A mais de mil quilômetros do continente, uma ilha brasileira de origem vulcânica abriga uma floresta em que samambaias arborescentes chegam a cerca de 5 a 6 metros de altura. É a Ilha da Trindade, território remoto ligado ao Espírito Santo, onde relevo, umidade e uma história de forte alteração ambiental ajudaram a criar uma paisagem incomum no Brasil. Até a identificação científica dessas samambaias guarda uma discussão pouco conhecida.
Onde fica a Ilha da Trindade
Trindade está no Atlântico Sul, a cerca de 1.140 quilômetros de Vitória, no Espírito Santo, e a 2.400 quilômetros do Rio de Janeiro. As Ilhas Martin Vaz ficam aproximadamente 48 quilômetros a leste, e a terra mais próxima fora desse conjunto é a ilha de Ascensão, a 2.167 quilômetros. A Marinha mantém presença permanente em Trindade desde 1957.
A ilha ocupa a extremidade oriental da cadeia submarina Vitória-Trindade e se ergue cerca de 5.500 metros desde o fundo do oceano. Na parte emersa, o ponto mais alto é o pico São Bonifácio, com cerca de 625 metros. Esse relevo abrupto ajuda a formar ambientes muito diferentes em uma área pequena, incluindo as partes altas, úmidas e sombreadas onde estão as samambaias gigantes.
O que torna a floresta diferente
A página do PROTRINDADE mantida pela Marinha descreve uma floresta de samambaias gigantes nas culminâncias úmidas e sombreadas, com plantas que alcançam aproximadamente 5 a 6 metros. O ICMBio também registra oficialmente essa formação e identifica a samambaia como Cyathea copelandii. Em vez de uma vegetação rasteira, parte da ilha ganha a aparência de uma mata formada por enormes frondes.
Há, porém, uma nuance botânica. Um estudo publicado em 2021 na revista Phytotaxa, com análises moleculares e morfológicas, concluiu que C. copelandii deve ser tratada como sinônimo de Cyathea delgadii e encontrou maior proximidade das populações de Trindade com populações da Mata Atlântica. Assim, páginas oficiais brasileiras continuam usando o nome tradicional, enquanto trabalhos taxonômicos recentes discutem se ela realmente constitui uma espécie separada.

Como a ilha vulcânica surgiu
Segundo o Programa de Pesquisas Científicas na Ilha da Trindade, a formação ocorreu há cerca de 3 milhões de anos, associada a atividade vulcânica em uma zona de fraturas. Lavas, cinzas e areias vulcânicas ainda registram essa origem na paisagem. A última manifestação vulcânica é estimada pela Marinha em aproximadamente 50 mil anos atrás.
Trindade é, na prática, o trecho emerso de uma enorme estrutura que começa milhares de metros abaixo da superfície do Atlântico. O isolamento, a altitude e a exposição constante aos ventos oceânicos produzem contrastes entre setores mais secos e partes altas sujeitas à umidade. Foi nesse ambiente que as formações de samambaias arborescentes conseguiram se estabelecer e permanecer.
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Como a vegetação foi transformada
Os registros históricos mostram que Trindade já teve cobertura florestal muito mais extensa. Navegadores introduziram cabras, porcos e outros animais exóticos; sem predadores naturais, principalmente os caprinos se multiplicaram e consumiram a vegetação. O corte de árvores e a redução da cobertura vegetal também favoreceram forte erosão e perda de solo.
A retirada das cabras e os trabalhos de recuperação iniciados no fim do século XX mudaram essa trajetória. Publicações da CIRM relatam expansão da vegetação, redução da erosão, recuperação de nascentes e reaparecimento de plantas que haviam sido consideradas desaparecidas localmente. A samambaia arborescente ganhou papel importante nesse processo e hoje domina formações florestais nas partes elevadas da ilha.

Como a ilha funciona na prática
Trindade não funciona como destino turístico de acesso comum. O Posto Oceanográfico da Ilha da Trindade, criado em 1957, mantém a presença brasileira e serve de apoio a pesquisas de geologia, botânica, meteorologia e biologia marinha. A ilha também se destaca por possuir fontes e cursos de água permanentes, característica excepcional entre as ilhas oceânicas brasileiras.
Desde 2018, a região também conta com unidades federais de conservação criadas pelo Decreto nº 9.312. O Monumento Natural administrado pelo ICMBio tem entre seus objetivos proteger formações naturais raras, habitats e populações de espécies endêmicas ou ameaçadas. Pesquisa científica, conservação e presença da Marinha acabam, assim, convivendo no mesmo território.
O que os números ajudam a entender
A página do PROTRINDADE consultada em 2026 informa área de 10,2 km², distância de 1.140 quilômetros de Vitória e altitude máxima de 625 metros. Há uma divergência dentro das próprias fontes da Marinha: uma página do Posto Oceanográfico registra 9,2 km² e cerca de 600 metros, enquanto um ensaio geobotânico hospedado pela instituição cita 9,28 km² e aproximadamente 620 metros. Os números, portanto, mudam conforme a fonte e o levantamento utilizado. :
Mesmo considerando o valor maior, Trindade cabe em pouco mais de dez quilômetros quadrados, mas reúne picos, nascentes, praias, paredões vulcânicos e uma floresta de samambaias que alcança altura comparável à de uma casa de dois andares. A peculiaridade não está apenas no tamanho das plantas. Ela resulta da combinação entre vulcanismo, isolamento oceânico, umidade nas áreas altas e uma recuperação ecológica que continua sendo acompanhada por pesquisadores.




