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Capivaras tomaram as margens dos rios nas capitais brasileiras: por que a espécie se multiplicou sem predadores, quantos filhotes uma fêmea gera por ano e o que a Fiocruz diz sobre o carrapato que elas carregam

Por João Victor
05/09/2026
Em Curiosidades
Capivaras à beira do rio em plena cidade

Capivaras à beira do rio em plena cidade. Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial.

Quem atravessa a ponte sobre o rio Pinheiros, em São Paulo, já se acostumou a contar capivaras deitadas no barranco, a poucos metros da ciclovia. A cena se repete no Lago Paranoá, em Brasília, e em parques de dezenas de cidades. O bicho não chegou ali por acidente: encontrou água, grama aparada, ninguém para caçá-lo e nenhum predador para limitar o bando.

Só que a capivara na cidade veio acompanhada de um passageiro pequeno, o carrapato-estrela, e da doença que ele pode transmitir, a febre maculosa. Esse elo entre roedor, carrapato e bactéria põe a espécie em documentos do Ministério da Saúde e da Fiocruz, e explica por que as prefeituras não podem simplesmente carregar os animais para longe.

Por que a capivara virou vizinha de cidade e ninguém a caça?

A cidade oferece de graça água, comida e ausência de inimigos.

Na natureza, a capivara é presa. A ficha da espécie na Embrapa, no levantamento da fauna de Campinas, lista como predadores naturais onças, jacarés e piranhas. Nenhum dos três frequenta o rio Pinheiros ou o lago de um parque municipal. Some a isso a proibição de caça, e o resultado é o que o Ministério da Saúde descreve numa recomendação de dezembro de 2019: alimento, abrigo, ausência de predadores e o potencial reprodutivo do animal favorecem o crescimento exagerado dos bandos. O órgão chama isso de efeito da urbanização, não de invasão.

Quantos filhotes uma fêmea de capivara gera por ano?

Carrapato-estrela na vegetação rasteira
Carrapato-estrela na vegetação rasteira. Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial.

O número que sustenta o crescimento dos bandos é alto para um mamífero desse porte.

Segundo a ficha da Embrapa sobre a capivara, a fêmea atinge a maturidade sexual aos dois anos, a gestação dura de 120 a 140 dias e cada ninhada traz de dois a seis filhotes. A fonte acrescenta que uma fêmea adulta pode ter mais de uma cria por ano. Como os bandos, ainda de acordo com a Embrapa, vão de dois a trinta indivíduos, um grupo pequeno num parque pode dobrar em poucas temporadas quando nada retira animais da conta.

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O que diz o Ministério da Saúde sobre a capivara como hospedeiro amplificador?

Aqui entra o termo que aparece em todo documento oficial sobre o assunto: amplificador.

A recomendação do Ministério da Saúde de 2019, assinada pela Secretaria de Vigilância em Saúde, afirma que a febre maculosa brasileira é causada pela bactéria Rickettsia rickettsii, “sendo a capivara o principal hospedeiro amplificador da bactéria e do vetor Amblyomma sculptum (carrapato estrela)”. Amplificar quer dizer: quando uma capivara sem contato prévio com a bactéria é picada por um carrapato infectado, o micro-organismo circula no sangue dela e outros carrapatos que se alimentam do animal saem infectados. O Instituto Brasília Ambiental, que acompanha os bandos do Lago Paranoá, estima essa fase em cerca de 15 dias; depois o animal cria anticorpos e deixa de amplificar. O problema não é a capivara em si, mas a chegada constante de animais jovens e sem imunidade a um lugar onde a bactéria já circula.

Como funciona o ciclo do carrapato-estrela, da larva ao adulto?

O carrapato-estrela não escolhe: ele espera qualquer animal de sangue quente que passe.

Numa entrevista publicada pelo Instituto Oswaldo Cruz, Elba Lemos, chefe do Laboratório de Hantaviroses e Rickettsioses do IOC/Fiocruz, explica que para que a infecção ocorra, “o carrapato precisa ficar aderido à pele, em média, por quatro horas”. Uma vez infectado, o carrapato permanece assim pela vida inteira, em geral 18 meses. A pesquisadora aponta o período de maio a outubro, a estação seca no Centro-Sul, como a fase de maior cuidado, quando larvas e ninfas (os micuins, quase invisíveis) se aglomeram na vegetação rasteira. A Fiocruz lembra ainda que cachorros e cavalos participam do ciclo como alimento e transporte dos carrapatos. Um detalhe: o texto de 2014 usa o nome Amblyomma cajennense; os documentos recentes do Ministério da Saúde tratam a espécie do Sudeste como Amblyomma sculptum, após revisão taxonômica.

Onde a remoção das capivaras esbarra na Lei 9.605/98?

Tirar as capivaras dali é ilegal sem autorização e, segundo o próprio Ministério da Saúde, ineficaz.

A capivara é fauna silvestre nativa. O artigo 29 da Lei 9.605/98, a Lei de Crimes Ambientais, pune com detenção de seis meses a um ano, e multa, quem mata, persegue, caça, apanha ou utiliza espécimes da fauna silvestre sem permissão, licença ou autorização da autoridade competente; o parágrafo 1º estende a pena a quem impede a procriação da fauna sem licença. Nem capturar, nem transportar, nem esterilizar por conta própria. A recomendação de 2019 vai além: diante de casos de febre maculosa, não é recomendado manejo imediato sem estudo prévio, seja abate, remoção ou manejo reprodutivo, porque o efeito só aparece a longo prazo e não interrompe a transmissão, mesmo em emergência. A interferência malfeita piora a situação: o território vazio é reocupado por animais novos, sem anticorpos, o perfil que amplifica a bactéria. Qualquer intervenção exige comprovar a circulação da bactéria e do carrapato, estudo populacional e plano de manejo autorizado, conforme a Instrução Normativa conjunta ICMBio/Ibama nº 1, de 2014. O abate indiscriminado, diz o documento, é crime ambiental.

O que fazer, então, e o que Campinas e Piracicaba já fazem?

As prefeituras trocaram a remoção pelo controle reprodutivo, com o animal devolvido ao mesmo lugar.

  • Campinas: em 26 de setembro de 2024, a prefeitura iniciou o manejo de cerca de 200 capivaras da Lagoa do Taquaral, do Lago do Café e de outros dois parques, com vasectomia nos machos e salpingectomia nas fêmeas, após autorização da Secretaria Estadual de Meio Ambiente, segundo nota da prefeitura reproduzida pela imprensa local. Os animais são operados num centro montado dentro do parque e soltos no ponto de origem: o bando adulto e imune que fica impede a chegada de grupos novos.
  • Piracicaba: em maio de 2026, a prefeitura publicou edital para contratar empresa especializada no controle populacional das cerca de 50 capivaras do Parque da Rua do Porto, com autorização do Departamento de Fauna do estado, como informou a rádio CBN Campinas. O município registrou três casos de febre maculosa em 2025, todos com morte, segundo dados do Sinan citados na mesma reportagem.

É a lógica que levou o país a rever normas depois que um peixe-boi atropelado sobreviveu e provocou mudança nas regras: fauna silvestre é bem coletivo, e a resposta é manejo, não expulsão. O mesmo vale na história do parque goiano que perdeu e recuperou centenas de milhares de hectares, onde a proteção legal trouxe os animais de volta.

O que convém lembrar sobre capivara na cidade e o carrapato da febre maculosa?

Guarde a conta de quatro horas: é o tempo médio, segundo a Fiocruz, que um carrapato-estrela precisa ficar fixado para transmitir a bactéria, o que torna a checagem do corpo ao voltar do parque a medida mais eficiente. Guarde o calendário de maio a outubro, quando os micuins estão na vegetação, e prefira roupas claras e compridas na grama alta; carrapato preso sai com pinça, sem esmagar. Não toque, não alimente e não tente afastar capivaras: além de crime pelo artigo 29 da Lei 9.605/98, isso espalha o bando e atrai animais novos. Se houver bando grande num parque do bairro, peça à prefeitura estudo populacional e plano de manejo, não remoção. Diante de febre alta com dor de cabeça forte até 15 dias depois de uma visita a área com carrapatos, conte isso ao médico: o Ministério da Saúde orienta iniciar o antibiótico já na suspeita.

Este texto tem caráter informativo, baseado em documentos públicos do Ministério da Saúde, da Fiocruz, da Embrapa e de prefeituras; ele não substitui a avaliação médica diante de sintomas nem a orientação dos órgãos ambientais, únicos que podem autorizar o manejo de animais silvestres.

Tags: Animais silvestrescapivarafebre maculosaministério da saúde
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