Quando o milho atravessou o Atlântico após 1492, ganhou espaço como alimento abundante e resistente. Séculos depois, regiões europeias que passaram a depender dele enfrentaram uma doença misteriosa: a pelagra. A pele reagia ao sol, o sistema nervoso sofria e muitos pacientes morriam. O enigma persistiu até pesquisadores relacionarem a doença à alimentação e à deficiência de niacina, um nutriente essencial.
Por que o milho podia estar ligado a uma doença tão grave?
O milho não era venenoso por si só. O problema surgia quando se tornava a base quase exclusiva da alimentação, especialmente entre populações pobres com pouco acesso a carne, leite, ovos e outros alimentos ricos em nutrientes. Nessa situação, a dieta podia fornecer energia suficiente, mas falhava em substâncias essenciais para manter o organismo funcionando.
A pelagra ficou marcada por alterações na pele exposta ao sol, problemas digestivos e manifestações neurológicas. Em casos prolongados, a deficiência podia evoluir para confusão mental, alterações comportamentais, fraqueza e outros danos graves. A combinação de alimentação limitada e pobreza ajudou a espalhar a doença em partes da Europa onde o milho substituiu outros cereais.

O que faltava na alimentação baseada principalmente em milho?
A pelagra ficou associada a dietas muito pobres em variedade. O milho fornecia calorias e podia sustentar populações inteiras, mas, quando consumido quase sozinho, não entregava quantidades adequadas de alguns nutrientes. A situação se agravava entre comunidades com pouco acesso a alimentos de origem animal, leguminosas e outras fontes de proteínas e vitaminas.
Pesquisas do National Institutes of Health sobre Joseph Goldberger e a pelagra mostram que o médico demonstrou, no início do século XX, a relação entre a doença e a deficiência nutricional, não uma infecção. Em 1937, a niacina, também chamada vitamina B3, foi identificada como o componente cuja deficiência causava a doença.
Por que os médicos demoraram tanto para descobrir a verdadeira causa da pelagra?
Durante muito tempo, médicos procuraram explicações diferentes para a doença. Alguns suspeitavam que o próprio milho fosse tóxico; outros atribuíam os sintomas ao sol, a microrganismos ou às condições de armazenamento. A dificuldade aumentava porque a pelagra aparecia principalmente entre pessoas pobres, fazendo a doença parecer ligada ao ambiente ou ao próprio modo de vida.
Os experimentos conduzidos por Goldberger mudaram essa interpretação. Ao observar instituições onde pessoas recebiam dietas semelhantes e ao modificar a alimentação de grupos afetados, ele encontrou evidências de que determinados nutrientes tinham papel decisivo. A melhora após a inclusão de alimentos mais nutritivos ajudou a afastar a hipótese de contágio e abriu caminho para a explicação nutricional.

Quais fatores transformavam uma dieta de milho em risco para a saúde?
A diferença estava no modo de preparar o milho e, principalmente, na variedade da alimentação. Povos americanos já utilizavam técnicas alcalinas que aumentavam a disponibilidade da niacina presente no grão. Na Europa, o milho frequentemente era consumido sem esse tratamento, enquanto dietas muito pobres em proteínas agravavam a falta de nutrientes.
Alguns fatores transformavam uma dieta baseada em milho em terreno favorável à pelagra:
O que a história da pelagra revela sobre a forma de consumir o milho?
A resposta também explica por que a história do milho não deve ser contada apenas como uma questão de alimento bom ou ruim. O grão pode fazer parte de uma alimentação adequada, mas uma dieta muito restrita pode produzir deficiências. A pelagra mostrou que quantidade de comida e qualidade nutricional são questões diferentes.
O episódio deixou uma lição prática que continua relevante: alimentos básicos precisam estar inseridos em uma dieta variada. A prevenção da deficiência de niacina depende de ingestão adequada desse nutriente e de proteínas, além de condições que permitam acesso regular a diferentes grupos alimentares. O antigo mistério acabou revelando um princípio simples de nutrição.

