Instalação de 120 mil m² em Guangzhou produziu a primeira unidade do Land Aircraft Carrier, veículo de seis rodas que carrega um módulo voador desacoplável — quase 5 mil encomendas já foram registradas e as entregas começam em 2026

O carro voador sempre foi a promessa quebrada do futuro — anunciado em todas as décadas, entregue em nenhuma. Esse histórico acaba de sofrer seu golpe mais sério: na cidade chinesa de Guangzhou, entrou em operação a primeira fábrica de produção em massa de carros voadores do mundo, e a primeira unidade já saiu da linha de montagem.
A instalação pertence à Aridge (antiga XPeng AeroHT), subsidiária de mobilidade aérea da XPeng, uma das maiores fabricantes chinesas de veículos elétricos. O produto que sai da linha é o Land Aircraft Carrier — literalmente, “porta-aviões terrestre” —, um veículo que leva o conceito de carro voador por um caminho que ninguém tinha tentado em escala industrial.
Como funciona o “porta-aviões terrestre”
Em vez de um carro com asas, a Aridge dividiu o problema em dois. O Land Aircraft Carrier é modular e se separa em dois veículos:
- O módulo terrestre (“nave-mãe”) — um veículo robusto de três eixos e seis rodas, com 5,5 metros de comprimento, tração integral e direção ativa nas rodas traseiras. Cabe em uma vaga de estacionamento convencional e usa sistema híbrido capaz de recarregar o módulo aéreo várias vezes durante a viagem, com autonomia combinada superior a 1.000 km;
- O módulo aéreo — uma aeronave elétrica de decolagem e pouso verticais (eVTOL) com seis rotores e fuselagem de fibra de carbono, que sai da traseira da nave-mãe e levanta voo sem precisar de pista. Suporta voo autônomo e voo manual — neste caso, comandado por um único manche.
A lógica de uso: dirige-se até onde a estrada alcança e voa-se por cima do que ela não resolve — trânsito, rios, terrenos sem acesso. A aeronave opera na chamada mobilidade de baixa altitude, a faixa entre 100 e 1.000 metros que a China decidiu transformar em setor econômico prioritário, com apoio direto do governo.

A fábrica que trata aeronave como automóvel
O marco não é o veículo — protótipos voadores existem às dezenas. O marco é a fábrica. A unidade de Guangzhou tem cerca de 120 mil m², organizada em cinco grandes áreas, e foi projetada para unir dois mundos que nunca se encontraram: a qualidade de fabricação aeronáutica e o ritmo de uma linha automotiva.
Os números do projeto:
- Capacidade para 10 mil unidades por ano, começando com 5 mil;
- Ritmo de um veículo a cada 30 minutos quando a linha estiver em plena operação;
- Produção interna de componentes de fibra de carbono com meta de 300 toneladas anuais — o que coloca a planta entre as maiores unidades do tipo para aviação no mundo;
- Operação com energia fotovoltaica e gestão digital de energia.
A demanda já existe: segundo a empresa, o Land Aircraft Carrier acumula quase 5 mil encomendas desde o lançamento, com entregas previstas para 2026 e preço estimado pela imprensa na casa de R$ 1,6 milhão. “Com milhares de encomendas, estamos definitivamente na vanguarda da revolução da mobilidade avançada”, afirmou Tan Wang, cofundador da empresa.
O obstáculo que falta vencer
Entre a fábrica e o céu há um filtro que nenhuma linha de montagem resolve: a regulamentação. O veículo registrou na China o pedido de certificado de tipo — passo crítico da aprovação aeronáutica — e já realizou demonstração pública de voo tripulado, mas a operação cotidiana em ambiente urbano ainda depende de regras de tráfego aéreo de baixa altitude que estão sendo construídas agora, na China e no resto do mundo.
É justamente aí que a aposta chinesa se diferencia: o governo tratou a “economia de baixa altitude” como política industrial, criando infraestrutura física, digital e regulatória em paralelo à fábrica — em vez de esperar a tecnologia ficar pronta para só então discutir as regras.
E o Brasil nessa corrida
A disputa global tem um competidor de peso brasileiro: a Embraer, por meio da Eve Air Mobility, é uma das principais apostas mundiais em eVTOLs, ao lado de empresas como Joby e Archer — embora com foco em “táxis voadores” para rotas urbanas, e não no modelo carro-aeronave da chinesa.
A fábrica de Guangzhou se soma aos marcos industriais que vêm tirando o transporte elétrico do papel em escala real — como o maior navio elétrico do mundo, construído para cruzar o Rio da Prata com 2.100 passageiros. O padrão se repete mais uma vez: a pergunta deixou de ser se essas máquinas funcionam — e passou a ser quantas saem da fábrica por dia.
O carro voador, depois de um século de promessa, finalmente tem endereço, linha de montagem e fila de espera.









