A atmosfera de Marte sofreu uma compressão magnética que fez partículas carregadas se moverem como pasta saindo de um tubo. O efeito Zwan-Wolf, estudado há décadas perto da Terra, apareceu onde ninguém esperava. E esse detalhe pode ajudar a entender para onde foi parte da antiga atmosfera marciana.
Uma tempestade solar deixou o efeito visível
O episódio começou em dezembro de 2023, quando uma grande ejeção de massa coronal atingiu Marte. Cerca de 12 horas depois, a sonda MAVEN atravessou a região perturbada e registrou oscilações incomuns no campo magnético, justamente quando passava pelas camadas superiores da atmosfera.
A tempestade funcionou quase como um amplificador. Os pesquisadores acreditam que o efeito Zwan-Wolf pode acontecer o tempo todo em Marte, mas normalmente é fraco demais para os instrumentos perceberem. A atividade solar intensa tornou um fenômeno discreto grande o bastante para aparecer nos dados.

O que significa espremer a atmosfera
Na Terra, o fenômeno ajuda a empurrar plasma ao longo de linhas do campo magnético e participa da interação com o vento solar. Marte é diferente porque não possui um campo magnético global forte como o terrestre. Mesmo assim, o vento solar cria uma proteção magnética induzida ao encontrar a ionosfera marciana.
É essa queda de densidade que cria a comparação com um tubo de pasta de dente. A pressão magnética comprime o plasma e força partículas a se deslocarem ao longo das linhas magnéticas. O mais estranho é que tudo aconteceu dentro da ionosfera, e não apenas longe da atmosfera.
A MAVEN viu mudanças em questão de segundos
As estruturas tinham uma frente muito abrupta. Essa parte passou pela sonda em aproximadamente dois segundos, enquanto a região posterior levou entre 30 e 60 segundos para voltar às condições anteriores. Ao mesmo tempo, o plasma se deslocava em direção ao lado noturno de Marte.
Os pesquisadores também observaram aumento de algumas centenas de graus na temperatura dos íons durante essas passagens. Isso indica que as ondas magnéticas carregavam energia para regiões mais baixas da atmosfera. Mas há um detalhe ainda mais importante quando a pergunta muda de “o que aconteceu?” para “o que Marte pode perder?”.
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O efeito pode entrar na história da atmosfera perdida
A missão MAVEN nasceu justamente para investigar como Marte perdeu grande parte de sua atmosfera ao longo de bilhões de anos. O planeta já teve rios, lagos e condições muito diferentes das atuais. Sem um escudo magnético global, o vento solar consegue interagir de forma muito mais direta com sua atmosfera superior.
O novo estudo não prova que o efeito Zwan-Wolf seja sozinho responsável por essa perda. Porém, ele mostra um mecanismo capaz de movimentar partículas e transportar energia para baixo da altitude alcançada pela MAVEN. Essa conexão coloca o fenômeno entre as peças que podem ajudar a explicar como material atmosférico termina no espaço.

Um cálculo chama atenção para os íons de oxigênio
A maior parte da energia das estruturas provavelmente teria efeito pequeno se fosse dividida entre todas as moléculas neutras de dióxido de carbono. Os íons são muito menos numerosos. Por isso, se uma parte relevante da energia ficar concentrada em apenas uma pequena fração dos íons de oxigênio molecular, o resultado muda bastante.
Os autores calculam que, em um cenário no qual apenas 5% desses íons recebam a energia, algumas partículas poderiam atingir energia de escape depois de encontrar cerca de cinco ou seis estruturas. É uma estimativa, não uma medição direta. A MAVEN não passou pela região mais baixa onde essa energia finalmente se dissipa, e essa incerteza será o próximo desafio.
O que acompanhar a partir de agora
O ponto principal é observar se futuras simulações conseguem mostrar para onde vai a energia dessas ondas e quanto dela realmente chega aos íons. O estudo também abre espaço para procurar o mesmo mecanismo em corpos sem campo magnético global, como Vênus e Titã.
Para acompanhar os dados e a repercussão que colocou o tema novamente em evidência, vale consultar a matéria que detalha a observação da MAVEN. O que parecia apenas uma oscilação estranha nos instrumentos pode acabar ajudando a responder uma pergunta enorme sobre Marte.




