O lixão de roupas do Atacama, nos arredores de Alto Hospicio, no norte do Chile, virou caso de Justiça. Em 5 de setembro de 2025, o Primer Tribunal Ambiental, com sede em Antofagasta, condenou o Estado chileno a apresentar um plano de reparação em até seis meses, com retirada e destino seguro dos resíduos.
Segundo o tribunal, as provas mostraram “decenas de miles de toneladas de ropa usada y otros residuos acumulados desde hace más de una década”. Mais de um ano depois, o plano não foi entregue, de acordo com reportagem do site chileno El Desconcierto publicada em 24 de setembro de 2026.
O prazo original venceu em março de 2026 e foi estendido até 5 de junho, a pedido do Conselho de Defesa do Estado. Nessa data, segundo os advogados ouvidos pelo El Desconcierto, o governo apresentou apenas um relato de reuniões entre órgãos públicos, e os autores pediram um novo prazo de 30 dias sob pena de multa.

O que a sentença exige do Estado chileno
O tribunal reconheceu dano ambiental significativo ao solo e à paisagem em quatro setores de Alto Hospicio: Pampa Norte, Pampa Sur, Mollecita Norte e Mollecita Sur. Além de roupas, havia pneus, entulho e outros detritos.
O plano precisa começar por um diagnóstico das áreas. Depois vêm a retirada do lixo, a recuperação do solo e da paisagem, o cercamento e a vigilância dos depósitos, campanhas educativas em Alto Hospicio e Iquique e metas verificáveis de coleta e tratamento de resíduo têxtil, com monitoramento.
A ação foi aberta em março de 2022 pela advogada Paulin Silva Heredia, que denunciou depósitos ilegais desde 2012 em terrenos do governo. A prefeitura de Alto Hospicio, também processada, foi absolvida por ter tomado medidas concretas, ainda que insuficientes. A decisão não foi unânime: a ministra Sandra Álvarez votou contra.
O lixão de roupas do Atacama não é mais uma montanha só
As fotos aéreas que rodaram o mundo mostravam um único depósito gigante. Esse monte foi queimado, e desde então as roupas se espalharam por vários lixões menores no deserto, o que dificulta a fiscalização, segundo o El Desconcierto e o jornal chileno The Clinic, que registrou a dispersão em janeiro de 2024.
O Atacama tem condições tão extremas que surpreendem até equipamentos científicos. Ali, segundo o tribunal, a roupa descartada se acumula a céu aberto há mais de uma década.
Roupa usada e encalhada, vinda de vários continentes
A porta de entrada é a zona franca de Iquique. Em 2021, a agência AFP relatou que cerca de 59 mil toneladas de roupa chegavam por ano ao porto e que pelo menos 39 mil acabavam nos lixões do deserto, números que a agência não atribuiu a uma fonte oficial.
Uma reportagem da BBC de abril de 2026, republicada pelo Correio Braziliense, cita estimativas do governo chileno de 123 mil toneladas de roupa usada importadas por ano. As peças costumam ser fabricadas na China e em Bangladesh e passam por Europa, Ásia e Estados Unidos antes de chegar ao Chile, segundo a AFP.
A maior parte é roupa usada que não encontrou comprador, misturada a peças novas encalhadas. O trajeto lembra o tênis doado à Cruz Vermelha que reapareceu à venda num brechó da Bósnia: a doação entra num mercado global e ninguém controla onde a peça termina.
Lei de reciclagem de roupas ainda sem metas
O Chile tem uma lei de responsabilidade do produtor, a Ley REP (Lei 20.920). Em junho de 2025, o Ministério do Meio Ambiente incluiu os têxteis entre os produtos prioritários, e em março de 2026 abriu o processo do decreto que vai fixar metas de coleta e reciclagem.
Pela página do ministério sobre têxteis, o prazo para o anteprojeto foi prorrogado e o texto ainda não foi publicado. O mesmo órgão estima mais de 572 mil toneladas de resíduos têxteis por ano no país, cerca de 7% do lixo urbano, e cita a emissão de microplásticos e a contaminação de solo e água entre os impactos.
Sem plano entregue e sem metas em vigor, a sentença por enquanto serve mais de diagnóstico do que de faxina. Organizações e marcas chilenas, segundo o El Desconcierto, resgatam peças do deserto para reaproveitá-las, até em desfiles.
No Brasil, a regra é barrar roupa usada importada
Aqui, a importação definitiva de bens de consumo usados, incluindo vestuário, é proibida em regra, segundo material do Siscomex, sistema federal de comércio exterior, publicado em dezembro de 2021. As exceções incluem doações a órgãos públicos e a entidades beneficentes, que seguem regras próprias.
Para quem compra, o caminho mais eficaz é o menos glamoroso: comprar menos, usar por mais tempo, consertar o que dá e doar para quem distribui as peças perto de casa.




