Cidades históricas costumam ser protegidas por suas igrejas e casarões, raramente pela paisagem ao redor. Em Piranhas, no sertão de Alagoas, o tombamento foi além: incluiu o núcleo antigo, um distrito vizinho e um trecho inteiro do Rio São Francisco. Espalhada entre a parte baixa, à beira d’água, e a parte alta, nos morros de caatinga, a cidade guarda a memória do tempo em que barcos e trens levavam mercadorias e viajantes entre o sertão e o litoral.
Por que um trecho do Rio São Francisco é patrimônio em Piranhas?
Porque a paisagem do rio faz parte da história da cidade. Segundo o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), o sítio histórico e paisagístico de Piranhas foi tombado em 2004 e inclui o núcleo histórico, o distrito de Entremontes e um trecho de 13 km do rio. Ao justificar a proteção, o instituto destacou a preservação da paisagem do São Francisco, um importante meio de comunicação e integração entre as cidades nordestinas.
O perímetro tombado reúne cerca de 1.000 imóveis. A cidade se divide em “cidade de baixo” e “cidade de cima”, em uma região de caatinga cortada pelos rios São Francisco, Boa Vista, também chamado de Piranhas, Urucu e Capiá. Essa geografia em degraus, com o casario descendo até a água, faz do conjunto uma paisagem que se entende melhor a partir do próprio rio.

Como barcos e trens fizeram Piranhas crescer?
O rio abriu o caminho, mas foram os trilhos que mudaram o destino da cidade. O Iphan registra que o maior fator de desenvolvimento local veio com a construção da estrada de ferro, alguns anos depois da chegada da navegação. A ferrovia tinha uma função estratégica: ligar o trecho navegável do Baixo São Francisco ao rio acima das cachoeiras de Paulo Afonso, que impediam a passagem dos barcos.
O passado imperial também deixou marcas. Ainda segundo o Iphan, a cidade integra a Rota do Imperador, percurso turístico e cultural criado pelo governo de Alagoas em 2009 para lembrar a passagem de Dom Pedro II pela região. Hoje, a antiga estação ferroviária é um dos principais prédios do centro histórico e ajuda o visitante a entender como o sertão se conectava ao resto do país.
O que ver no centro histórico de Piranhas?
O núcleo tombado é compacto e pode ser percorrido a pé, entre ladeiras, casario colorido e mirantes para o rio. Alguns endereços concentram a história da cidade.
O que protege o Monumento Natural do Rio São Francisco?
Os cânions e a caatinga ao longo do rio. Segundo o Ministério do Turismo, o Monumento Natural do Rio São Francisco foi criado em 2009 e protege cerca de 26 mil hectares no leito e nas margens do rio, em municípios como Piranhas, Canindé de São Francisco, em Sergipe, e Paulo Afonso, na Bahia. O ministério descreve os cânions da região como alguns dos maiores cânions navegáveis do mundo.
A unidade também abriga sítios arqueológicos com pinturas rupestres e serve de refúgio para espécies exclusivas da caatinga. Para quem chega de avião, a principal porta de entrada do lado alagoano é o aeroporto de Maceió, a cerca de 280 km de Piranhas, segundo o ministério.

Como é a caatinga que cerca Piranhas?
Espinhosa, resistente e cheia de contrastes. Um estudo de pesquisadores da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) descreve a vegetação da região como caatinga hipoxerófila, formação adaptada à seca, com trechos de floresta que perdem as folhas no período de estiagem, cactos e árvores como o juazeiro, o pereiro e o angico.
O mesmo trabalho situa Piranhas a 110 metros de altitude, em uma paisagem de relevo suavemente ondulado, cortada por vales estreitos. É esse cenário seco que torna tão marcante o contraste com as águas do São Francisco, visto da parte alta da cidade.
Como é o clima de Piranhas durante o ano?
O clima é semiárido quente, com média anual de 26,6°C e cerca de 492 mm de chuva por ano, segundo o estudo da Ufal. As chuvas se concentram entre abril e julho, e outubro é o mês mais seco, com apenas 12,8 mm.
Temperaturas médias aproximadas com base em estudo da Ufal, com dados de 1911 a 1990. Condições podem variar.
O sertão que aprendeu a viver à beira do rio
Piranhas é uma cidade moldada pelo São Francisco. O rio trouxe os primeiros barcos, a ferrovia completou o caminho que as cachoeiras interrompiam, e o casario que surgiu desse movimento hoje é patrimônio nacional, junto com o próprio trecho de água que o cerca. Ao redor, a caatinga e os cânions protegidos lembram que, no sertão, a paisagem também é parte da história.
Você precisa descer as ladeiras de Piranhas no fim da tarde, parar diante do São Francisco e ver o casario refletido na água para entender por que essa cidade do sertão virou patrimônio do Brasil.




