Ter um “amigo inútil” pode ser uma das relações mais valiosas para a felicidade, segundo o pesquisador Arthur C. Brooks. A expressão parece negativa, mas descreve justamente uma amizade sem interesse, mantida porque duas pessoas gostam e se importam genuinamente uma com a outra.
O que Arthur Brooks quer dizer com “amigo inútil”
Brooks explica que um amigo verdadeiro é “inútil” no sentido de que você não precisa obter nada daquela pessoa. Ela não está na sua vida para conseguir emprego, ampliar contatos, abrir portas profissionais, aumentar status ou resolver algum problema específico.
A ideia foi detalhada pelo próprio pesquisador em um episódio do podcast Office Hours with Arthur C. Brooks. Para ele, algumas relações acabam funcionando como transações, enquanto as amizades mais profundas sobrevivem justamente porque não dependem de utilidade.
A explicação vem de uma ideia antiga de Aristóteles
O raciocínio usado por Brooks parte da filosofia de Aristóteles. Na Ética a Nicômaco, o filósofo distingue relações baseadas em utilidade, prazer e caráter: algumas pessoas permanecem próximas porque existe uma vantagem, outras porque se divertem juntas, enquanto a forma mais completa de amizade nasce quando cada pessoa deseja o bem da outra pelo que ela é.

Nem toda amizade por interesse é necessariamente ruim
Uma amizade baseada em utilidade não precisa envolver manipulação. Colegas podem se aproximar porque trabalham juntos, estudantes podem criar vínculos enquanto compartilham um projeto e profissionais podem manter contato porque existe benefício para ambos. Essas relações podem ser honestas, mas tendem a mudar quando desaparece a circunstância que as sustentava.
Também existem amizades organizadas principalmente em torno do prazer compartilhado: pessoas que praticam o mesmo esporte, frequentam os mesmos lugares ou gostam de determinada atividade. Elas podem se tornar profundas com o tempo, mas o interesse em comum, sozinho, não garante intimidade ou compromisso duradouro.
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Amizades próximas também aparecem nas pesquisas sobre felicidade
A preocupação de Brooks com os vínculos pessoais não está isolada. A própria Universidade Harvard, ao reunir pesquisas sobre felicidade, destaca a importância das relações humanas. Robert Waldinger, diretor do Harvard Study of Adult Development, afirma que uma das descobertas marcantes do estudo é a ligação entre bons relacionamentos, felicidade e saúde.
Brooks também coloca os amigos entre os pilares de uma vida mais feliz, ao lado de família, transcendência e trabalho significativo. Em uma publicação da Harvard Kennedy School, ele relaciona o enfraquecimento desses vínculos a problemas como isolamento e perda de conexão social.
O ponto central, portanto, não é acumular centenas de contatos. Uma pessoa pode ter uma agenda cheia, inúmeros seguidores e uma grande rede profissional sem possuir alguém diante de quem consiga abandonar o papel de funcionário, cliente, chefe ou parceiro de negócios. A diferença está na qualidade do vínculo, não simplesmente na quantidade de pessoas conhecidas.

Como saber se uma amizade virou apenas uma transação
Um exercício simples é observar o que aconteceria se todas as vantagens práticas desaparecessem. Se não houvesse mais emprego, projeto, indicação, status ou oportunidade envolvida, a relação ainda continuaria? Essa pergunta ajuda a separar conexão pessoal de conveniência.
Outros sinais podem aparecer no cotidiano:
- a conversa existe mesmo quando ninguém precisa pedir um favor;
- há interesse pela vida da outra pessoa além de trabalho ou negócios;
- é possível compartilhar dificuldades sem transformar tudo em troca;
- o contato continua mesmo quando não existe benefício imediato;
- as duas pessoas conseguem passar tempo juntas sem precisar atingir algum objetivo.
Isso não significa que amigos verdadeiros nunca ajudam uns aos outros. O detalhe é justamente o contrário: eles podem oferecer apoio real, mas a amizade não nasceu nem continua existindo por causa desse apoio.
O que fazer para fortalecer amizades sem interesse
Brooks sugere olhar com atenção para as pessoas que realmente conhecem você e investir mais profundamente nesses vínculos. Na prática, isso significa reservar tempo de qualidade, conversar sem uma finalidade profissional e manter contato mesmo quando não há nada concreto a ganhar.
Também pode ser útil revisar a própria postura: procurar alguém apenas quando precisa de ajuda transforma facilmente uma relação em instrumento. O “amigo inútil” defendido por Brooks é exatamente o oposto disso: alguém cuja presença continua fazendo sentido mesmo quando não serve para nada além de compartilhar a vida.




