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O vilarejo com 100 cachoeiras dividido entre RJ e MG onde o rio separa dois estados e convida para um café junto à lareira

Por Maura Pereira
07/08/2026
Em Cidades, Turismo
O vilarejo com 100 cachoeiras dividido entre RJ e MG onde o rio separa dois estados e convida para um café junto à lareira

Visconde de Mauá não é uma cidade nem um município: é um distrito rural formado pelas vilas de Mauá, Maringá e Maromba. / IMAGEM ILUSTRATIVA

Basta cruzar uma ponte de madeira sobre o Rio Preto para trocar o Rio de Janeiro por Minas Gerais em poucos passos. Visconde de Mauá, encravado na Serra da Mantiqueira a 1.400 metros de altitude, é um conjunto de três vilas espalhadas por dois estados, reunidas pelo mesmo fio de água gelada que desce a serra formando piscinas naturais de filme.

Um distrito, três vilas, três prefeituras

A curiosidade administrativa começa no mapa. Visconde de Mauá não é uma cidade nem um município: é um distrito rural formado pelas vilas de Mauá, Maringá e Maromba, todas cortadas pelo Rio Preto. Como o rio faz a divisa natural entre Rio de Janeiro e Minas Gerais, o distrito é administrado por três prefeituras diferentes: Resende e Itatiaia, no lado fluminense, e Bocaina de Minas, no lado mineiro.

O ponto mais fotografado dessa geografia rara fica em Maringá. A vila está cortada ao meio pelo Rio Preto, com uma margem em Itatiaia e a outra em Bocaina de Minas. A travessia acontece a pé pela Ponte Tia Sofia, estrutura de madeira para pedestres que liga os dois lados do centrinho comercial, um dos cenários mais buscados por quem chega ao vilarejo.

O resultado é uma experiência única. Cruzar a ponte de madeira significa mudar de estado sem sair do quarteirão, uma sensação que poucos destinos do Brasil conseguem oferecer. As placas mudam, os prefixos telefônicos mudam, mas as araucárias e o silêncio da serra permanecem os mesmos.

O vilarejo com 100 cachoeiras dividido entre RJ e MG onde o rio separa dois estados e convida para um café junto à lareira
Visconde de Mauá desafia tudo o que se espera do estado do Rio de Janeiro // Créditos: Wikipedia / Wikimedia Commons

O nome vem de um dos maiores empreendedores do Brasil imperial

A homenagem tem raiz histórica. O distrito leva o nome de Irineu Evangelista de Souza, o Barão e depois Visconde de Mauá, banqueiro, industrial e diplomata do século XIX. Ele foi o responsável pela primeira ferrovia do Brasil e pela instalação do cabo submarino de telégrafo entre a América do Sul e a Europa, além de ter fundado bancos e estaleiros pioneiros.

A ligação com a Mantiqueira começou em 1870. Naquele ano, o Visconde recebeu as terras da atual região como concessão do Império, cobertas por Mata Atlântica preservada e por araucárias centenárias. Após a morte do Visconde em 1889, as áreas passaram ao filho, o comendador Henrique Irineu de Souza, que iniciou a ocupação da serra ainda no fim do século XIX.

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Foi ele quem abriu a região à Europa. Segundo o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), o Governo Federal adquiriu em 1908 sete fazendas do comendador para criar os núcleos coloniais Visconde de Mauá e Itatiaia, destinados ao cultivo de frutas. Entre 1908 e 1916, o Serviço de Povoamento do Solo Nacional atraiu imigrantes de nove nacionalidades para a serra: suíços, alemães, austríacos, portugueses, espanhóis, italianos, poloneses, húngaros, franceses e russos.

Nove nacionalidades que deram identidade à serra

Cada grupo trouxe um pedaço da Europa para a Mantiqueira. Os chalés de madeira, as receitas de pinhão, os fondues no inverno e a criação de trutas em tanques de nascente vieram das famílias europeias que se fixaram na região no início do século XX. É essa herança que ainda define o charme das três vilas hoje.

A arquitetura acompanhou o clima. As pousadas com telhados inclinados, madeiramento aparente e lareiras acesas nos meses mais frios nasceram dessa influência dupla, alpina e serrana. Restaurantes na Vila de Maringá ainda servem pratos italianos, alemães e franceses lado a lado, no maior polo gastronômico do distrito.

A vocação turística cresceu naturalmente. Foram as famílias europeias que iniciaram a exploração turística da região, e o modelo se consolidou ao longo do século XX com a chegada de visitantes do Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte. Hoje, Visconde de Mauá reúne cerca de 150 opções de hospedagem, dezenas de restaurantes e mais de 100 cachoeiras acessíveis por trilhas em plena Mata Atlântica.

Como o distrito deu origem ao primeiro Parque Nacional do Brasil

A vocação ambiental esteve entre as primeiras defendidas para a região. Ainda em 1878, o engenheiro André Rebouças, responsável pela primeira proposta de criação de parques nacionais no país, escreveu o texto Ao Itatiaia, defendendo a contemplação da natureza como atividade fundamental para o bem-estar humano.

O impulso científico veio em 1913. Segundo o ICMBio, o naturalista suíço Joseph Hubmayer e o botânico Alberto Loefgren defenderam a criação de um Parque Nacional na Mantiqueira, preocupados com o desmatamento e o uso do fogo na região. Em 1918, foi criada no local a Estação Biológica do Itatiaia, subordinada ao Jardim Botânico do Rio de Janeiro.

O decreto histórico veio quase duas décadas depois. Em 14 de junho de 1937, o Decreto nº 1.713, do presidente Getúlio Vargas, criou o Parque Nacional do Itatiaia com 11.943 hectares iniciais, o primeiro parque nacional do Brasil. Segundo o ICMBio, a unidade abrange hoje parte dos municípios de Itatiaia e Resende, no Rio de Janeiro, e de Itamonte e Bocaina de Minas, em Minas Gerais.

O que fazer entre cachoeiras, pontes de madeira e as três vilas

O roteiro combina natureza preservada, cafés à beira do rio e caminhadas curtas entre as vilas. A maioria das atrações fica em raio de até 15 km.

  • Ponte Tia Sofia: ponte de madeira sobre o Rio Preto na Vila de Maringá, onde se atravessa a divisa Rio-Minas a pé em poucos passos.
  • Cachoeira do Escorrega: uma das mais visitadas do distrito, com toboágua natural em pedra polida na Vila de Maromba.
  • Vale das Cachoeiras de Santa Clara: sequência de quedas d’água a 10 minutos da Vila de Maringá, com piscinas naturais e trilhas em Mata Atlântica.
  • Cachoeira Véu de Noiva: queda alta e imponente cercada por vegetação nativa, ideal para caminhadas guiadas.
  • Parque Estadual da Pedra Selada: 8.036 hectares administrados pelo estado do Rio, com trilhas e mirantes com vista da formação rochosa em forma de sela de cavalo.
  • Parque Nacional do Itatiaia: primeiro parque nacional do Brasil, com trilhas de longa distância e observação de fauna preservada.
  • Vila de Maringá: centro gastronômico do distrito, com restaurantes especializados em trutas e cozinha europeia.
O vilarejo com 100 cachoeiras dividido entre RJ e MG onde o rio separa dois estados e convida para um café junto à lareira
Visconde de Mauá transformou o insucesso rural em vocação turística e virou parada obrigatória para quem quer ver a Mantiqueira de frente. / Créditos: Wikipédia

Leia também: Cresce 44% o número de brasileiros indo viver na cidade do 2º maior porto do Brasil, PIB per capita de R$ 182 mil e o 4º m² mais caro do país em 12 anos se tornando a nova joia catarinense.

A mesa dos imigrantes e das trutas de altitude

A gastronomia carrega a herança dos colonos europeus e a fartura das águas frias de nascente. Restaurantes e cantinas concentram-se na Vila de Maringá, na Alameda Tia Sofia.

  • Truta: peixe símbolo da região, criado em tanques alimentados por águas de nascente, servido grelhado, defumado ou ao molho de champagne.
  • Pratos com pinhão: receitas com a semente da araucária, herança dos imigrantes italianos e alemães.
  • Fondue: presença certa nos meses de inverno, com receitas de queijo, carne e chocolate em ambientes rústicos com lareira.
  • Massas artesanais: raviólis, nhoques e capeletes feitos em cantinas familiares de tradição italiana.

Como é o clima de Visconde de Mauá durante o ano?

A altitude de 1.400 metros garante temperaturas amenas o ano inteiro. O inverno é frio, ideal para lareira e vinho quente, enquanto o verão traz dias claros e piscinas naturais para banho.

☀️ Verão Dez – Fev
Média: 15-26°C
Chuva: 🌧️ Alta
Aproveite a Cachoeira do Escorrega e Santa Clara.
🍂 Outono Mar – Mai
Média: 11-22°C
Chuva: 🌦️ Média
Excelente momento para explorar as Trilhas na Pedra Selada.
❄️ Inverno Jun – Ago
Média: 3-18°C
Chuva: ☀️ Baixa
Ideal para curtir Fondues e Parque Nacional do Itatiaia.
🌺 Primavera Set – Nov
Média: 10-23°C
Chuva: 🌦️ Média
Perfeito para visitar o Bosque do Visconde e Vila de Maringá.
💡 Dica do especialista: O inverno (3°C a 18°C), com chuva baixa, é o período ideal para curtir Fondues e Parque Nacional do Itatiaia com tempo firme. Já no verão, a Cachoeira do Escorrega e Santa Clara garantem passeios inesquecíveis e um clima muito agradável para explorar a região!

Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.

Como chegar ao refúgio da Mantiqueira

Visconde de Mauá fica a cerca de 200 km da capital fluminense, com acesso principal pela Rodovia Presidente Dutra até Resende ou Itatiaia, e depois pela serra por rodovias secundárias. De São Paulo, são cerca de 260 km pela mesma Dutra. Quem vem de Minas Gerais pode usar a BR-267 de Juiz de Fora até Liberdade, seguindo depois para Bocaina de Minas. O Aeroporto Internacional Tom Jobim (Galeão) é a principal porta aérea.

O vilarejo entre dois estados

Poucos destinos brasileiros oferecem em raio tão curto duas margens de estado diferente, quase dois séculos de história, o primeiro parque nacional do país e uma gastronomia serrana com herança de nove países. Visconde de Mauá guarda o silêncio das araucárias, o barulho das cachoeiras geladas e o convite discreto para um café ao lado da lareira.

Você precisa conhecer Visconde de Mauá e atravessar a Ponte Tia Sofia a pé para viver o raro momento de mudar de estado em poucos passos.

Tags: Rio de JaneiroVisconde de Mauá
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