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Início Curiosidades

Federico García Lorca, no discurso da biblioteca de Fuente Vaqueros em 1931: “Tenho muito mais pena de um homem que quer saber e não pode do que de um faminto”

Por João Victor
28/09/2026
Em Curiosidades
Biblioteca de aldeia na Andaluzia dos anos 1930 com moradores reunidos

Biblioteca de aldeia na Andaluzia dos anos 1930 com moradores reunidos. Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial.

Entre um homem com fome e um homem que quer aprender e não tem como, Federico García Lorca dizia ter mais pena do segundo. Ele não escreveu isso num poema nem numa peça. A frase está num discurso que o poeta leu em voz alta em setembro de 1931, em Fuente Vaqueros, o povoado da província de Granada onde nasceu, no dia em que a biblioteca pública local abriu as portas.

O mesmo texto contém a passagem mais famosa de Lorca sobre leitura, a do homem que, faminto e largado na rua, pediria meio pão e um livro. Essa costuma rodar sozinha nas redes. A que dá título a esta página vem poucas linhas depois, e é ela que explica a primeira.

O discurso de Lorca na biblioteca de Fuente Vaqueros

O portal Universo Lorca, dedicado aos lugares da vida do poeta, situa a leitura do discurso nos primeiros dias de setembro de 1931, com a Segunda República recém-instalada na Espanha. As fontes consultadas não fixam o dia exato. O mesmo portal registra que Lorca nasceu em Fuente Vaqueros em 1898, numa casa da rua da Trindade que desde 1986 funciona como Museo Casa Natal, e descreve o texto como um elogio ao povoado e uma pequena lição sobre o esforço humano para fazer livros e colocá-los em todas as mãos.

O título que ficou é Alocución al pueblo de Fuente Vaqueros. O manuscrito saiu em livro em 1986, em Granada, numa edição de Manuel Fernández Montesinos e Andrés Soria Olmedo com o fac-símile do original, publicado inteiro pela primeira vez, segundo o catálogo sobre Lorca editado pela Biblioteca de Andalucía em 1998. O mesmo catálogo registra uma nova edição fac-similar pela Comares, de Granada, em 1997, com ilustrações de Frederic Amat.

Vale um cuidado: Lorca inaugurou a biblioteca com aquelas palavras, e nada indica que ele a tenha fundado ou pago. O que ele deu a ela foi um discurso que atravessou décadas.

Mais pena de quem quer saber

Mãos de camponês seguram um livro aberto ao lado de meio pão
Mãos de camponês seguram um livro aberto ao lado de meio pão. Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial.

O trecho do título aparece na reprodução do discurso publicada pelo site argentino Pensamiento Penal, que traz as passagens centrais da fala, sem pretensão de edição crítica. No original em espanhol:

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“Yo tengo mucha más lástima de un hombre que quiere saber y no puede, que de un hambriento.”

A justificativa vem em seguida, e é menos romântica do que parece. Para Lorca, quem tem fome resolve o problema com facilidade, com um pedaço de pão ou algumas frutas. Quem tem ânsia de saber e não tem meios sofre uma agonia terrível, porque precisa de livros, muitos livros, e o poeta pergunta onde estão esses livros. No parágrafo seguinte ele repete a palavra como quem chama alguém: livros, livros. Diz que ela equivale a dizer amor e que os povos deveriam pedi-la como pedem pão ou esperam a chuva para a lavoura.

Para reforçar o argumento, Lorca lembra Dostoiévski preso na Sibéria, pedindo à família, por carta, que lhe mandasse livros para que a alma não morresse. Com frio, não pedia fogo; com sede, não pedia água. É a maneira como Lorca resume aquelas cartas, e não uma citação conferida do escritor russo. O raciocínio termina com a ideia de que a agonia do corpo por fome, sede ou frio dura pouco, enquanto a da alma insatisfeita dura a vida toda.

Meio pão e um livro

A parte mais conhecida do discurso abre com uma frase que não é de Lorca: não só de pão vive o homem, citação bíblica que aparece em Mateus 4:4 e em Deuteronômio 8:3. O poeta a usa como trampolim e acrescenta, segundo a mesma reprodução:

“Yo, si tuviera hambre y estuviera desvalido en la calle no pediría un pan; sino que pediría medio pan y un libro.”

Há duas redações em circulação. Essa, com o segundo pediría, é a que aparece na reprodução argentina; o portal Universo Lorca cita uma versão mais curta, sem repetir o verbo. Sem acesso ao fac-símile, não dá para dizer qual das duas está no manuscrito. Em português, as duas viram a mesma coisa: não pediria um pão, pediria meio pão e um livro.

Logo depois vem o trecho mais político. Lorca diz atacar com violência quem fala só de reivindicações econômicas e nunca das culturais, que os povos pedem aos gritos. Está bem que todos comam, afirma, mas que todos saibam. Sem os frutos do espírito, as pessoas viram máquinas a serviço do Estado. Ele fecha citando Menéndez Pidal, para quem o lema da República deveria ser a cultura.

No começo da fala, o poeta ainda conta que quase nunca fica com livro nenhum, porque dá de presente os que compra, e chama a biblioteca de Fuente Vaqueros de provavelmente a primeira de toda a província de Granada. A estimativa é dele, feita no calor da inauguração, e não um dado conferido.

De Granada às bibliotecas populares do Brasil

No Brasil, o discurso ganhou uso militante. Em artigo assinado pela equipe da Editora Expressão Popular e publicado no Brasil de Fato em 17 de dezembro de 2021, a editora lista cinco ações para o período seguinte. Uma delas é construir uma rede de bibliotecas populares nas periferias das grandes cidades, reforçando a campanha Solidariedade: doe livros para transformar o mundo. O texto põe a ideia sob três padrinhos: a pedagogia de Paulo Freire, o direito ao livro defendido por Antonio Candido e a leitura de mundo de Lorca.

O artigo termina com um trecho traduzido do discurso de Fuente Vaqueros, do meio pão até o lema da cultura. Entre uma ponta e outra há um corte marcado com reticências entre colchetes, e é justamente nesse intervalo que ficam a pena de quem quer saber, o grito por livros e a lembrança de Dostoiévski. A passagem que sustenta o argumento de uma biblioteca na periferia é a que ficou de fora.

A metade famosa já circulava por aqui bem antes: em 2011, o Sul21 publicou uma coluna com o título Meio pão e um livro. E a aposta no livro ao alcance de qualquer um aparece em outras escalas, como na feira literária aberta que pôs uma cidade do Sul no mapa do turismo cultural. Uma tradução brasileira em livro desse discurso, com editora e tradutor identificados, não foi localizada.

Uma frase injusta com a fome?

Lida quase um século depois, a comparação incomoda. Para muita gente, a fome não se resolve com um pedaço de pão, nem em 1931 nem agora. Mas o poeta não está medindo sofrimentos. Está dizendo que a falta de pão tem remédio conhecido e que a falta de livro costuma nem entrar na conta de quem distribui ajuda.

É uma frase injusta com a fome e exata sobre a biblioteca.

O argumento conversa com outra imagem cara a quem lê, a de Kafka e o livro como machado para o mar congelado dentro de nós. Os dois tratam a leitura como necessidade, não como enfeite. A diferença é que Lorca, naquele setembro de 1931, estava diante de uma estante nova, no povoado onde nasceu, pedindo que ela nunca ficasse vazia.

Tags: bibliotecasFederico García Lorcafrases célebresleitura
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