Pessoas que hoje têm entre 50 e 60 anos passaram boa parte da infância nas décadas de 1970 e 1980, período em que era mais comum assumir tarefas domésticas, circular pelo bairro sem adultos e até cuidar de irmãos menores. A psicologia sugere que experiências desse tipo podem favorecer autonomia e senso de competência, embora responsabilidades excessivas também possam produzir efeitos negativos.
A infância dos anos 1970 e 1980 tinha mais espaço para autonomia
Em muitas famílias, crianças voltavam sozinhas da escola, brincavam na rua até determinado horário e precisavam resolver pequenos problemas sem recorrer imediatamente aos pais. Hoje, práticas desse tipo podem parecer incomuns, mas estudos sobre mobilidade independente infantil mostram que a liberdade para circular sem acompanhamento adulto diminuiu em diversos países ao longo das últimas décadas.
Uma pesquisa disponível no PubMed Central define mobilidade independente como a liberdade para crianças se deslocarem pelo bairro sem supervisão adulta e relaciona essa experiência a oportunidades de atividade física, interação social e desenvolvimento da capacidade de navegar pelo ambiente. Isso não significa, porém, que toda liberdade concedida no passado fosse necessariamente segura.

Fazer tarefas em casa pode desenvolver sensação de competência
Arrumar a própria cama, lavar louça, ajudar na limpeza ou participar do preparo das refeições eram responsabilidades relativamente comuns desde cedo. Quando adequadas à idade, essas tarefas permitem que a criança perceba que sua participação produz um resultado concreto para a família, além de ensinar organização e responsabilidade.
Um estudo longitudinal com 9.971 crianças, publicado e disponível no PubMed, encontrou associação entre realizar tarefas domésticas no início da vida escolar e níveis posteriores maiores de autocompetência, comportamento pró-social e autoeficácia. A pesquisa mostra uma associação, e não prova que lavar pratos ou varrer a casa sozinho determine como alguém será na vida adulta.
Cuidar dos irmãos podia ensinar responsabilidade, mas também pesar demais
Outra experiência lembrada por essa geração é ficar responsável pelo irmão mais novo enquanto os adultos trabalhavam ou resolviam outras obrigações. Participar ocasionalmente desse cuidado pode estimular cooperação, responsabilidade e capacidade de resolver problemas, principalmente quando a criança continua recebendo apoio dos adultos.
A situação muda quando ela assume funções que deveriam pertencer aos pais, fenômeno estudado como parentificação. Pesquisas mostram que seus efeitos dependem da intensidade, do contexto e do reconhecimento recebido: um estudo disponível no PubMed encontrou tanto resultados negativos quanto diferenças relacionadas ao contexto, indicando que responsabilidade e sobrecarga não devem ser tratadas como a mesma coisa.
Resolver problemas sozinho pode ter fortalecido a independência
Sem telefone celular para chamar os pais diante de qualquer imprevisto, muitas crianças precisavam tomar pequenas decisões por conta própria: descobrir como voltar para casa, negociar conflitos durante uma brincadeira ou procurar um adulto conhecido quando surgia um problema. Essas situações podiam funcionar como oportunidades repetidas para praticar tomada de decisão e autoconfiança.
Ao mesmo tempo, não é correto romantizar essa infância como necessariamente melhor. Menor supervisão também podia significar maior exposição a acidentes, violência ou situações inadequadas, além de crianças lidando sozinhas com problemas para os quais ainda não estavam preparadas. A autonomia tende a ser mais saudável quando aumenta gradualmente e acompanha as capacidades da criança e as condições reais do ambiente.

Os efeitos positivos e negativos podem existir ao mesmo tempo
Uma pessoa que precisou assumir responsabilidades cedo pode chegar à vida adulta com grande facilidade para trabalhar, organizar a casa e enfrentar imprevistos. Em outros casos, a mesma história pode deixar a sensação de que é preciso resolver tudo sozinho, dificuldade para pedir ajuda ou tendência a assumir responsabilidades que pertencem a outras pessoas.
Por isso, frases como “nossa geração era mais independente” simplificam uma realidade bastante diversa. Condição econômica, segurança do bairro, estrutura familiar, personalidade e quantidade de apoio recebido interferem no resultado. A psicologia diferencia desafios compatíveis com a idade, que podem estimular desenvolvimento, de responsabilidades excessivas capazes de produzir estresse e insegurança.
Essa infância também pode influenciar a maneira de criar os próprios filhos
Adultos que cresceram com bastante liberdade podem repetir parte desse modelo e incentivar os filhos a cuidar das próprias coisas, usar transporte público ou resolver pequenos problemas. Outros fazem justamente o contrário: lembranças de medo, acidentes ou falta de apoio podem levar a uma criação com mais supervisão e proteção do que aquela que receberam.
Pesquisas sobre overparenting e autonomia mostram que participação parental intensa nem sempre acompanha a necessidade real de independência dos filhos. O desafio para quem cresceu nos anos 1970 e 1980 é aproveitar o que havia de positivo naquela experiência sem simplesmente reproduzi-la: oferecer autonomia progressiva com segurança, tarefas adequadas à idade e espaço para que crianças e adolescentes aprendam a fazer coisas por conta própria sem carregar responsabilidades de adultos.




