A tradição de celebrar ocasiões especiais com bebidas alcoólicas está enraizada na cultura brasileira, especialmente nas festas de final de ano. Seja em comemorações de Natal ou na virada do ano, o consumo de álcool é visto como um componente essencial das festividades. No entanto, o aumento do consumo sem moderação pode desencadear problemas de saúde significativos, como a síndrome do Coração Festeiro. Essa condição, conhecida em inglês como “holiday heart syndrome”, está associada ao desenvolvimento de arritmias cardíacas, particularmente a fibrilação atrial, quando há ingestão excessiva de bebidas alcoólicas.
Durante um episódio de fibrilação atrial, os átrios do coração, as cavidades superiores, experimentam uma atividade elétrica desorganizada e trêmula, enquanto os ventrículos, que são as partes inferiores, operam irregularmente. Isso provoca um ritmo cardíaco descompassado que se manifesta através de palpitações, cansaço e falta de ar. Geralmente, esses sintomas podem surgir durante a embriaguez ou algumas horas depois. O impacto direto dessa condição é evidente, mas é importante destacar que somente um consumo de álcool consideravelmente elevado a desencadeia.
Qual é a história por trás da síndrome do Coração Festeiro?
Descritivamente, a síndrome foi mencionada pela primeira vez em 1978 por meio de um artigo no American Heart Journal. Inicialmente, era tratada como uma hipótese, vinculada à observação de poucos casos clínicos em Nova Jersey, nos Estados Unidos. Nas décadas seguintes, diversos estudos investigaram essa relação, e uma revisão publicada em fevereiro de 2025 na revista Cureus corroborou que o binge drinking, ou o consumo de grandes quantidades de álcool em um curto espaço de tempo, é um fator desencadeante significativo para a fibrilação atrial. O impacto foi observado consistentemente em várias populações, incluindo jovens saudáveis que apresentaram alterações no sistema nervoso autônomo, essenciais para o controle cardíaco.

Por que a síndrome ainda é subestimada?
A síndrome do Coração Festeiro, apesar de seus efeitos adversos, tende a ser subestimada por muitos. Isso ocorre principalmente porque a arritmia muitas vezes melhora espontaneamente em até 48 horas, raramente exigindo cuidados hospitalares extensivos. Contudo, a ausência de um exame médico aprofundado para verificar se a arritmia é persistente ou apenas fruto de um evento isolado, pode levar a recorrências, especialmente em um cenário onde o consumo de álcool é alto. Um dado relevante é que, de acordo com a Universidade Federal de São Paulo, cerca de 24 milhões de brasileiros indicaram beber de forma exagerada em 2024.
É possível beber com segurança sem afetar o coração?
Os riscos do álcool para o coração não se aplicam exclusivamente ao consumo excessivo. Não existe um nível de ingestão de álcool considerado universalmente seguro para evitar a fibrilação atrial, e a Organização Mundial da Saúde não determina um limite seguro nem para pessoas sem condições de saúde preexistentes. Indivíduos mais propensos a arritmias incluem aqueles com doenças cardiovasculares, como pressão alta ou infarto prévio. Independentemente do histórico, é crucial consultar um cardiologista para avaliar os riscos pessoais e explorar medidas preventivas.
Como lidar com o consumo de álcool nas festividades?
O equilíbrio deve ser a prioridade nas celebrações. Pessoas que desejam incluir bebidas alcoólicas na comemoração podem fazê-lo, desde que evitem excessos. Monitorar o consumo, espaçar as doses para permitir a metabolização adequada pelo organismo, manter-se bem hidratado, consumir refeições leves e dormir bem são estratégias recomendadas. Estas precauções não só ajudam a prevenir problemas agudos como a síndrome do Coração Festeiro, mas também contribuem para uma experiência de celebração mais saudável e segura.
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Dra. Anna Luísa Barbosa Fernandes
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