A cerca de 300 km da capital Palmas, no leste do Tocantins, o Jalapão é uma das últimas grandes fronteiras do ecoturismo brasileiro. Reúne 34 mil km² de cerrado preservado, dunas de até 30 metros de altura, cachoeiras de águas azul-esverdeadas e mais de 20 fervedouros, nascentes subterrâneas onde a pressão da água impede que qualquer pessoa afunde. É o maior trecho contínuo de cerrado em alto grau de conservação do Brasil, guardado pelo Parque Estadual do Jalapão e pela comunidade quilombola de Mumbuca, berço do artesanato de capim dourado.
Do cerrado preservado ao Deserto das Águas
A região é atravessada pelo Aquífero Urucuia, um dos maiores reservatórios de água subterrânea do país, com 142 mil km² de extensão. Essa fartura hídrica sob a areia deu origem ao apelido de Deserto das Águas. As dunas alaranjadas se formaram há milhares de anos pela erosão natural das rochas de arenito da Serra do Espírito Santo, criando um cenário que parece fora do Cerrado.
Segundo o Governo do Tocantins, o Parque Estadual do Jalapão foi criado em 12 de janeiro de 2001 pela Lei Estadual nº 1.203 e completou 25 anos em 2026. Com mais de 158 mil hectares concentrados no município de Mateiros, a unidade é administrada pelo Instituto Natureza do Tocantins (Naturatins). O parque integra um mosaico com a Área de Proteção Ambiental (APA) do Jalapão, com 461 mil hectares, a Estação Ecológica Serra Geral do Tocantins e o Parque Nacional das Nascentes do Rio Parnaíba, formando o maior trecho contínuo de cerrado bem conservado do país.

O que fazer no Jalapão em cinco dias?
Cinco dias é o mínimo recomendado para o roteiro clássico, com base em Mateiros, Ponte Alta do Tocantins e São Félix do Tocantins. As distâncias são grandes e as estradas de terra exigem veículo 4×4 acompanhado de guia credenciado.
- Fervedouros: nascentes subterrâneas alimentadas pelo Aquífero Urucuia, onde a pressão da água atravessa a areia fina e impede qualquer pessoa de afundar. Os mais famosos são o Fervedouro do Ceiça, do Rio Sono e o Encontro das Águas, com profundidade de até 70 metros.
- Dunas do Jalapão: bancos de areia de quartzo com até 30 metros de altura, ideais para o pôr do sol dourado que tinge todo o horizonte, dentro do Parque Estadual.
- Cachoeira da Formiga: a 36 km de Mateiros, tem queda pequena de menos de 2 metros e poço cristalino azul-esverdeado ideal para snorkeling, fundo de areia branca finíssima.
- Cachoeira da Velha: a maior do parque, com 100 metros de largura e 15 metros de queda no Rio Novo. O banho na base é proibido pela força da água, mas o rafting leva até o pé do véu.
- Pedra Furada: formação rochosa de arenito esculpida pelo vento, a 35 km de Ponte Alta do Tocantins, ideal para fotos ao pôr do sol.
- Cânions e Corredeiras do Rio Sono: paredões de arenito e cachoeiras em Monumento Natural estadual, cenário procurado por praticantes de rafting.
- Comunidade Quilombola Mumbuca: berço do artesanato de capim dourado, com loja da associação e experiência cultural com as artesãs que costuram bolsas, biojoias e mandalas.
- Cachoeira da Arara: em São Félix do Tocantins, é operada por família local, com águas verde-esmeralda transparentes e restaurante regional no local.
Capim dourado, a joia do cerrado tocantinense
A curiosidade que define a identidade cultural do Jalapão é o capim dourado. Apesar do nome, não é capim, mas uma sempre-viva chamada Syngonanthus nitens, endêmica das veredas do cerrado jalapoeiro, cujo brilho metálico natural vem da alta concentração de alumínio no solo. Segundo o UAI Notícias, a técnica de costurar as hastes com seda de buriti foi aprendida com indígenas Xerente na década de 1920 e passada de geração em geração pelas mulheres da comunidade quilombola Mumbuca.
O reconhecimento veio em escala federal. Em 12 de julho de 2011, o Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) concedeu a Indicação Geográfica de Procedência ao artesanato. Em 2024, duas leis federais consagraram a tradição: a Lei 15.005 declarou o artesanato como manifestação da cultura nacional, e a Lei 15.050 concedeu a Mateiros o título de Capital Nacional do Capim Dourado. A colheita só pode acontecer entre 20 de setembro e 20 de novembro, e o material não pode sair da região sem beneficiamento.
Sabores da mesa jalapoeira
A cozinha combina tradição do Cerrado, receitas caboclas do interior tocantinense e a fartura dos rios de águas cristalinas. Os pratos são simples, servidos em cantinas familiares.
- Peixes do Rio Novo: pratos com traíra, piaba e tucunaré preparados assados na brasa ou fritos, servidos com farinha de mandioca e arroz.
- Frango caipira: criado solto pelas famílias das cidades-base, servido com paçoca de carne seca e arroz de leite.
- Pequi: fruto do Cerrado servido com arroz, galinha ou em conserva, marca característica dos meses de dezembro a março.
- Doces do cerrado: compotas de buriti, mangaba e cagaita, herança das comunidades quilombolas e caboclas da região.

Qual a melhor época para visitar o Jalapão?
O clima é tropical do Cerrado, com temperaturas elevadas o ano todo. A estação seca vai de maio a setembro, com estradas em boas condições. A chuvosa concentra-se de outubro a abril, e o acesso fica mais difícil por conta da lama nas trilhas de terra.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Setembro é o mês mais especial: as dunas alaranjadas ganham o céu mais limpo do ano e o capim dourado atinge o brilho máximo antes da colheita. A Festa da Colheita do Capim Dourado, em setembro, reúne artesãs, música, cantigas de roda e viola de buriti. Entre junho e agosto, o clima seco e as temperaturas amenas favorecem o roteiro completo.

Como chegar no Jalapão?
A porta de entrada é o Aeroporto Brigadeiro Lysias Rodrigues, em Palmas, que recebe voos diários das principais capitais brasileiras. De lá, o trajeto até Mateiros soma cerca de 300 km, pela TO-050 até Porto Nacional e depois pela TO-255 via Ponte Alta do Tocantins. Boa parte é asfaltada, mas o trecho final tem estrada de terra que exige veículo 4×4.
É indispensável contratar operadora ou guia credenciado. O sinal de celular desaparece em boa parte do roteiro, e os postos de combustível são escassos. Em 2008, a região ganhou projeção internacional quando a rede americana CBS gravou a 18ª temporada do reality Survivor: Tocantins em suas dunas e cânions.
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Vá conhecer o Jalapão
Poucos destinos brasileiros conseguem entregar 158 mil hectares de cerrado protegido, mais de 20 fervedouros com nascentes subterrâneas que desafiam a gravidade, dunas de 30 metros e o berço do artesanato de capim dourado no mesmo endereço. O Jalapão segue no ritmo das artesãs de Mumbuca, do silêncio absoluto do cerrado e das águas cristalinas que brotam da areia sem explicação aparente.
Você precisa flutuar em um dos fervedouros e ver o pôr do sol no topo das dunas para entender por que o Deserto das Águas virou um dos destinos de ecoturismo mais fascinantes do Brasil.




