Maior estrutura do tipo no mundo, o silo de 13 metros em Pornainen armazena energia renovável na forma de calor, mantém a cidade aquecida por uma semana e corta em até 70% as emissões do aquecimento urbano — usando resíduo de uma fábrica de lareiras

Entre as tecnologias que disputam o futuro da energia — hidrogênio, baterias de lítio, reatores avançados —, uma das mais promissoras é também a mais improvável: um silo cheio de pedra moída. Na pequena cidade de Pornainen, no sul da Finlândia, está em operação a maior “bateria de areia” do mundo, uma torre de 13 metros de altura por 15 de largura que guarda energia da forma mais antiga possível: na forma de calor.
Desenvolvida pela startup finlandesa Polar Night Energy, a estrutura funciona desde junho de 2025 como unidade principal da rede de aquecimento urbano local — e, segundo a empresa, superou as metas de eficiência já nos primeiros meses.
Como funciona uma bateria de areia
O princípio é de uma simplicidade desconcertante. A bateria de areia é um sistema de armazenamento de energia térmica: em vez de guardar eletricidade em células químicas, como as baterias de lítio, ela converte eletricidade em calor — e guarda o calor.
O ciclo completo:
- Carregamento — o excedente de eletricidade renovável (solar e eólica), nos horários em que a geração sobra e a energia fica barata, alimenta resistências que aquecem o material dentro do silo a temperaturas de até 600 °C;
- Armazenamento — o silo é termicamente isolado, e o calor pode ficar guardado por meses com perdas mínimas;
- Descarga — quando a cidade precisa de aquecimento, o ar circula por tubos dentro do silo, absorve o calor da pedra e sai a até 400 °C, aquecendo a água da rede urbana por meio de um trocador de calor.
A eficiência do processo gira em torno de 90% — apenas 10% a 15% do calor se perde entre guardar e recuperar. E a capacidade impressiona: 100 MWh de energia térmica, o suficiente para manter Pornainen inteira aquecida por cerca de uma semana do rigoroso inverno finlandês.
O detalhe genial: o “combustível” era lixo
A bateria nem usa areia comum. O silo foi preenchido com cerca de 2.000 toneladas de pedra-sabão triturada — resíduo industrial da Tulikivi, fabricante finlandesa de lareiras que é líder mundial no setor. O material que sobrava da produção de lareiras virou o coração de um sistema de energia.
Esse é um dos trunfos do conceito: o meio de armazenamento pode vir de sobras da mineração e da indústria, sem extrair matéria-prima nova. Pedra moída não degrada com os ciclos de carga como as células de lítio, não pega fogo, não depende de minerais críticos disputados — e custa quase nada.
O que a bateria mudou na cidade
Os resultados práticos em Pornainen, segundo a Polar Night Energy:
- Até 70% de redução nas emissões de carbono do aquecimento urbano;
- Cerca de 60% menos queima de cavacos de madeira, o combustível que sustentava o sistema antigo — durante o verão, a bateria substituiu a usina a cavacos por completo;
- Prédios públicos como a escola municipal, a prefeitura e a biblioteca já são aquecidos pela estrutura.
“O armazenamento de energia desempenha um papel importante na transição energética, em que a produção baseada em combustão é eliminada gradualmente”, resumiu a ministra do Meio Ambiente da Finlândia, Sari Multala, na inauguração, classificando o projeto como exemplo de eletrificação limpa das redes de aquecimento.
Por que o mundo está de olho no silo finlandês
A bateria de Pornainen é dez vezes maior que a primeira do tipo, construída pela mesma empresa em 2022 — um salto de escala que tira a ideia do estágio de curiosidade. E ela ataca o problema central das renováveis: a intermitência. Sol e vento produzem quando querem; o calor guardado na pedra espera o momento de ser usado.
A limitação é honesta: o sistema brilha para calor — aquecimento urbano e vapor industrial —, e a conversão de volta em eletricidade, embora possível com turbinas, perde eficiência no caminho. Mas, em países frios, aquecimento é justamente a maior conta de energia, o que explica as negociações da startup para replicar o modelo em outras cidades.
O silo finlandês se junta à série de soluções que vêm atacando o armazenamento de energia por caminhos inesperados — caso do maior navio elétrico do mundo, que carrega 250 toneladas de baterias para cruzar o Rio da Prata. De um lado, a fronteira do lítio em alto-mar; do outro, pedra quente num silo. A transição energética, ao que tudo indica, vai precisar dos dois — e a versão de pedra tem a vantagem de caber no orçamento de uma cidade de interior.








