Andrea, de 31 anos, decidiu pausar a própria loja de roupas infantis em Vigo, na Espanha, depois de dois anos acumulando funções como empreendedora e mãe de uma criança de 3 anos. O relato ganhou repercussão ao resumir a rotina com uma frase direta: ser autônoma pode significar trabalhar praticamente o tempo todo quando não existe uma divisão clara entre negócio, casa e cuidados com os filhos.
Por que Andrea decidiu interromper o funcionamento da loja?
Andrea abriu a Meninos quando o filho tinha apenas três meses. A loja começou em um espaço de 15 metros quadrados e chegou a ocupar 70 metros quadrados, enquanto ela assumia tarefas de curadoria, atendimento, estoque, fornecedores, redes sociais e administração.
O crescimento trouxe mais responsabilidades, mas não necessariamente mais tempo disponível. A rotina passou a reunir as demandas do comércio, os cuidados com a criança e as tarefas domésticas, fazendo com que a empreendedora percebesse que precisava interromper o funcionamento para reorganizar a estrutura do negócio e da vida familiar.

O que o empreendedorismo materno revela sobre a carga de cuidados?
A experiência descrita por Andrea se relaciona a um problema estudado internacionalmente. A Organização Internacional do Trabalho aponta que mulheres realizam, em média, três vezes mais trabalho de cuidado não remunerado que homens, e que a presença de crianças pequenas aumenta essa carga.
O impacto também aparece na participação econômica. Em 2023, cerca de 708 milhões de mulheres estavam fora da força de trabalho mundial por causa de responsabilidades de cuidado não remunerado, segundo estimativa da OIT. Para mulheres que administram pequenos negócios, a falta de serviços acessíveis de cuidado pode dificultar tanto a permanência quanto a expansão da atividade.
Por que trabalhar por conta própria pode misturar casa e negócio?
O trabalho autônomo oferece controle sobre algumas decisões, mas também transfere para o próprio empreendedor tarefas que seriam distribuídas em uma empresa maior. Atendimento, compras, pagamentos, divulgação, planejamento e solução de problemas podem continuar depois do horário comercial, principalmente quando o negócio depende diretamente da pessoa responsável.
Pesquisas sobre trabalhadores autônomos também identificam uma relação entre conflito entre vida profissional e pessoal, problemas de sono e esgotamento. Um estudo com mais de 12 mil participantes na Coreia do Sul encontrou associação entre conflito entre trabalho e vida pessoal, distúrbios do sono e esgotamento entre pessoas que administravam seus negócios sozinhas.

Como a falta de limites pode afetar mães que empreendem?
Quando a jornada profissional não possui um encerramento definido, tarefas pequenas podem ocupar intervalos que antes seriam destinados ao descanso ou à convivência familiar. Mensagens de clientes, pedidos, fornecedores e redes sociais tornam possível continuar trabalhando mesmo quando a loja física já está fechada.
Estudos sobre mães trabalhadoras mostram que o conflito entre trabalho e família está associado à forma como o tempo é distribuído entre essas funções. Uma pesquisa longitudinal publicada pela American Psychological Association acompanhou mães e encontrou relação entre maior conflito trabalho-família e perfis com maior concentração de tempo no trabalho.
O que pode mudar quando o negócio volta a funcionar?
Andrea não apresentou a pausa como abandono definitivo da atividade. A intenção é reorganizar a operação para uma possível retomada, com mudanças na programação das coleções, períodos de descanso e maior participação do marido na administração. A proposta é ajustar o negócio à realidade familiar, em vez de manter o mesmo modelo a qualquer custo.
A experiência também mostra que apoio não precisa significar apenas contratar uma equipe completa. Serviços de cuidado, divisão de tarefas, horários de atendimento definidos, automação de atividades repetitivas e períodos sem comunicação profissional podem reduzir a sobreposição de funções. A OIT destaca justamente a importância de políticas e serviços de cuidado para ampliar as condições de desenvolvimento do empreendedorismo feminino.




