Nem toda festa junina termina na fogueira. Em Corumbá, no oeste de Mato Grosso do Sul, os moradores descem em cortejo até o rio Paraguai na noite de 23 de junho e mergulham as imagens de São João nas águas escuras da fronteira. A cena virou patrimônio imaterial do Brasil e ajuda a explicar por que essa cidade portuária no coração do Pantanal está longe de ser apenas o ponto de partida das pescarias.
Por que o Banho de São João de Corumbá virou patrimônio nacional?
A tradição foi reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil em 19 de maio de 2021, durante a 95ª reunião do Conselho Consultivo do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). O pedido inicial havia sido feito em 2010 pela prefeitura de Corumbá e envolveu uma década de estudos em parceria com a Universidade Federal de Mato Grosso do Sul.
Na noite de 23 para 24 de junho, os festeiros descem a Ladeira Cunha e Cruz carregando andores com a imagem de São João até o Porto Geral. Segundo o portal oficial do Banho de São João de Corumbá e Ladário, a celebração reúne católicos, umbandistas, candomblecistas e devotos de outras tradições em torno do mesmo ritual: molhar o santo nas águas do rio Paraguai. É a única festa junina do país que ainda pratica esse batismo fluvial.

O que sobrou do porto que fez Corumbá rica no século XIX?
O Casario do Porto é o que restou do ciclo áureo, quando o rio Paraguai era a única via de escoamento da região e a cidade movimentava um dos maiores portos fluviais da América Latina. Segundo o IPHAN, o conjunto histórico, arquitetônico e paisagístico de Corumbá foi tombado em 1993 e reúne mais de 200 edifícios em estilo eclético, construídos durante o auge comercial da virada dos séculos XIX e XX.
Entre os monumentos protegidos estão a Casa Wanderley & Baís, a Casa Vasquez (que abriga o Museu do Homem do Pantanal), o Hotel Galileo, a Escadaria da Praça General Rondon e o próprio Porto Geral. O apelido de Cidade Branca vem da cor das terras da região, ricas em calcário, que também aparecem nos casarões e nas ladeiras.
Como é morar em uma cidade na fronteira com a Bolívia?
Corumbá fica a cerca de 426 km de Campo Grande e a apenas 6 km da fronteira com a Bolívia. A cidade vizinha do outro lado é Puerto Quijarro, e a proximidade se traduz em placas bilíngues, moeda dupla no comércio informal e uma culinária que mistura o pantaneiro com o boliviano. A economia local combina agropecuária, exploração de minério de ferro e manganês do Maciço do Urucum e turismo de natureza.
Segundo o IPHAN, até a década de 1950 os rios eram os únicos meios de comunicação da região, e Corumbá vivia sob a influência dos países da Bacia do Prata, dos quais herdou parte dos seus costumes, hábitos e vocabulário. Essa herança fronteiriça continua viva nas feiras livres, nas bordas do porto e no ritmo mais lento das tardes.
O que fazer na Capital do Pantanal além da pescaria?
A cidade divide a experiência entre a exploração urbana dos casarões neoclássicos e a imersão na planície alagada. Segundo a Prefeitura de Corumbá, os passeios se distribuem entre o centro histórico, o Porto Geral e as pousadas rurais dentro do Pantanal.
- Casario do Porto Geral: conjunto tombado à beira do rio, com bares, ateliês de artesanato e vista privilegiada do pôr do sol.
- Museu de História do Pantanal (MUHPAN): acervo dedicado à ocupação humana e à ecologia da planície alagada.
- Cristo Rei do Pantanal: estátua no topo do Morro do Cruzeiro, com vista panorâmica de 360 graus sobre a cidade e a planície.
- Estrada Parque Pantanal Sul: via de terra que corta campos inundados e baías, com fauna visível ao longo do trajeto.
- Forte Coimbra: presídio militar iniciado em 1775 para defender a fronteira portuguesa, hoje sob comando do Exército.
- Passeios fluviais pelo Rio Paraguai: cruzeiros e barcos-hotel que saem do Porto Geral para pesca esportiva e observação de fauna.

O que comer em Corumbá?
A gastronomia local mistura ingredientes do Pantanal com influências paraguaia e boliviana. Os pratos giram em torno dos peixes do rio, da carne bovina do pasto pantaneiro e da mandioca em várias formas.
- Peixada pantaneira: caldo com peixes do rio Paraguai como pintado ou pacu, temperado com pimenta e coentro.
- Pastel de Corumbá: massa recheada com carne moída temperada, servida em feiras e mercados populares.
- Chipa: pãozinho de queijo e polvilho herdado da tradição paraguaia, comum nos cafés da manhã.
- Sopa paraguaia: apesar do nome, é um bolo salgado de milho e queijo, popular na região de fronteira.
- Piraputanga assada: peixe típico do rio servido inteiro na brasa, prato clássico das pousadas de pesca.

Como é o clima de Corumbá ao longo do ano?
O clima é tropical com duas estações bem marcadas: uma seca, entre maio e setembro, ideal para observação de fauna e trilhas, e outra chuvosa, entre outubro e abril, quando o Pantanal se enche e vira um imenso espelho d’água.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Como chegar a Corumbá?
A cidade fica a 426 km de Campo Grande, com acesso pela rodovia BR-262, totalmente pavimentada. O Aeroporto Internacional de Corumbá recebe voos regulares a partir de Campo Grande, e a estação de trem histórica pertence à antiga linha do Trem do Pantanal, hoje usada apenas para carga. Do outro lado da fronteira, o famoso Trem da Morte segue de Puerto Quijarro até Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia.
A cidade onde história, fronteira e Pantanal cabem no mesmo dia
Corumbá é o tipo de destino que engana quem chega esperando só pescaria. O rio que hoje recebe o santo no dia 23 é o mesmo que fez a fortuna dos comerciantes que levantaram os casarões tombados, e a fronteira que fica a 6 km continua alimentando a comida, a música e o vocabulário da cidade. Poucos lugares no país conseguem juntar tanta coisa em uma só planície.
Você precisa subir a ladeira do Casario ao entardecer, provar uma peixada no Porto Geral e ver com os próprios olhos por que Corumbá é chamada de Capital do Pantanal.



