Existe um lugar no Brasil onde 35 pessoas vivem espremidas num tubo de 72 metros, a até 300 metros de profundidade, sem ver o sol por semanas. A temperatura é mantida em torno de 20 graus, a água potável é racionada a ponto de o comandante poder suspender o hábito de barbear, e qualquer emergência precisa ser resolvida em 30 segundos. Não é ficção: é a rotina a bordo do S-40 Riachuelo, o primeiro submarino do maior programa de defesa do país. Aqui está como se vive lá dentro.
Que submarino é esse?
Ele é o primeiro de uma família nova, e não é uma cópia do projeto original.
O Riachuelo lidera a classe que leva seu nome, derivada dos Scorpène franceses, dentro do Prosub, o Programa de Desenvolvimento de Submarinos. Mas a versão brasileira é maior: 71,62 metros e 1.870 toneladas, contra 66,4 metros e 1.717 toneladas do francês. Esses cinco metros a mais não são estética. São combustível e mantimento, ou seja, autonomia, exigência das dimensões continentais do país.

Quanto tempo dura uma patrulha?
O número explica por que a vida a bordo é o que é.
Os dados operacionais:
- Tripulação de 35 militares.
- Capacidade operativa de até 70 dias no mar.
- Até 5 dias submerso sem precisar vir à tona.
- Profundidade de até 300 metros.
- Armado com 18 torpedos pesados F-21 e mísseis Exocet.
Como se vive sem ver o sol?
Aqui está o detalhe que a reportagem de bordo revelou e que ninguém imagina.
Segundo relato publicado após visita ao interior do submarino, durante os 70 dias de patrulha a água potável é artigo de luxo. É preciso economizar o líquido dos tanques, que também serve para cozinhar. Sob ordem do comandante, o hábito de barbear pode ser suspenso, e cada tripulante deve acelerar a higiene pessoal ao máximo. O rosto bem barbeado, marca registrada do militar, é a primeira coisa que a profundidade toma.
Por que faz frio lá dentro?
A resposta não tem nada a ver com conforto humano.
O ambiente é gélido por causa do ar-condicionado, e no mar a temperatura é mantida ainda mais baixa, em torno de 20 graus. O objetivo é evitar o aquecimento dos sistemas eletrônicos. Ou seja: a temperatura é ajustada para as máquinas, e os 35 humanos se adaptam. É um bom resumo da lógica de bordo.
| Parâmetro de Bordo | Capacidade / Limite do S-40 |
|---|---|
| Autonomia de Mar | Até 70 dias em missão ativa |
| Oxigênio Interno (Submerso) | Até 5 dias sem renovação de atmosfera |
| Temperatura Ambiente | Fixada em 20°C para proteção do maquinário |
| Tempo de Reação Técnico | Máximo de 30 segundos em caso de avaria |
Como o submarino respira?
O mecanismo é engenhoso e explica os cinco dias de imersão contínua.
As baterias movimentam o motor elétrico e precisam ser recarregadas por um motor a diesel acoplado a um gerador, que puxa oxigênio da atmosfera. Mas o submarino não precisa emergir para isso. Ele lança até a superfície o snorkel, uma estrutura que funciona como um grande aspirador, sugando ar para dentro. Assim ele respira sem se mostrar, que é a razão de existir de um submarino.
Qual é a regra dos 30 segundos?
Este é o número que define a vida do submarinista, e ele é implacável.
A tripulação é treinada à exaustão para prevenir vazamentos e alagamentos, porque uma simples fissura pode levar à tragédia. Nas palavras de um dos militares na reportagem, qualquer emergência a bordo exige reação em prazo máximo de 30 segundos, sob risco de perder o submarino. Depois da água, o fogo é o maior perigo. Não há para onde correr, não há socorro externo, não há tempo de pensar.
Por que o risco é tão real?
Porque existe um precedente recente e próximo, e todo submarinista o conhece.
O medo que ronda a profissão tem nome: o ARA San Juan, submarino argentino desaparecido com 44 tripulantes. Para o submarinista, a falha não significa apenas perder o equipamento. Significa uma morte lenta, num tubo lacrado, no fundo do oceano. É esse cenário que justifica os dois anos de treinamento da primeira tripulação do Riachuelo, conduzido por instrutores da empresa parceira do Ministério da Defesa francês.
Quanto custa o programa?
Convém separar o submarino do pacote, porque os números circulam confusos.
O Prosub tem custo estimado em R$ 36 bilhões, mas isso não é o preço de um submarino. O valor cobre a construção dos quatro convencionais, o desenvolvimento do submarino nuclear Álvaro Alberto, e a construção do estaleiro e da base naval em Itaguaí. Há ainda o custo de operar: a Marinha calculou que, a cada cinco anos, as embarcações da classe exigirão cerca de R$ 1 bilhão apenas em serviços, sem contar sobressalentes.

Para que serve tudo isso?
A missão tem endereço, e ele é maior que a maioria dos países.
Conforme a Marinha do Brasil, os quatro submarinos convencionais permitirão maior poder de dissuasão nos 5,7 milhões de km² da Amazônia Azul, o território marítimo brasileiro cuja riqueza das águas, do leito e do subsolo interessa ao desenvolvimento econômico, científico e ambiental. Um submarino não serve para atacar: serve para que ninguém tente.
O que o Brasil ganha além do submarino?
A resposta está no acordo, não no casco.
O Prosub é um acordo de transferência de tecnologia firmado com a França em 2008. Os submarinos são construídos em Itaguaí, hoje um dos mais modernos estaleiros de construção naval em operação, porque esse tipo de fabricação exige mão de obra altamente qualificada e parque industrial equipado. A classe Riachuelo é a fase intermediária: ela existe para preparar o país para o Álvaro Alberto, o primeiro submarino nuclear do hemisfério sul. Projetos assim exigem décadas de constância, algo que o provérbio japonês sobre paciência descreve bem: a água não corta a pedra pela força.
Que tipo de gente aguenta isso?
É a pergunta que sobra depois de conhecer os números.
Setenta dias sem sol, banho cronometrado, frio permanente, 34 pessoas ocupando cada centímetro do seu espaço e a consciência de que 30 segundos separam a rotina da catástrofe. O submarinista escolhe isso, e muitos passam mais de uma década na função. Não é resistência física apenas: é uma disposição mental específica para o confinamento e a repetição, terreno que a psicologia estuda ao analisar como as pessoas lidam com o isolamento.
O que convém lembrar sobre o Riachuelo
O S-40 é o primeiro submarino da classe brasileira derivada do Scorpène francês, com 71,62 metros e 1.870 toneladas, maior que o original para ganhar autonomia. Leva 35 tripulantes, opera até 70 dias no mar e chega a 300 metros de profundidade, passando até cinco dias submerso sem emergir. A bordo, a água é racionada, a temperatura fica em 20 graus para proteger os sistemas e qualquer emergência exige reação em 30 segundos. Ele é a etapa intermediária rumo ao submarino nuclear Álvaro Alberto.
Este conteúdo tem finalidade informativa e reúne informações públicas disponíveis na data de publicação. Dados de programas de defesa podem sofrer atualizações; consulte fontes oficiais da Marinha do Brasil.


