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Há mil anos, uma cidade surgiu sobre 92 ilhas artificiais e até hoje intriga visitantes com suas lendas de dragões

Por Maura Pereira
22/10/2026
Em Cidades, Turismo
Há mil anos, uma cidade surgiu sobre 92 ilhas artificiais e até hoje intriga visitantes com suas lendas de dragões

A maior incógnita está nos métodos usados para transportar e posicionar os blocos. / Imagem ilustrativa

Muros de pedra despontam da lagoa como vestígios de uma civilização submersa. Nan Madol, situada no litoral sudeste da ilha de Pohnpei, é um complexo formado por 92 ilhotas artificiais erguidas com colunas de rocha vulcânica sobre um recife de coral. Sua construção não contou com rodas, roldanas ou ferramentas metálicas. A obra exigiu força humana, conhecimento do ambiente marinho e técnicas de engenharia que ainda despertam perguntas entre os pesquisadores.

O que a arqueologia já revelou sobre Nan Madol?

As evidências arqueológicas apontam que a construção monumental de Nan Madol ganhou impulso entre os séculos XII e XIII. Pesquisas de datação indicam que grandes blocos de basalto foram retirados de formações vulcânicas situadas a dezenas de quilômetros e levados até o recife onde o complexo foi construído. Durante séculos, os moradores mobilizaram quantidades extraordinárias de pedra para levantar plataformas, muralhas e canais artificiais, formando um centro cerimonial e político associado à antiga dinastia Saudeleur. De acordo com o Smarthistory, o volume de basalto transportado ao longo de aproximadamente quatro séculos alcançou cerca de 750 mil toneladas métricas, o equivalente a uma média de 1.850 toneladas por ano.

A maior incógnita está nos métodos usados para transportar e posicionar os blocos. Algumas colunas de basalto pesam dezenas de toneladas e foram encaixadas sem argamassa, compondo estruturas que resistem há mais de oitocentos anos à exposição às marés. Entre as hipóteses levantadas estão o uso de jangadas, técnicas de flutuação e a participação de grandes grupos de trabalhadores. Ainda assim, os pesquisadores não chegaram a um consenso sobre como a sociedade insular conseguiu deslocar e encaixar pedras tão pesadas com a tecnologia disponível naquela época.

O enigma da cidade flutuante de 1.000 anos construída sobre 92 ilhas artificiais que ninguém sabe como foi erguida e tem lendas de dragões
A separação física entre governantes e governados reforçava uma aura de autoridade divina que os sacerdotes cultivavam com rituais elaborados. / Créditos: Wikipédia / Wikimedia Commons

Como os governantes controlavam a cidade flutuante?

A dinastia Saudeleur dominou Pohnpei por aproximadamente quatro séculos, usando Nan Madol como centro de poder e reunindo sob seu comando uma população estimada em 25 mil pessoas. Conforme o U.S. National Park Service, esse regime constitui o primeiro caso conhecido de centralização política no Pacífico ocidental. A cidade, porém, não dispunha de fontes de água doce nem de terras adequadas ao cultivo. O abastecimento dependia de canoas que transportavam alimentos e água, fornecidos por pessoas comuns para manter a elite instalada nas ilhotas.

O isolamento também servia como instrumento de controle. Chefes de grupos rivais eram obrigados pelos Saudeleur a residir nas ilhotas, o que permitia mantê-los sob vigilância. A distância física entre a população e os governantes ajudava a consolidar a autoridade da dinastia, enquanto os sacerdotes reforçavam a imagem de poder divino por meio de cerimônias religiosas elaboradas.

A enguia sagrada ligada ao destino da ilha

Na pequena ilha de Idehd, sacerdotes conduziam todos os anos o ritual conhecido como Pwung en Sapw. Durante a cerimônia, uma tartaruga marinha era cozida e suas vísceras eram oferecidas a Nan Samol, uma enorme enguia-moreia mantida em um poço de água salgada. Caso o animal aceitasse a oferenda, o deus da agricultura era considerado satisfeito com o comportamento da comunidade. A Cultural Site Research and Management Foundation (CSRM) registra ainda que a tartaruga representava os três distritos políticos de Pohnpei.

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O Metropolitan Museum of Art relata que escavações encontraram vestígios de pequenos canais utilizados pelas enguias e restos de tartarugas sacrificadas, evidências que ajudam a sustentar as tradições orais preservadas ao longo de gerações. A relação simbólica com esses animais continua presente na ilha: até hoje, as enguias são consideradas sagradas em Pohnpei e não fazem parte da alimentação da população local.

Muralhas de 7,5 metros cercam a tumba dos governantes

Entre as construções de Nan Madol, Nandauwas se destaca como a principal ilhota funerária da realeza. Suas muralhas, erguidas com colunas de basalto, atingem 7,5 metros de altura e delimitam um pátio central onde fica a tumba do primeiro Saudeleur. A área funerária, conhecida como Madol Powe, compreende 58 ilhotas e era ocupada sobretudo por sacerdotes.

O complexo funcionava de acordo com uma divisão rigorosa de tarefas. Cada ilhota tinha uma finalidade dentro da estrutura política e religiosa dos Saudeleur. O levantamento arqueológico identificou pelo menos cinco funções distintas entre as construções:

  • Nandauwas: abrigava a tumba do primeiro Saudeleur, cercada por muralhas que chegam a 7,5 metros.
  • Dapahu: funcionava como estaleiro para a construção de canoas usadas nos deslocamentos entre as ilhotas.
  • Peinering: era dedicada à produção de óleo de coco empregado em cerimônias religiosas.
  • Idehd: sediava a celebração anual ligada à enguia sagrada e aos sacrifícios de tartarugas.
  • Pwalahng e Usendau: serviam como pontos de comunicação, de onde trombetas feitas de conchas e tambores transmitiam ordens oficiais.

A área administrativa, chamada Madol Pah, ficava na parte sudoeste do complexo e reunia palácios e residências da nobreza. A divisão entre setor sagrado e setor político reforçava o controle dos Saudeleur sobre toda a ilha de Pohnpei.

A linha do tempo de Nan Madol revela como a cidade passou de centro de poder a ruína ameaçada em menos de um milênio. / Créditos: Wikipédia / Wikimedia Commons

Leia também: Uma pequena Itália no interior do Sul com 2.600 moradores é a maior produtora de uvas, preserva tradições e encanta turistas.

Patrimônio Mundial sob ameaça de desaparecer

Em 15 de julho de 2016, a UNESCO incluiu Nan Madol na Lista do Patrimônio Mundial e, simultaneamente, na Lista do Patrimônio Mundial em Perigo. Foi o primeiro sítio da Micronésia a receber as duas classificações. Um dos principais riscos é o acúmulo de sedimentos nos canais, processo que favorece a expansão descontrolada dos manguezais. Suas raízes avançam entre as colunas de basalto e comprometem a estabilidade de muralhas que resistiram durante séculos à ação das marés.

A conservação do complexo está sob responsabilidade do Pohnpei State Historic Preservation Office, que trabalha em conjunto com os chefes tradicionais Nahnmwarki, detentores de autoridade costumeira sobre o território. A elevação do nível do mar no Pacífico aumenta a preocupação com o futuro do local. Sem medidas de preservação, as águas que cercam Nan Madol podem contribuir para a deterioração de uma das construções mais extraordinárias da região.

A trajetória de Nan Madol mostra como um centro político e cerimonial poderoso se transformou, ao longo de menos de mil anos, em um patrimônio arqueológico ameaçado.

1180-1200 d.C.
Início da construção megalítica

Basalto transportado por mais de 40 km até o recife de coral.

~1628
Queda da dinastia Saudeleur

Invasão de Isokelekel encerra definitivamente o governo centralizado na região.

1874
Primeira descrição científica

O etnógrafo polonês J. S. Kubary documenta detalhadamente as ruínas arqueológicas.

1985
Marco Histórico Nacional dos EUA

Proteção federal garantida às estruturas como um importante distrito arqueológico.

2016
Patrimônio Mundial (UNESCO)

Reconhecimento global oficial e inclusão simultânea na Lista do Patrimônio em Perigo.

💡 Informação: Nan Madol é a única cidade antiga erguida sobre um recife de coral, representando um dos maiores feitos da engenharia oceânica da história.

Fontes: UNESCO e U.S. National Park Service.

A lenda dos feiticeiros e do dragão que movia pedras

De acordo com a tradição oral de Pohnpei, a origem de Nan Madol está ligada aos irmãos Olisihpa e Olosohpa, feiticeiros que teriam vindo da lendária terra de Katau Ocidental. Conforme a UNESCO, os dois viajaram em uma grande canoa até encontrar o lugar onde pretendiam construir um altar dedicado a Nahnisohn Sahpw, deus da agricultura. A narrativa tradicional afirma que um dragão voador os ajudou a erguer e transportar as enormes pedras usadas na construção.

Após a morte de Olisihpa, já em idade avançada, Olosohpa teria se unido a uma mulher de Pohnpei e dado início à dinastia Saudeleur. A linhagem teria reunido dezesseis governantes ao longo de doze gerações. A imagem misteriosa das ruínas também atravessou a fronteira entre história e ficção: o escritor H. P. Lovecraft se inspirou em relatos sobre Nan Madol para conceber R’lyeh, a cidade submersa associada a Cthulhu.

Leia também: Fundada em 1733, esta cidade do Paraná reúne casarões coloniais, comida típica e uma viagem de trem entre montanhas e floresta.

O mistério da cidade de pedra cercada pelo oceano

Nan Madol desafia a imaginação: um complexo monumental construído sobre o mar, sem fontes de água potável, ferramentas metálicas ou rodas. Suas muralhas escuras de basalto permanecem sobre o recife de coral, como vestígios silenciosos de uma sociedade que ergueu estruturas colossais pedra por pedra há mais de oito séculos.

Em meio às ilhotas, aos canais e às ruínas ameaçadas pelo avanço da vegetação e pelas mudanças no nível do mar, Nan Madol continua guardando perguntas que a arqueologia ainda tenta responder. É um lugar singular da Micronésia, cuja preservação se tornou essencial para que as próximas gerações possam compreender a engenhosidade e a história de quem construiu essa cidade sobre as águas.

Tags: cidadeNan MadolPohnpei
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