No litoral capixaba, a cerca de 5 km de Vitória pela Terceira Ponte, Vila Velha guarda o ponto exato onde a colonização portuguesa começou no Espírito Santo. Uma cidade que nasceu antes de Salvador, foi capital até 1549 e hoje reúne 32 km de praias, um santuário fundado em 1558 no topo de um penhasco e a igreja católica em atividade mais antiga do Brasil em pleno centro histórico.
A caravela Glória, 60 colonos e o domingo de Pentecostes
Em 23 de maio de 1535, o donatário português Vasco Fernandes Coutinho desembarcou na atual Prainha a bordo da caravela Glória, acompanhado de cerca de 60 colonos. Era oitava de Pentecostes no calendário litúrgico, e o povoado recebeu o nome de Vila do Espírito Santo, batismo que deu origem ao estado inteiro. A fundação aconteceu no mesmo ano que Santos e Olinda, tornando o local uma das ocupações europeias mais antigas do litoral brasileiro.
A vila foi capital da Capitania até 1549. Ataques constantes dos Tupinambás forçaram a transferência da sede para uma ilha mais protegida, que se tornou a atual Vitória. A antiga capital passou a ser chamada de Vila Velha. Segundo o portal Descubra o Espírito Santo, do Governo do Estado, o local foi o primeiro núcleo de povoamento português em terras capixabas e a primeira capital da Capitania do Espírito Santo.

O convento no alto do penhasco que virou símbolo do estado
O Convento da Penha foi fundado em 1558 pelo frei espanhol Pedro Palácios, no topo de um penhasco de 154 metros de altitude. É considerado um dos santuários católicos mais antigos do Brasil e o principal monumento religioso do Espírito Santo. Foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) em 1943 e recebe cerca de 3 milhões de visitantes por ano.
A subida se faz pela Ladeira da Penitência, calçamento de pedra irregular com sete curvas até o cume. Fiéis mais devotos sobem os últimos metros de joelhos. Do alto, a vista alcança Vila Velha, Vitória, a baía e o Oceano Atlântico em 360 graus. A Festa da Penha, dedicada à padroeira do estado, acontece oito dias após a Páscoa e reúne romeiros de todo o país, sendo uma das maiores romarias católicas do Brasil.
A igreja em atividade mais antiga do país
A poucos metros da Prainha, a Igreja Nossa Senhora do Rosário é a joia menos famosa do centro histórico. Erguida em 1535 por Vasco Fernandes Coutinho junto com a fundação da vila, é considerada a igreja católica em atividade mais antiga do Brasil e foi tombada pelo IPHAN em 1950. As paredes de pedra e cal preservam a estrutura original do século XVI.
O centro histórico se completa com o Sítio Histórico da Prainha, casario colonial, ruínas de fortificações e o casarão de Vasco Coutinho, primeira residência oficial da colonização capixaba. O passeio a pé leva algumas horas e é a maneira mais didática de entender como o Brasil começou a se formar no século XVI.
Quais praias visitar em Vila Velha?
A cidade tem 32 km de litoral, e cada praia recebe um perfil diferente de visitante. As mais próximas do centro concentram infraestrutura completa; as mais afastadas guardam trechos preservados de restinga e mata litorânea.
- Praia da Costa: a mais movimentada e famosa, com calçadão de vários quilômetros, ciclovia, quiosques, esportes ao ar livre e a vista da Terceira Ponte ao fundo.
- Praia de Itaparica: praia extensa e familiar, ideal para caminhadas, com boa oferta de restaurantes e a Praça do Sol como referência.
- Praia de Itapoã: entre a Costa e Itaparica, reúne quiosques e é uma das preferidas dos moradores locais para o fim de tarde.
- Praia da Barra do Jucu: mais afastada e conhecida como reduto de surfistas, com mar aberto, ondas fortes e a foz do rio Jucu.
- Prainha: pequena enseada no centro histórico, marco da chegada dos portugueses em 1535.
- Praia dos Recife: entre a Praia da Costa e Itapoã, com formações rochosas e boa opção para famílias com crianças.

Além das praias e do Convento
O roteiro se completa com o Morro do Moreno, a fábrica da Garoto e outros pontos que combinam natureza, indústria e história ao longo de toda a cidade.
- Morro do Moreno: elevação de 184 metros com trilhas moderadas e vista privilegiada para o pôr do sol sobre a Terceira Ponte e a baía de Vitória.
- Fábrica de Chocolates Garoto: instalada em Vila Velha desde 1929, oferece visitas guiadas e loja de fábrica com preços especiais.
- Farol de Santa Luzia: construção histórica sobre a costa, ponto de interesse para quem quer entender a navegação colonial na baía.
- Museu Ferroviário Vale: instalado em antiga estação, conta a história da Estrada de Ferro Vitória a Minas, uma das mais importantes ferrovias brasileiras.
- Terceira Ponte: cartão-postal da Grande Vitória, com passarela para pedestres e ciclistas e vista panorâmica sobre a baía.
- Fazenda Jucuruaba: propriedade rural com trilhas em meio à Mata Atlântica, opção para quem quer ecoturismo próximo ao centro urbano.
O que se come na cidade mais antiga do Espírito Santo?
A gastronomia capixaba é o fio condutor da cena local, com destaque para as panelas de barro que dão personalidade a alguns dos pratos mais famosos do país. Os endereços tradicionais se concentram na Praia da Costa, Itaparica e Barra do Jucu.
- Moqueca capixaba: preparada em panela de barro artesanal feita em Goiabeiras, sem dendê nem leite de coco, com peixe fresco, urucum, tomate e coentro. Símbolo máximo da culinária local.
- Torta capixaba: prato típico da Semana Santa, feito com bacalhau, camarão, siri, mariscos, palmito e ovos, servido em ocasiões festivas.
- Bobó de camarão: mistura cremosa de camarão com mandioca, azeite de dendê e leite de coco, servida quente em restaurantes tradicionais.
- Chocolate Garoto: os produtos da fábrica local viraram tradição, com destaque para os bombons, o brigadeiro e a caixa de bombons Sortidos.
Como é o clima ao longo do ano
Vila Velha tem clima tropical quente e úmido, com verão chuvoso e temperaturas altas o ano inteiro. O outono e a primavera são as melhores janelas para quem prefere sol constante com menos chuva.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.

Como chegar a Vila Velha
A cidade fica na Região Metropolitana da Grande Vitória, ligada à capital pela Terceira Ponte, com trajeto de cerca de 10 minutos. O Aeroporto Internacional de Vitória Eurico de Aguiar Salles recebe voos de várias capitais brasileiras e fica a aproximadamente 20 minutos do centro. Por rodovia, Vila Velha fica a cerca de 500 km do Rio de Janeiro pela BR-101 e a 520 km de Belo Horizonte pela BR-262, entre sete e oito horas de carro.
Suba o penhasco e caminhe pelos 32 km de orla
Vila Velha condensa em um só endereço aquilo que poucas cidades brasileiras conseguem oferecer: patrimônio colonial preservado, um dos santuários mais antigos do país, praias urbanas de infraestrutura completa e a possibilidade de atravessar a maior ponte da América Latina em direção à capital. Tudo isso a poucas horas do Rio de Janeiro.
Você precisa conhecer Vila Velha subindo a Ladeira da Penitência ao amanhecer e terminar o dia numa moqueca de panela de barro na Barra do Jucu para entender por que o Brasil começou por ali.




