A China inaugurou em 22 de abril de 2021 uma estrada experimental que incorporou mais de 6 mil garrafas de leite e outros resíduos plásticos ao asfalto. O projeto, construído em Xangai, voltou a chamar atenção em 2026 por mostrar um destino possível para embalagens que, embora recicláveis, costumam enfrentar dificuldades na coleta convencional.
Estrada de 300 metros usou mais de 6 mil garrafas
A chamada “Milk Bottle Road” foi implantada no campus Xuhui da East China University of Science and Technology, em Xangai. Segundo informações divulgadas pela própria universidade, a via tem cerca de 300 metros e utilizou mais de 200 quilos de garrafas plásticas recicladas.
O projeto reuniu a fabricante de materiais Dow e a marca chinesa de laticínios Shiny Meadow. Em comunicado publicado na época, a Dow informou que mais de 6 mil garrafas usadas, além de outros resíduos plásticos, foram incorporadas a uma estrada de asfalto modificado com polímeros.
A estrada não é feita inteiramente de plástico
Apesar do apelido de “estrada de plástico”, a construção não substituiu todo o asfalto por garrafas derretidas. O plástico reciclado foi transformado em um componente utilizado na produção de asfalto modificado, conhecido pela sigla PMA, em combinação com os demais materiais empregados normalmente na pavimentação.
De acordo com informações reunidas pela universidade chinesa, as embalagens passaram primeiro por separação, trituração e derretimento. Depois, o material foi encaminhado à produção do asfalto utilizando a tecnologia ELVALOY RET, desenvolvida pela Dow.
Essa diferença é importante porque evita a impressão de que veículos circulam diretamente sobre uma camada formada apenas por plástico reciclado. Na prática, o resíduo entra como parte de uma mistura de pavimentação projetada para modificar determinadas propriedades do asfalto.

Por que garrafas de leite podem ser difíceis de reciclar
As embalagens utilizadas no projeto eram tecnicamente recicláveis, mas havia um problema prático. Segundo a Dow, resíduos de leite deixados nas garrafas aumentavam a contaminação do material, fazendo com que recicladores frequentemente evitassem esse tipo de embalagem por seu baixo valor de reaproveitamento.
Projeto buscava reduzir desperdício e uso de betume
A proposta era encontrar outra aplicação para um plástico que poderia acabar descartado apesar de possuir potencial de reaproveitamento. A Dow afirmou que o uso desses resíduos em pavimentação poderia contribuir para reduzir a quantidade de plástico descartado no ambiente e diminuir parcialmente a necessidade de betume na mistura asfáltica.
A empresa também associou a tecnologia à possibilidade de aumentar a vida útil do pavimento e reduzir consumo de energia e emissões de gases de efeito estufa. Essas vantagens, porém, foram apresentadas pela empresa responsável pela tecnologia; os materiais divulgados sobre o projeto não representam, por si só, uma avaliação independente de ciclo de vida comparando todas as etapas dessa solução com a pavimentação convencional.
China não foi o primeiro país a testar plástico em estradas
O caráter pioneiro divulgado em 2021 se referia ao projeto como a primeira estrada desse tipo na China. A própria Dow já trabalhava anteriormente com aplicações de plástico reciclado em pavimentos de outros países asiáticos, incluindo um projeto iniciado em 2017 na Indonésia.
Depois, a companhia participou de iniciativas semelhantes na Índia, incluindo trabalhos em Pune e Bangalore, e anunciou colaboração na Tailândia. A experiência chinesa ganhou visibilidade principalmente por relacionar diretamente as garrafas de leite usadas a uma aplicação concreta dentro de um campus universitário.
O que a experiência realmente mostra
O projeto de Xangai oferece um exemplo de como determinados resíduos podem ganhar uma segunda aplicação quando a reciclagem tradicional não é economicamente atraente. A reportagem que voltou a destacar o caso em setembro de 2026, publicada pelo Times of India, recuperou justamente esse aspecto da iniciativa realizada cinco anos antes.
Isso não significa que incorporar plástico ao asfalto seja uma solução automática para todo o problema dos resíduos. Para avaliar uma aplicação em maior escala, ainda é necessário considerar durabilidade real, custos, manutenção, logística de coleta e os impactos ambientais durante toda a vida útil do pavimento.
O ponto comprovado pelo projeto é mais específico: mais de 6 mil garrafas descartadas e outros resíduos foram efetivamente transformados em material para uma via de aproximadamente 300 metros. A experiência mostra uma alternativa tecnológica possível para resíduos de difícil aproveitamento, mas a decisão de expandi-la depende de análises técnicas e ambientais feitas para cada aplicação.




