Cidade que cresce em cima de uma jazida costuma pagar a conta depois. Criciúma, maior município do sul de Santa Catarina, tirou do subsolo a riqueza que a transformou em centro industrial e herdou dela um passivo ambiental que a Justiça persegue há mais de trinta anos. A cidade que virou referência em revestimento cerâmico ainda administra o que o carvão deixou embaixo dela.
Por que 6 mil hectares seguem sob ordem judicial no sul catarinense?
Por causa de uma ação movida em 1993. Segundo o Ministério Público Federal (MPF), a chamada ACP do Carvão foi proposta com o objetivo de recuperar seis mil hectares de terras poluídas pela atuação das empresas carboníferas, e as áreas atingidas seguem com restrições de uso definidas em juízo.
A sentença saiu no ano 2000 e foi confirmada em segunda instância. Conforme o Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF4), a ação tratou da mineração a céu aberto e subterrânea realizada entre 1972 e 1989 nos municípios de Criciúma, Forquilhinha, Lauro Müller, Urussanga, Siderópolis, Içara e Orleans, com mais de 4 mil hectares de terras comprometidos e contaminação dos rios Araranguá e Tubarão.

O que a extração de carvão deixou no solo da região?
Deixou rejeito sólido na superfície e água ácida nos rios. O depósito final dos resíduos da lavra e o despejo de efluentes nos cursos d’água formaram o passivo que a ação busca reverter, e o resultado colocou a área entre as mais degradadas do país, conforme o MPF em Santa Catarina.
O processo continua vivo no cotidiano da cidade. Em 2025, o órgão participou de inspeção judicial em bairros criciumenses para verificar obras da prefeitura executadas em terrenos com passivo não recuperado, e passou a recomendar que municípios não concedam alvarás em áreas nessa situação. Em 2021, o MPF catarinense lançou o documentário Marcas do Carvão para contar a história da ação.
Como Criciúma trocou o carvão pela cerâmica?
Trocou aproveitando o mesmo subsolo que a formou, agora com argila no lugar do minério. Segundo o portal Viva Criciúma, da prefeitura, o município nasceu em 6 de janeiro de 1880 com imigrantes italianos, cresceu com a agricultura e o pequeno comércio e teve o salto econômico com a extração intensa do carvão, até que a indústria e o comércio assumissem o protagonismo.
Hoje a cidade é conhecida pelo duplo título de capital do carvão e do revestimento cerâmico, e o calendário guarda a marca da colonização em várias frentes. A Festa das Etnias, nascida como quermesse de tradição e cultura, reúne a gastronomia dos povos que formaram a região. Herança parecida sustenta outra vila catarinense de raiz europeia, no meio-oeste do estado.
O que visitar na maior cidade do sul de Santa Catarina?
A memória da mineração virou atrativo, e o restante do roteiro se concentra em parques urbanos e na agenda cultural, confira abaixo os pontos que organizam a visita:
- Mina de Visitação Octávio Fontana: galeria preservada que reproduz as condições de trabalho dos mineiros e explica o ciclo do carvão.
- Parque das Nações: principal área de lazer da cidade, com ciclovia, lago e espaço infantil.
- Parque Altair Guidi: área verde vizinha à prefeitura, usada para caminhada e esporte ao ar livre.
- Estádio Heriberto Hülse: casa do Criciúma Esporte Clube, que movimenta a cidade em dias de jogo.
- Festa das Etnias: evento anual que reúne a culinária e a música dos grupos que colonizaram a região.

Como é o clima de Criciúma ao longo do ano?
A chuva se distribui pelos doze meses sem estação seca, e é a temperatura que separa o calendário. Entre a mínima de julho e a máxima de fevereiro a diferença passa de quinze graus, veja abaixo como o ano se comporta:
Médias climatológicas de 30 anos publicadas pelo Climatempo. As condições variam de um ano para o outro por influência de fenômenos como El Niño e La Niña, então vale checar a previsão atualizada antes de viajar.
A cidade que ainda acerta contas com o próprio subsolo
O caso do sul catarinense mostra que a conta de uma economia extrativa não vence junto com o ciclo que a criou. Décadas depois de a última mina fechar, a cidade convive com terrenos que não podem receber obra, com bacias em recuperação e com uma indústria nova erguida sobre o mesmo território.
Você precisa conhecer Criciúma para entender como uma cidade se reinventa sem poder apagar o que tirou do chão.




