O Pantanal costuma ser lembrado como um horizonte plano, onde a água avança e recua conforme as estações. Em Corumbá, no oeste de Mato Grosso do Sul, essa paisagem ganha um contraste inesperado: a cidade está a cerca de 130 metros de altitude, mas tem como vizinhos imediatos morros que passam de 1.000 metros, ricos em ferro e manganês. É ali, no Maciço do Urucum, que fica o ponto mais alto do estado e começa uma curva que altera o caminho do Rio Paraguai.
Onde fica o ponto mais alto de Mato Grosso do Sul?
Na Morraria de Santa Cruz, na divisa entre Corumbá e Ladário. Segundo o Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso do Sul (IHGMS), a morraria atinge 1.065 metros, a maior altitude do estado. Ela é cercada por outras elevações do mesmo conjunto, que formam uma espécie de ilha de montanhas no meio da planície: a do Urucum ao norte, a Grande e a do Rabichão ao leste, a de São Domingos ao sul e a da Tromba dos Macacos ao oeste.
O contraste com a cidade é enorme. A estação meteorológica de Corumbá fica a 130 metros de altitude, de acordo com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), o que coloca o topo da morraria mais de 900 metros acima das ruas do centro. O IHGMS lembra ainda que as cartas topográficas do Exército catalogaram 22 morrarias no relevo sul-mato-grossense, todas na região do Pantanal.

Por que o Rio Paraguai faz uma curva perto de Corumbá?
Porque o maciço funciona como uma barreira de rocha no caminho da água. Um estudo apresentado pela Universidade de São Paulo (USP) descreve o Maciço do Urucum como um conjunto que emerge a cerca de 1.000 metros em plena planície pantaneira, carrega uma das maiores jazidas de ferro e manganês do mundo e obriga o Rio Paraguai a fazer uma grande curva para o leste antes de retomar seu percurso de norte a sul.
A origem dessas montanhas é antiga. A ficha técnica das Key Biodiversity Areas, iniciativa internacional de áreas-chave para a biodiversidade, classifica o relevo como residual, ou seja, o que sobrou de um terreno mais extenso depois de movimentações tectônicas e milhões de anos de desgaste. O minério está tão presente na paisagem que, segundo a Prefeitura de Corumbá, trechos de estradas da região são cascalhados com minério de ferro.
O que fazer entre os morros e a planície?
A principal porta para explorar o Pantanal a partir da cidade é a Estrada Parque Pantanal. A Agência de Notícias do Governo de Mato Grosso do Sul descreve os principais pontos do percurso.
Que animais vivem nos morros de ferro?
Espécies que surpreendem até especialistas. A ficha das Key Biodiversity Areas destaca, nos bosques secos do maciço, a presença da choca-da-bolívia, ave de distribuição restrita no Brasil, e da choquinha-estriada-da-amazônia, que representa um elemento amazônico em meio a ambientes predominantemente secos. Ao sul do maciço, pesquisadores registraram ainda o tricolino-oliváceo, com poucos registros conhecidos no país.
A mesma fonte explica que a variedade de vegetação e de solos, em sua maioria rasos, cria uma alta riqueza de espécies vegetais na área. Em uma distância curta, o visitante passa das várzeas alagáveis do Pantanal para matas secas de encosta, um mosaico que ajuda a explicar por que os morros abrigam aves raras de origens tão diferentes.
Por que o maciço virou refúgio de clima ameno?
Por causa da altitude. De acordo com o IHGMS, o clima mais fresco nas partes altas do Maciço do Urucum, acima de 800 metros, motivou a construção de um sanatório militar no início do século XX, registrado no Álbum Gráfico do Estado de Mato Grosso, de 1914.
A vocação para o descanso durou décadas. O estudo da USP conta que a antiga Fazenda Urucum, aos pés dos morros, abasteceu Corumbá com alimentos e funcionou como balneário até a década de 1950. A mesma área testemunhou os primeiros passos da mineração de manganês no antigo Mato Grosso, a primeira atividade mineradora da região desde o fim dos ciclos do ouro e do diamante.

Como é o clima de Corumbá ao longo do ano?
O clima é quente, com verões chuvosos e invernos secos. Janeiro concentra 187 mm de chuva em média, enquanto julho registra 23 mm, e a Embrapa aponta que as máximas absolutas chegaram a 40°C entre outubro e dezembro.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Os morros que dão outra forma ao Pantanal
Corumbá mostra que o Pantanal não é feito só de horizonte. Bem perto de uma cidade que vive a 130 metros de altitude, morros ricos em ferro sobem acima dos 1.000 metros, abrigam o ponto mais alto do estado e desviam o curso do Rio Paraguai. Nas encostas, aves raras dividem espaço com matas secas, e a memória de antigas fazendas lembra que o alto do maciço foi, por muito tempo, sinônimo de descanso e clima ameno.
Você precisa percorrer a Estrada Parque, olhar para trás e ver os morros de ferro se erguendo sobre a planície alagada para entender por que Corumbá guarda uma das paisagens mais surpreendentes do Brasil.




