sciences, volume 21, número 3, de 2022, artigo e2022049. O título já entrega o que some na tradução para conselho de quintal: os animais eram camundongos, Mus musculus, não ratos de telhado nem ratazanas de esgoto.

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O protocolo foi de laboratório do começo ao fim. Os pesquisadores pulverizaram dois mililitros de óleo essencial puro sobre tecido e puseram o tecido dentro de um labirinto radial fechado e de uma caixa de teste claro e escuro. Entraram na bateria óleo de laranja, de hortelã-pimenta, de capim-limão, de gengibre, de plai, mentol isolado e a mistura de todos. Na medição imediata, a semana zero, todos afastaram os camundongos: o animal demorava mais para entrar no braço tratado e passava menos tempo ali.

Uma semana depois, o quadro se dividiu. Óleo de laranja, capim-limão, gengibre, plai e a mistura seguiram funcionando; hortelã-pimenta e mentol perderam a atividade. A recomendação que fecha o artigo é pulverizar toda semana, o que só faz sentido onde alguém pulveriza.

Por que o efeito some no quintal aberto?

Um labirinto fechado é uma câmara: o vapor do óleo se acumula, não vai a lugar nenhum e o animal não tem caminho que não passe perto. Um quintal é o oposto em todos os detalhes. Tem vento, sol que evapora composto volátil em horas, chuva que lava e rotas alternativas que nenhum canteiro cobre.

Depois vem a dose. Dois mililitros de óleo puro equivalem a uma quantidade de material vegetal que nenhum vaso carrega em folha viva. O óleo da hortelã fica guardado em estruturas glandulares na superfície da folha e sai em traços quando alguém amassa, corta ou pisa. Planta intacta libera uma fração ínfima disso, e libera para o ar livre, não contra a parede de uma caixa.

Há ainda a coincidência incômoda. Hortelã e mentol, os dois nomes que o conselho popular mais repete, foram os que falharam em uma semana, na condição mais favorável que um laboratório consegue montar. O que a hortelã do vaso resolve é o cheiro de quem passa por ela, não o trânsito de quem passa por baixo.

A ponte entre o estudo e o quintal é analogia, e curta. O experimento não testou planta em vaso, não testou Rattus, não testou área externa e não acompanhou infestação real. Mediu comportamento de camundongo diante de óleo concentrado em caixa fechada, e é só isso que autoriza afirmar. Método antirrato que parece óbvio e não sobrevive ao campo tem história longa, como mostra a soltura de mangustos nos canaviais porto-riquenhos no século 19.

O que a orientação oficial brasileira diz sobre repelente vegetal?

Nada. O Manual de Controle de Roedores, do Ministério da Saúde, referência nacional no tema, não traz repelente vegetal entre os métodos, nem em capítulo próprio nem como medida auxiliar. O eixo do documento é a antirratização, tirar do roedor o abrigo, o alimento e a via de acesso, com a desratização por produto registrado depois disso.

A única vez em que o manual fala de planta em jardim, o sentido é o inverso do conselho: ele orienta “evitar uso abundante de plantas espinhosas em jardins”, porque vegetação densa abriga o animal. Por essa lógica, uma fileira compacta de vasos rente ao muro tem mais chance de virar esconderijo do que barreira. A página do Ministério da Saúde sobre prevenção da leptospirose, doença ligada à urina de roedor, repete a mesma lista sem citar planta uma única vez: destino adequado do lixo, armazenamento correto de alimento, vedação de caixa d’água e de frestas em portas e paredes, com raticida aplicado só por técnico capacitado.

Quais medidas tiram o rato do terreno de fato?

São poucas, chatas e antigas, e vêm tanto do manual brasileiro quanto da ficha da Universidade da Califórnia.

  • Fechar frestas: o UC IPM recomenda vedar abertura maior que um quarto de polegada, cerca de seis milímetros, com lã de aço, tela metálica ou chapa, porque o animal rói plástico, espuma, madeira e silicone.
  • Cortar o alimento: ração recolhida à noite, fruta caída varrida, lixo em recipiente com tampa que fecha.
  • Abrir a vegetação: a mesma ficha sugere sessenta centímetros entre um arbusto e outro e entre arbusto e parede, além de retirar trepadeira encostada na construção.
  • Afastar o galho do telhado: ramos a menos de noventa centímetros da cobertura viram ponte para o rato de telhado, que nidifica no alto.
  • Chamar quem tem registro: armadilha de mola resolve caso pequeno, e isca raticida é serviço de empresa especializada.

O que convém lembrar sobre plantas que afastam ratos do quintal?

O que sobra é a ordem dos fatores antes de comprar muda: o que foi medido é óleo concentrado, em tecido, dentro de caixa fechada, com reaplicação semanal, e mesmo assim a hortelã caiu em sete dias. Se aparecer fezes, roído em fio ou barulho no forro, faça a vistoria das frestas com lanterna e régua, tratando como entrada tudo o que passar de seis milímetros. Recolha ração e fruta caída no fim da tarde, quando o terreno vira restaurante. Rareie o canteiro colado ao muro em vez de adensá-lo. E, diante de oferta de dedetização, peça o registro sanitário e o nome do produto antes de autorizar a aplicação.

Uma palavra sobre o alcance destas linhas: elas são informativas e não avaliam terreno nenhum à distância. Sustentam o texto o artigo tailandês citado com autores, periódico, volume e ano, a ficha técnica da Universidade da Califórnia e a orientação nacional de controle de roedores. Infestação já instalada é assunto de empresa licenciada e do serviço de zoonoses do município.

Tags: casa e jardimcontrole de pragasministério da saúderoedores
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