O LP Krig-ha, Bandolo!, primeiro disco solo de Raul Seixas, lançado pela Philips em 1973, aparecia em 7/10/2026 com a primeira prensagem anunciada a partir de R$ 300 no Discogs, base mantida por colecionadores que reúne a ficha técnica de cada edição e um mercado onde particulares e lojas oferecem discos. Os R$ 300 são o pedido mais baixo entre quatro ofertas dessa edição, conforme as estatísticas de mercado do release 2611265, lidas pela interface de programação (API) do site à tarde. Trata-se de anúncio, não de venda concluída.
Os dados não trazem o estado do disco nem o da capa da oferta mais barata. No mesmo dia, a ficha do release 2611265 no Discogs somava 1.286 colecionadores que marcam essa edição como parte do acervo e 707 que a incluíram entre os discos desejados.
67 mil discos quando 10 mil já era estouro
A medida da presença do disco nas casas vem de 1976. A reportagem Raul, o produto: lucro certo, do Jornal de Música de novembro daquele ano, publicou números de vendas fornecidos por Roberto Menescal, então produtor e diretor da Philips. O pesquisador José Rada Neto reuniu esses dados numa tabela da monografia sobre Raul Seixas defendida na UFSC em 2013: até novembro de 1976, Krig-ha, Bandolo! tinha vendido 67 mil LPs.
Para saber se isso era muito, a mesma monografia recupera a régua da época. Em reportagem do Jornal da Tarde de 26 de setembro de 1973, o próprio cantor dizia que uma gravadora se dava por satisfeita com três mil discos vendidos e que dez mil eram considerados “um estouro”. Até novembro de 1976, o primeiro LP solo superou essa marca quase sete vezes.
O número tem limites. Vale só até novembro de 1976, e Raul continuou vendendo depois disso: a monografia cita reportagem de O Estado de S. Paulo segundo a qual a obra dele chegou a 300 mil discos vendidos só em 1995, somando todos os títulos. Também não faz de Krig-ha o maior sucesso daquele começo. Pela mesma tabela, Gita, de 1974, vendeu 143 mil LPs no mesmo período, e o compacto de Ouro de Tolo já somava 180 mil cópias em setembro de 1973, segundo o Jornal da Tarde.
Um disco com escada, pichação e manifesto

Raul não era estreante em 1973. Antes, tinha gravado com o grupo Raulzito e os Panteras e participado do disco coletivo Sociedade da Grã-Ordem Kavernista, de 1971. Em maio de 1973, a Philips ainda lançou Os 24 Maiores Sucessos da Era do Rock, versões de clássicos do rock cantadas por ele, mas creditadas na capa a uma banda fictícia, a Rock Generation, conta Rada Neto. A pesquisa cita o programa O Som do Vinil, do Canal Brasil, que trata Krig-ha, Bandolo! como o primeiro disco solo do cantor. Cinco das faixas têm coautoria do letrista Paulo Coelho, segundo os créditos do Discogs, o mesmo que anos depois assinaria a frase sobre o universo que conspira a favor de quem deseja algo.
São 11 faixas, segundo a ficha do Discogs. O lado A traz Mosca na Sopa, Metamorfose Ambulante e As Minas do Rei Salomão; o lado B começa com Al Capone e fecha com Ouro de Tolo. Para Rada Neto, a ordem seguia uma prática comum da indústria: o maior sucesso no fim obrigava quem queria ouvi-lo a passar pelas outras faixas do lado. Duas vinhetas amarram o disco, a Introdução (Raul aos 9 Anos) e uma fala de Raul gravada depois de Ouro de Tolo, que, segundo a monografia, ficou de fora das edições seguintes.
A capa mostra Raul sem camisa sobre fundo negro, magro, com o medalhão do Nepal no peito e uma chave na palma da mão, como descreve a monografia. Na contracapa, a letra de Rockixe aparece escrita como pichação de muro, escolha que Paulo Coelho, em entrevista ao Estadão citada na monografia, descreveu como a única forma de manifestação possível naquele momento. A contracapa dizia ainda que a chave para entender o disco estava em ouvi-lo lendo A Fundação de Krig-Ha, um gibi manifesto escrito pela dupla. Pensado para sair junto com o LP, o gibi acabou distribuído só nos shows, quando Raul estreou no Teatro Thereza Rachel, em outubro de 1973, ainda segundo a pesquisa da UFSC.
Quanto pedem hoje pelo LP Krig-ha, Bandolo!, de Raul Seixas
A leitura da API do Discogs em 7/10/2026 mostra pisos parecidos entre edições separadas por décadas. Cada valor abaixo é a oferta mais baixa daquela edição, em reais, sem informação sobre conservação:
- Original de 1973 (release 2611265, Philips 6349 078): 4 anúncios, a partir de R$ 300.
- Reedição de 1987 (release 3696301): 2 anúncios, a partir de R$ 221,23.
- Reedição da Polysom de 2017 (release 10493907): 1 anúncio, a R$ 301,95.
A reedição de 1993 e duas reprensagens da Philips sem ano não tinham nenhum exemplar anunciado no dia. O álbum também saiu em fita cassete em 1973 e em CD a partir de 1989, segundo a página das versões do disco no Discogs, que lista 18 edições, todas brasileiras.
Na vitrine de hoje, 44 anos entre duas prensagens cabem em R$ 1,95.
Mesmo número, discos diferentes
O número 6349 078 impresso na contracapa não prova que um exemplar é de 1973. A reedição de 1987 usa o mesmo número de catálogo, assim como as duas reprensagens sem data, e a de 1993 repete a forma 6349.078 que aparece nos selos da original.
As fichas do Discogs apontam onde estão as diferenças. A da original registra o código de preço Série De Luxo, a matriz 200 6349078 A gravada na área final do lado A e um encarte do tamanho do LP. A de 1987 traz o código Série Amarela e o ano 1987 gravado na matriz. Nem esses sinais resolvem tudo: uma das reprensagens sem ano também tem o código Série De Luxo e uma matriz que começa da mesma forma, o que deixa a identificação para o conjunto de detalhes, e não para um só.
O estado pesa tanto quanto a edição. Os preços da API não dizem se o anúncio de R$ 300 tem riscos no vinil, capa gasta ou o encarte original, e a diferença entre um exemplar completo e um disco sem encarte não aparece nesse número.
O contraste honesto fica dentro do próprio catálogo. Um LP que vendeu 67 mil cópias até 1976 não é raro, e o piso registrado em 7/10 mostra isso: a primeira prensagem pede quase o mesmo que uma reedição de 2017. O interesse continua alto, medido pelos 707 usuários que a querem na coleção, e a obra segue rendendo histórias, como a origem do verso sobre o sonho que se sonha só, que Raul Seixas cantou. O que os números do Discogs registram é o pedido de quatro vendedores num único dia, não o valor de um disco guardado em casa.




